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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

27
Set12

NAS ASAS DA POESIA!

samueldabo
imagem do autor
***
NAS ASAS DA POESIA
**
da janela da casa
pela manhã
a que deita para o quintal
onde a dona Júlia
solitária estende a roupa
e os gatos namoram
ao entardecer
vejo a parede de silêncio
com um buraco
antes de evasão de fumos
onde um par de aves
apaixonadas 
vão fazer dele seu ninho
sinais de pura magia
que ainda aqui há gente ou vida
o outro sou eu a sonhar
jrg
19
Mar10

DE MANHÃ...

samueldabo

 

 

 

de manhã quando levanto

olho o espelho e vejo um rosto

o sono que nele se vai quebrando

ou no desassossego ainda em mosto

 ***

os olhos encolhidos a boca num esgar

a pele ressequida de suor

talvez um pesadelo o meu sonhar

e este gosto amargo na boca sem pudor

 ***

de manhã quando levanto

e me lobrigo entre pestanas entaramelado

balbucio o teu nome num quebranto

aspiro o teu cheiro agre adocicado

***

sinto ainda do teu corpo o quente

e sobe-me o aroma do teu odor

sou eu ou outro este que vejo e te sente

no acordar de cada sonho o teu calor


de manhã quando levanto

abro os olhos para te ver dentro de mim

sorrio ante a beleza do teu encanto

e sinto que és a mais bela flor deste jardim

***

mexo os lábios e digo bom dia

passo a mão sobre a pele os pelos duros

esboço um sorriso de harmonia

dou um grito a chamar os de mim mais puros

***

de manhã quando levanto

trago na alma o sabor e o perfume

da mulher de cujo amor sempre me espanto

tão duradouro aceso este meu lume

***

autor:JRG

15
Out08

SONHOS NO OCASO DA VIDA

samueldabo

A imagem dela sedutora, os olhos intensos de um brilho estranho que raiava o limiar da felicidade. Olhos castanhos, profundos, o cabelo solto ao vento de uma noite livre de outras sombras. Noite clara, como se fora dia.

Podia ouvir um sussurro, voz, ou arfar ,ou respiração afogueada por tremores do corpo em êxtase, ou pelo silêncio que induzia magias assombrosas.

O rosto belo. Como era linda!...a blusa branca descaindo sobre o ombro, deixando um ou outro a descoberto, a pele morena, canela adocicada com o açúcar do sorriso.

Sobressaindo do decote sóbrio da blusa, as maminhas, harmoniosas, dois botões de rosas cor de carne enamorada.

Levantou-se de onde me olhava, troçando de mim ,abismado pela imagem que não fazia ali, mas longe, num longe impossível, porque de fora de mim,da minha alma ainda a suturar-se das quimeras antigas.

E veio voando, ondulando no éter em movimentos lentos, