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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

02
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.5

samueldabo

Ao jantar, falaram de factos passados, acidentes escolhidos em momentos de procura. O embuste das palavras, a teatralização  estudada que nos leva a sentir, a acreditar.

Alberto falou da sua relação com Mariana. Da paixão violenta. Era bom fazer sexo com ela e no fim, sentir o bem estar das coisas conseguidas. Não ter reparado em como era possessiva. Apenas fazer sexo com ela. E acorrer a todas as chamadas. Até ao dia em que, confrontados com uma situação difícil , tudo se desmoronou. Era frágil o elo de ligação. O que eu queria era o absoluto, no amor. Conciliar o ser e o haver, numa absorção total das duas mentes, como uma só. Que se digladiam , se confrontam, se violentam, por vezes, como nós em nós, mas que se amam acima de tudo, tudo mesmo. Porque se confiam e esperançam a cada momento de vida, se respiram. Não fingir. Não há seres perfeitos. Saber gostar, amar as imperfeições do outro.

Carla deixara de comer, embevecida, com a ternura das palavras. A mão pousada sobre a mão dele como que a estabelecer um elo. E não se conteve.

- E que situação foi essa? Queres falar sobre isso? Meu amor! Como eu me sinto ir, liar-me no menino triste que ainda há em ti. Como eu te amo!

Alberto estremeceu. Em milésimos de segundo permitiu-se pensar que naquelas palavras não havia teatro. O ar doce de Carla. Os olhos a espelhar lealdade.

-Mulher linda da minha vida. Vamos viver o absoluto do amor! Amo-te tanto. É tal o prazer de estar aqui e ver a tua imagem, desde há dias, a tua imagem. Deslumbrante que me esqueci de te dizer quem sou, o que faço.

Alberto levantou-se da cadeira e deu-lhe um beijo sobre os olhos, quente e húmido e voltou a sentar-se sem deixar de a fitar e ela nele, como serpente e presa cada qual, o ser e o não ser.

-Sou livreiro. O meu pai deixou-me uma loja que vende sonhos. Mariana era jurista, fria, calculista. Sei-o hoje. Eu tenho um irmão que foi arrastado pelo sórdido lado da vida. Drogas pesadas. Roubou. Foi preso. O que eu esperava de Mariana era que o defendesse em tribunal. Que usasse todos os trunfos. Que afrontasse o sistema. Que fosse um eu nela e ela em mim. E ela recusou. Não queria manchar a sua reputação. Podia entregar o caso a um colega. Foi o fim. Acabei de deitar o que quer que restasse.

Nos olhos de Carla a luz, sem lamechas. Um sorriso doce de esperança. O belo e diáfano som da sua voz.

-E salvaste-o?

-Sim, está num centro de recuperação . Há já um ano.

Pagaram, levantaram-se e seguiram enlaçados, os corpos embatendo-se a cada passada,

um último olhar à Lua e ao reflexo sobre as águas calmas da baía, beijando-se, arrulhando e sentindo-se, como um só, o pulsar apreçado do coração.

Subiam a rua da Sé envoltos no quase silêncio pelo adiantar da hora. E Alberto, ao ouvido, num sussurro.

-Não tens medo?

-Oh! Não. isto não é Lisboa. É uma cidade pacata. Nunca acontece nada. E agora tenho-te, querido, para me proteger .

A noite a refrescar e uma ténue neblina a emprestar um ar soturno aos candeeiros de luz mortiça, emblemática duma cidade quase museu.

Alberto olhou em volta, a rua deserta. Vindos da Praça velha, dois carros em andamento lento. De cima nada.

Um dos carros parou, no preciso momento em que Carla mudou de posição e se colocou do lado esquerdo de Alberto. Da janela entretanto aberta, uma mão forte arrancou a mala de mão de Carla e arrancou na direcção das Covas.

Alberto, num impulso, deus alguns passos em perseguição do carro que, um pouco à frente, deitou pela mesma janela a mala , a mesma mala.

 Apanhou-a e voltou-se, com um ar triunfante, mas?...Nada. O vulto de Carla, debatendo-se, os olhos de pânico, no interior do outro carro que seguiu a alta velocidade, o chiar dos pneus na pedra polida da rua da Sé. O ar desesperado de Alberto, sem compreender, sem aceitar, sem querer acreditar, olhando ainda em volta, no espaço interior  do recanto exterior   da loja.

Tinha visto um policia junto à Caixa, correu em desvario. O policia também tinha seguido o desenlace do rapto.  Vinha a subir na direcção de Alberto. Tirou as matriculas porque lhe tinham parecido suspeitos. Iria tratar de tudo, fechar portos de saída. Aeroporto. Que tivesse calma. é uma questão de tempo. Estamos numa ilha.

continua

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

30
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . cont.3

samueldabo

Sentia a humidade do ar quente a aproximar-se e o corpo dela junto ao meu em pequenas convulsões.

Era um ponto aberto entre a folhagem que  se estendia  densa e perturbante, ao longo do caminho, o cais da Silveira, a baía em baixo, as pedras de lava e o mar a perder de vista.

- Deste ponto, ás vezes, quando as noites são escuras e o céu está limpo, vê-se um ponto luminoso, longe, S.Jorge , e eu vinha, adolescente, sentir que não estava só, que ali havia mundo, gente. E era um momento de doce magia.

Uma chuva miúda, como pétalas de hortênsias fenecidas, a adocicar o enlevo de estarmos aqui, as tuas pernas um pouco mais expostas, a pele lisa, aveludada a pedir afagos. Os meus olhos.

-É uma imagem bucólica. O sonho construído através dum ponto.

-Oh! As horas! Os meus pais são intransigentes com o almoço de Domingo, tenho de ir.

Vemo-nos mais logo, no café.

Era como uma ordem sem autoridade.

Fiquei a ver o seu corpo de gazela feliz, saltitando as saliências do caminho, espalhando o momento de felicidade, a contagiar o maior número possível , para que não estivesse só.

Na Adega Lusitana, os cheiros, afrodisíacos da comida, a espevitar odores. A terrina da sopa, o queijo branco, o molho vermelho.

A imagem reflectida no caldo, o sabor a beijos que não demos, as horas , digo, minutos que não passam.

Tinhamos marcado encontro no Jardim Duque da Terceira, depois do almoço, desci a rua da Sé, sonhador, eu, sem dar conta dos vultos que subiam ou desciam, e me saudavam.

A Praça Velha animada por grupos de crianças, festa, romaria. Um relance. Viro à esquerda. 

A esplanada está cheia de juventude, ditos, ironias, gargalhadas. É Domingo.

No jardim, o perfume. Não, espera. Este é o teu. O inconfundível aroma do cio que já me colaste, como marca e que se distingue por entre os aromas de flores tão variadas como magnólias, tulipas, rosas e hortênsias, araucárias , eucaliptos. Tu. O teu cheiro.

A saia cor de rosa, a blusa branca, insinuante, os óculos em jeito de bandolete , o rosto iluminado pelos olhos verdes irisados de veios escuros, acastanhados, e o sorriso aberto, confiante.

-Olá, Alberto! Adorava ter almoçado contigo.

-E eu! Se bem que me surpreenda ver-te.

-Então?!

Notei um breve tremor nos lábios dela  e apressei-me. Pela primeira vez a sentir-me desajeitado.

-Não. não tires  ilações . É que eu pensei que tinha devorado a tua imagem reflectida na sopa, ao almoço. Estás linda. És linda.

Soltou uma gargalhada, inclinando o corpo, leve e graciosamente para trás, o brilho dos olhos, as mãos quentes, trémulas, o abraço, vulcão, vácuo, os seios arfantes e os lábios nos meus lábios, num toque suave, sussurrante, pequenos ais, de sabores, de essências.

continua

 

 

 

 registed by: Samuel Dabó

29
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - Cont.2

samueldabo

Angra sempre tinha exercido sobre mim um fascínio de sedução. A agitação dos automóveis subindo e descendo a rua da Sé, o edifício da própria Sé, esplendoroso na traça arquitectónica , na majestosa religiosidade que o envolvia. o belo jardim ao fundo, à esquerda depois de passar a livraria Adriano, Jardim Duque da Terceira, em socalcos , exótico  na variedade botânica, túlipas, camélias e magnólias de aromas, fluidos de amor e bem decorado por mãos hábeis e amantes do que fazem.

Carla tinha-me sugerido que saíssemos, respirar o ar na sua pureza,

 Acendi um cigarro, junto à porta, enquanto aguardava que saísse da casa de banho, e os meus olhos vagueavam pelas alturas verdejantes do Monte Brasil, em frente, sonhadores, enquanto pensamentos desordenados, em apoteose, provocavam um latejar intenso nas frontes, o coração palpitante, a senti-lo bater nos pulsos, a ouvi-lo  bate em batidas compassadas, acelera, ao ouvido.

Vejo o corpo de Carla que já lá vem, graciosa de andar leve, altura mediana, uns pés pequenos em sapatos de cor vermelha, salto raso, e as pernas a sobressaírem da saia de ramagens, flores da ilha, esbeltas, sobre o joelho., e a blusa de uma só cor, verde cintilante, ou são os meus olhos, entreaberta a deixar ver a forma dos seios, pequenos, firmes, palpitantes.

-Alberto, gostava de lhe mostrar um segredo meu, um local que me ficou da adolescência, aceita?

- Claro. Mas tem que me prometer.

-O quê?

O sorriso dela, a abater-se superior, em desafios de avanços e recuos, sobre o meu ser, num todo, quase absurdo, a apoderar-se, como dona efectiva já, da minha vontade.

-Que não me raptas.

-Prometo.

O diálogo ingénuo, quase infantil, e os dedos dela entre os meus lábios, em cruz, primeiro nos lábios dela, húmidos, os dedos, sabor a frutos.

-Juro!

E o cérebro: abraço, não abraço, beijo não beijo, o caos num turbilhão libidinoso de vontades, carências. Não

-Pergunto a mim próprio como uma mulher bonita, vistosa, atraente, não tem  um príncipe e não sei quantos mais pretendentes. Presumo que sejas uma mulher difícil .

Digo as palavras enquanto caminhamos, lado a lado, me agarras o braço numa saliência de terreno e encostas o seio do teu lado esquerdo, provocando-me calafrios de cálida felicidade.

-Quem te disse que não tenho um marido? Um namorado? Que não sou uma infiel, à procura de  uma aventura continental?

As palavras proferidas com uma ironia ternurenta. O cheiro a basalto, a mar, a cio numa mistura  luxuriante, a tomar-me de novo todos os sentidos.

-Tens? És?

Carla parou segurando-me a mão e colocando-se em frente, barrando o caminho, Que caminho? O olhar doce, nublado por emoções presentes e antigas, numa amalgama frenética de dor e alegria ,de se evadir, cavalgando a minha curiosidade.

-Sou divorciada. Apaixonei-me por um delegado de propaganda médica, de Ponta Delgada. Falador, loquaz, de aspecto simpático, inteligente na aparência, que prometeu amar-me eternamente.

Como eu sinto a tua dor! Uma lágrima sentida a bailar, no canto do olho.

-E então? O que falhou?

-Saiu -me um trapaceiro infame. Um amante abrutalhado, onde eu só pensava haver suavidade. Violência. E eu não sou de me ficar.

Ficaste ainda mais bela. Saiu o ódio acumulado há meses, anos, que importa, e a luz da pureza voltou a iluminar de serenidade o teu rosto mavioso

 

continua

 

 

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28
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - 1

samueldabo

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO I

 

Em Angra do Heroísmo, o Sol enrolado nas nuvens densas, como amante em relaxe após noite de intensos fervores. Envergonhado. Transpirando calor intenso no dealbar da manhã.

O movimento dos carros na rua da Sé era já intenso. Grupos de pessoas seguiam a pé, descendo do alto das covas para a missa das nove. É Domingo.

Estava sentado na mesa vermelha ,sob pano finamente decorado, passando os olhos pelo jornal do dia, o pensamento longe, a antever um amanhã recheado de emoções.

Levanto os olhos, por um raio de luz, instante fugaz, que o abrir da porta fez incidir sobre o teu rosto, ali sentada, em frente da mesa onde eu estava e não tinha dado pela tua presença luminosa.

Fizeste um gesto de surpresa, levando a mão que estava livre aos olhos incomodados, enquanto eu te fixava, agora, preso da beleza, da graciosidade do gesto, do enlevo que o ambiente da Ilha te envolvia, e sorriste ao dar  por mim, maliciosamente sorridente da tua surpresa.

Os teus olhos grandes, verdes mar, brilhantes de  encanto, o menear de ombros, como a pedir desculpa por teres interrompido a minha leitura, por estares ali e seres a causa da minha fixação.

-Bom dia. Digo que é professora.

A minha voz saiu , para surpresa minha, desimpedida, clara, sem conseguir deixar a prisão, doce prisão, daqueles olhos onde adivinhava sonhos, fluidos de mensagens, pedaços de afectos.

-Sim, sou. Tenho escrito em algum lado?

Um sorriso franco, atractivo, a alvura dos dentes com uma pequena quase ínfima , abertura entre os dois da frente, os lábios macios, húmidos do café e a tua língua a limpar resquícios do bolo, uma D. Amélia, rosada.

-Tinha um ar  Pedagógico.

Falávamos entre mesas, soltou uma gargalhada suave, franca, e os olhos reforçaram o brilho de entre o castanho do cabelo, liso, sobre os ombros, e a tez do rosto de um moreno claro, imagem sedutora e simples, sem pinturas de guerra.

-Não sabia que havia um ar pedagógico.

Uma lufada de ar consegue romper a barreira da porta quando se abre e deixa entrar um doce cheiro basáltico que se mistura com os aromas dos confeitos e da mulher que me cerca em novelos de sedução, e me atrai ao centro da ilha que ela é dentro da própria ilha, numa simbiose de convexos interesses, em que uma e outra se revezam na proeminência em que foco o meu olhar.

-Digamos que é um ar ausente. As mãos metódicas no manuseamento da chávena. A pensar em notas e avaliação de alunos, como se lhes soletrasse os nomes.

O teu riso a desfazer equívocos , transparente, cúmplice , a voz quente e terna de uma suavidade aveludada, entranhando-se em mim, ora tenso, ora descontraído, eu que fui sempre um menino triste e só e que venho aprendendo a emancipar-me dessa tristeza mórbida desde a infância.

-Sou Angrense. Os meus pais são donos de uma farmácia, Estive no Continente a estudar e consegui que me colocassem em Angra. Porque eu adoro Angra...

Sigo o movimento dos lábios, bem desenhados no rosto onde o nariz, pequeno, direito, se abre e fecha em movimentos compassados de inalação. Noto o rubor das faces.

-...não me está a ouvir. Agora deixa-me a falar para o boneco.

Agarraste-me, sabes que estou já demasiado envolvido para recuar e falas-me com um tom crescente de intimidade, como se fossemos conhecidos de sempre.

-Perdoe-me, eu sou Alberto e venho do Continente, em serviço.  E ouvi tudo: é dona da farmácia, estudou blá blá blá

Os nossos olhos encontraram-se sorridentes, pujantes de mensagens subliminares, e os lábios, os meus e os dela abrindo-se em sorrisos de nascente afeição. Empatia.

-De facto, somos o máximo, nem nos apresentámos. Se os meus alunos me vissem...Sou a Clara.

Estendi a minha mão e ao contacto com a mão dela, pequenina, indefesa, eléctrica , senti um choque repentino de grande intensidade e notei que ela teria sentido algo parecido, porque se levantou repentinamente, as nossas mãos presas por laços invisíveis, coladas, afins de não sei bem ainda o quê.

-Um beijinho.

Os lábios de um e outro nas faces, as dela rosadas, quentes, nas minhas a sensação de frescura dos lábios dela, como se os tivesse prematuramente molhado da sua seiva para me marcar.

 

continua

 

 

 

 

 registed by: Samuel Dabó

23
Mar08

S.MIGUEL, AÇORES - O NORDESTE

samueldabo

Hoje o sol pregou-me uma partida de menino mimado  e irresponsável. Enredou-se em neblinas maviosas e pertinentes, deixando que miríades de lágrimas de outras tantas saudades ululantes, se abatessem nos corpos desafectados de protecção adequada.

As Queijadas da Vila, após o pequeno almoço madrugador. O café, Delta, claro, a despertar renovadas atenções. a Afinar sensibilidades parecendo exaustas, mas que renasciam, qual Fénix, temperadas pela visão dos fieis que se dirigiam à primeira missa da manhã, indiferentes à morrinha, de rostos abertos e confiantes.

Fiz a viagem de Ponta Delgada ao Nordeste na carreira, a primeira da manhã percorrendo a estrada pouco movimentada e readmirando paisagens e recortes, a fixar imagens e momentos, as vacas nos pastos, as carrinhas que transportam o leite, pequenas povoações e gente que entra, gente que sai, as crianças, os jovens a caminho da escola e eu a lembrar-me de mim.

Timham-me falado do Nordeste como uma miragem num deserto rodeado de oásicos sistemas floridos e verdejantes, numa abordagem surrealista da visão, de quem chega e se depara, com um quadro pintado em fervorosos momentos de arrebatação criadora.

A povoação de casas típicas , arejadas, a casa museu João de Melo, o jardim, o café onde me resguardo e abasteço de iguarias.  O miradouro sobre o mar, a rocha a pique, o verde a envolver as casa em cima, num clima de silêncios, voltar ao miradouro, e novamente o mar estanhado, verde chumbo, denso na voragem da maré, a igreja.

Um táxi, carro de aluguer, parado num lugar reservado. Procuro com os olhos o motorista e não vejo ninguém, até que ouço uma voz, vinda de onde?

-Bom dia, precisa que o leve.

Olhei a figura, magro, rosto bonançoso, olhos que reflectem amor, lealdade a procurar saber ao que vinha. Como te chamas, amigo?

Disse-lhe ao que vinha. Desvendar a meus olhos o infinitamente belo. A pretensa miragem. A descoberta de mais uma das maravilhas açorianas, mas que o tempo, chuviscoso , não estava a colaborar.

Os olhos dele iluminaram-se num clarão de empatia a mandar-me entrar.

- A viagem até à cidade de Povoação são vinte euros, o resto é por minha conta.

Homem grande e destemido, homem bom. Como te atreves a acreditar que acertaste em tomar-me como amigo?

Pelo caminho, também eu confiante, sem saber das rotas, adivinhando boas intenções, foi-me falando de si, dos tempos difíceis da emigração na América, o trabalho quase esforçado para amealhar o suficiente e voltar. Nã que ele não era dos que se bastavam com dinheiro. Ali é que era a sua paixão e comprara o táxi, algum dinheiro de parte, uma vida sonhada nas refegas erradias, naquele deserto apaixonante, apaixonado.

-Olhe, ali, aquelas vivendas no alto da montanha, são de pessoas importantes do Continente, casas de férias.

E eu a imaginar, para mim próprio, os senhores importantes do Continente a julgarem-te parolo, imbecil, por teres trocado a vida faustosa das Américas por um lugar pasmado de beleza. E a contextualizar-te comigo.

Parou o táxi junto a um jardim que abarcava uma vasta  área em planalto, delineado de formas graciosas, ramadas em túnel, palmeiras anãs , flores, o vermelho, o azul, o rosa,  o lilás , o  amarelo e os verdes, numa deambulação de cores e odores. Numa simbiose de deuses tocando trombetas melodiosas e eis a placa de homenagem ao homem e à beleza reunida num feixe, com o mar por fundo, escarpa a pique, o poema:

                                          Toda a beleza é beleza

                                           Para quem na beleza crê

                                           A beleza é só certeza

                                           Conforme a vista que a vê

 

                                           Silêncio de calma

                                           Mudez carinhosa

                                           Afagas muralha

                                           Na noite nervosa

 

                                           Silêncio que alentas

                                           Meu sonho desfeito

                                           Ai como atormentas

                                           O mal do meu peito

                                           

                                           E quando te calas

                                           Calado me dizes

                                           Que as horas sem falas

                                           São horas felizes

                               

De João Teixeira de Medeiros

 

Embevecido por tanta beleza, recolho-me junto ao murete que limita a queda abrupta  e desvenda plena de epopeica visão o mar imenso, ondulante e a esfregar-se, preguiçoso,na base das rochas  que já foram suas amantes e agora, só enamoradas.

O homem do táxi e eu, em silêncio, ambos sabendo que amávamos a mesma substância mítica e sem ciúmes nem desavenças fruíamos desse amor, partilhando emoções vindas do sonho de sermos homens.

 

 registed by: Samuel Dabó

23
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, TERRA NOSTRA

samueldabo

A entrada no parque Jardim Terra Nostra mergulha-me em silêncios profundos à medida que vou avançando e descobrindo imagens absurdas de tamanha beleza botânica, de recantos criados por artistas de outros mundos mais perfeitos.

O Sol no zénite a refulgir raios cintilantes através das folhas de  árvores centenárias, altivas e lindas de grande e pequeno porte. Pássaros que cruzam a densidade do ar em brincadeiras atrevidas, poisando nas ramadas, ou abeirando-se dos lagos e sobre extensas camadas de nenúfares , saltitarem de uma em outra e chapinhando a água morna e quieta.

As flores de cores absolutas, exóticas, múltiplas de género e efeitos sibilinos, transformando os nossos olhos em mirabolantes rodas giratórias.

Subimos carreiros, contornamos lagos e riachos, e voltamos a percorrer, como se de um labirinto que não quiséssemos encontrar o fio.

Os meus olhos emotivos, a voz abafada, tímida , afónica, contrastando com a grandeza que sinto de fazer parte, por um momento, de tão Edílica paisagem.

No cimo de uma elevação, por entre a folhagem de palmeiras e outras maravilhas arborícolas cujos nomes não registei, o edifício adaptado a hotel de grande magnitude arquitectónica a lembrar um conto de fadas, infância, lucidez adormecida. Só pode ser um sonho..

A piscina de águas lamacentas, sulfurosas, onde adultos e crianças se banqueteiam em movimentos ablativos da inércia citadina.

É um ambiente indescritível . Não é possível traduzir em palavras a cor e o enquadramento que os artistas se permitiram para criar uma atmosfera única de emoções sublimes e apaziguadoras.

Venham ver!.

Saímos pela mesma porta e lembrei-me, de repente , que tinha estranhado a entrada paga!... e sorri de felicidade.

 

 

reisted by: Samuel Dabó

22
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, AS FURNAS

samueldabo

"Com um brilhozinho nos olhos" (Sérgio Godinho), a subir a montanha por estradas sinuosas de bom piso e vegetação rica e variada, a ver o mar de um e outro lado da Ilha, a saborear aromas e sabores que nos entram em catadupa a cada inalação.

As furnas, expelindo vapores diáfanos e sugerindo imagens grotescas de vultos que se movem do outro lado de nós, em frente. O cheiro a enxofre . A água azeda que escorre da bica que bebemos para curar enredos e invejas trazidas de longe. O borbulhar da água fervente  brotando do chão e elevando-se em espessa névoa de que nos deixamos envolver em brincadeiras gaiatas. A caldeira num ruído cavo de agonia, um estertor de vida a estremecer o chão que pisamos. Água e lama fervem e extravasam do interior da terra e é como um prato de farinha no clímax da cozedura. A sensação estranha de pensar que pisamos uma camada fina de solo, pronta a estalar a todo o momento, por um qualquer fenómeno que não conhecemos nem dominamos.

 Com os sentidos em êxtase continuo, desço à lagoa de águas mansas em cujas margens escavaram, aqui e ali, buracos onde a terra treme e expele vapores em surdina, que as pessoas utilizam para a confecção do famoso cosido da furnas.

O cozido das Furnas é um banquete de deuses, confeccionado ao vapor, deixando entranhar um leve odor a enxofre que o torna um manjar a repetir. O sabor único das carnes, o gosto dos legumes e dos enchidos, a envolvência da paisagem.

Um passeio digestivo pelo parque Terra Nostra , era o convite, em jeito desportivo, para obstar a uma qualquer indigestão, não sem antes beber um pouco mais de água azeda que, dizem, ajuda a digerir tão farto repasto.

Pelo caminho, Zé Carlos foi-me dizendo que as Ilhas que compõem o Arquipélago são como bairros de Lisboa, ciosas das suas belezas particulares e exigentes na implementação de estruturas, rivalizando umas com as outras e todas com S.Miguel .

- Nós, em Ponta delgada dizemos que os Terceirenses são como os Alentejanos. São indolentes. Só querem festas e mordomias.

Os Terceirenses dizem que em S.Miguel os homens têm a ponta delgada.

E eu a lamentar não ter visitado o Algar do Carvão, nem ter visto as célebres corridas de touro à corda na Terceira e  a não ter oportunidade de sentir o fervor e a religiosidade destas gentes nas festas do Senhor Santo Cristo do Milagres, ou as Festas do Espírito Santo nos Açores: factos que me ajudariam, por certo, a entender este espírito acolhedor e de grande humanidade.

Chegámos à porta do Parque Terra Nostra , cuja visita é paga. Estranhei. Pagar para visitar um parque?

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

22
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, O SONHO DE ESTAR VIVO-Parte II

samueldabo

A garrafa vazia/de Manuel Maria. A voz rouca, dolente, de Zeca Medeiros, no Cantinho dos Anjos, café rente à rua, na esquina de quem sai do Alcides, onde o Sr. José grava com mestria e paciência Franciscana, o nome de clientes afectos em taças de vinho ou licor, balões de Whisky e os oferece agradecendo a visita . A paixão de ser pessoa.

A decoração a lembrar outros povos, vitórias e derrotas, evidências de culturas, mimos de simpatia Açoriana , num ambiente acolhedor onde bonitas raparigas a sós ou em grupo falam de realidades e de sonhos e soltam gargalhadas diáfanas de alegria esfusiante, construindo certezas no perfume dos aromas.

 Que povo é este? Que cruzamento, ou raça pura?

A bela Estela, briosa, de aspecto grave, atento, responsável no atendimento de e sobre cultura  e que se diverte à noite em paródias inocentes de procura.

A divina Venilde , linda, o nome a sugerir veleidades de Olimpo, mas terrena, sonhadora e as partidas que a vida lhe pregou. Marco! Como te meteste, meteram nisso? Que tragédia ou ambição te levou ao tráfico, a destruir em lágrimas de sofrimento e dor, os sonhos encantados da mulher que te amava? Do povo que te gerou? As noites pela madrugada na explanação de projectos limpos de droga!...

O Gil do Couto, homem grande na sabedoria humilde sobre a superficialidade enfatuada. A paixão na crença dos milagres do Senhor Santo Cristo. A lisura de uma personalidade sã e conjugativa de amores comuns. O filho Francisco e a pesquisa dos fundos Oceânicos em busca, talvez de Atlântida e Znaida , artesã, o sentido prático da vida, taxativa.

A visita à estufa onde crescem, eu diria milagres gustativos, os saborosos ananases . Abastecer a garrafeira com o licor afrodisíaco do seu néctar.

O dia, onde o Sol e a humidade confraternizam, convida à procura de ambientes mais frescos.

O aroma especifico das infusões naturais. A única plantação em toda a vasta Europa. Os processos manuais de escolha, purificação e embalagem.

A Ribeira Grande. A escavação natural das água vindas da serra em direcção ao mar. O aproveitamento magnifico das margens, convertidas em lugares aprazíveis de lazer e convívio entre povos. As pessoas. Clara, a contagiante melodia das palavras.

E Rabo de Peixe. O lugar maldito, onde a vida se faz ao mar. Tido como perigoso, povoado por inadaptados da comum das gentes da ilha. Bêbados , arruaceiros, oportunistas que obrigam os filhos a não faltar à escola para não lhes cortarem os subsídios estatais, pescadores invejosos, ladrões, piratas. Tudo isto me foi dito. Mas, a avaliar pela obrigação de mandar os filhos à escola, tenho esperança na regeneração.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

21
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, O SONHO DE ESTAR VIVO-Parte I

samueldabo

O pequeno avião inicia a descida e já se vislumbra a escarpa de rocha , magnífica de força, em cujo topo se situa o aeroporto.

Em baixo o mar ataca a estrutura natural com a doçura das ondas espumando de alegria alvoroçada. O meu peito a transbordar de emoções vividas na Terceira.

A espera pela bagagem, adivinhando originalidades nos outros, a ansiedade daquela jovem, o homem de negócios impaciente, rostos abertos, diálogos leves, olhos brilhantes de vida.

O dia quente e húmido, odores marinhos a requerer a minha capacidade de adaptação. Afinal já estive em África e na Guiné o sol era mais intransigente.

A residencial Alcides, o bife especial duma carne macia e sem igual, o delicioso ananás.

O passeio a pé pelas ruas de pedra preta, reluzente. Rostos amigos de gente anónima que se cruza, que pára para comunicar, sem pressas. Caminhar até ao mar. A Avenida marginal com palmeiras e largo passeio. A baía calma e os barcos acostados no cais. A muralha que defende a cidade e esconde o mar

A visão sublime duma espécie nova de mulher: a mulher de cabelos loiros, tez clara e olhos verdes de um verde irisado de outros verdes, como cristal colorido, esmeralda de veios intrusantes , ou outra preciosidade que não acho na memória. A simbiose entre o mar, o verde das árvores e a riqueza dos templos? Onde andam os pintores?

E ali fiquei, abstraído do todo que me envolvia,, seguindo a imagem delicada e segura em passadas confiantes, qual deusa idolatrada. De uma beleza contagiante de mulher, divinizada por mim, naquele instante. Basbaque continental envolto em perfumes sobrenaturais. Como queria registar a tua imagem em papel ou fita de cinema. Que medo eu tenho de me perder na memória. Hoje aqui ficas, para que conste.

As pessoas de Ponta Delgada, já tinha constatado na Terceira, são de uma afabilidade que ultrapassa a mera educação da hospitalidade. Criámos empatias e intimidades conluiadas na disputa de quem me levava ali ou além. Os lugares imprescindíveis Os almoços, os jantares, as noites em diálogos do saber e da solidão permitida.

Ganhou o Neves da papelaria, tipografia. Portugal aqui, liberto de preconceitos. E seguimos viagem por estradas pitorescas de verdes e encantos. Parámos num miradouro para que eu visse em absoluto na sua magnitude exuberante de beleza natural, As Sete Cidades, o contraste entre o azul e o verde das lagoas, a pequena cidade para lá do monte junto ao mar.

Apanhar umas quantas pedra  ume que abundam nas margens, como ovos deixados ao abandono. Aspirar os aromas, a sensação de liquidez ambiental e voltar, rumo à cidade.

Passear à noite, na marginal, as luzes lá à frente de outra cidade, Vila Franca e deglutir-me na Sol mar com as queijadas da vila. Junto ao clube naval, num terreiro em frente, jovens estudantes divertem-se nos festejos do inicio do ano académico. Gritos e cantorias, o som das guitarras na noite calma de S.Miguel .

O pequeno almoço, o leite, o queijo, os Açores a entrarem nas minhas entranhas, a adoptarem-me.

 Admirar a beleza da igreja matriz. Sentir a religiosidade de um povo aqui cercado e com uma história de abandono por séculos de inércia. Visitar o Santuário do Senhor Santo Cristo. A imagem enclausurada atrás das grades, ao fundo da sala, majestosa , mítica de olhos grandes e comunicantes, com penitentes ajoelhados, gente que se entrega na crença da salvação ou que pede perdão por actos irreflectidos.

Almoçar em Lagoa num restaurante especializado em peixe. Os barcos em terra para arranjos. Pescadores que amanham o peixe junto à muralha. O complexo de piscinas naturais.

A Lagoa do Fogo é um assombro de emoção. A neblina que cobre a paisagem paradisíaca de vegetação luxuriante e que de quando em quando se entreabre movida por aragens frias e nos permite desvendar a cratera coberta de água estanhada, quieta, escondida.

O Zé Carlos da livraria foi o anfitrião deste desvendar de sonhos e, no regresso, mostrou-me outras pequenas delicias, como praias de areia e pedra negra com recantos únicos. Mas é muita emoção acumulada numa só viagem. Ainda não me tinha refeito do deslumbramento causado pela Terceira.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

19
Mar08

NA ILHA TERCEIRA A PRIMEIRA- Parte 1

samueldabo

O Baptismo de voo ia acontecer naquele dia, Domingo, que amanhecera limpo de nuvens à vista, de temperatura amena e sem chuva.

A impaciência e algum receio à mistura, pensamentos cruzados de tragédias, despachar a bagagem e mais um café, um cigarro, o relance de olhos pelas lojas, o som de línguas distantes, rostos serenos espreitando as noticias de jornal.

O avião, visto de fora, era imenso, de linhas graciosas, a frente fazendo lembrar um pássaro gigante de aspecto benigno., e doce No interior assemelhava-se a um autocarro de grandes dimensões. Confortável. Tinha pedido lugar à janela para poder visionar todos os pormenores da partida e da chegada. Emoção.

No avião, há janela, por cima das nuvens, desfazem-se mitos de tradição evangélica. Denso infinito embaciado por nuvens de estranhas formas que cortam as asas da aeronave e a fazem estremecer de emoções.

Olho os castelos, formas abstractas, surrealistas, gotículas de água, microscópicas, agregadas por cósmica energia e suspensas, vogando ao sabor de ventos, constituídas em reservas de água para alimentar a vida. Paisagem alucinante, com o Sol a reflectir-se nas asas humedecidas dum objecto que foi sonho. Voar.

O recorte da Ilha a desenhar-se, miraculosa, na aparente infinitude de água que a cerca. A espuma branca do mar que ressalta da investida contra as escarpas a pique. Barcos  tão pequenos que parecem de brincar.

As pistas, a nossa e a deles onde aviões de carga se refazem da jornada. Aviões com sabor a guerra.

O ar fresco da manhã. A emoção indescritível de pisar um solo distante que também é Portugal. As ilhas.

O homem do táxi. Como te chamas? Que importa. Retenho o orgulho de seres Português e Ilhéu . A hospitalidade. O brio da profissão.

-Se não tem pressa, pelo mesmo dinheiro até Angra, levo-o a uma curta visita.

Acedi sem constrangimentos. Perdoa, amigo, mas como continental desconfiado, não pude deixar de confrontar, mais tarde, o preço da tirada, com outros colegas teus. E tinhas razão. És um homem bom para quem o lucro não está acima da humanidade que queres ser.

A cidade da Praia da Vitória,num leve declive até ao mar. As linhas harmoniozas das rua e da arqitectura . A velha igreja. Nemésio. A Virgem Negra no seu pedestal no alto do morro sobre a marina,  onde subimos para ver a amplitude das referências que querias dar-me a conhecer.

A base, o bairro dos Americanos, o aeroporto, a cidade. a praia de areia escura, os prados divididos com precisão geométrica. Histórias da tua vida, a saúde, os mecânicos exclusivos da insularidade, em cartel.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

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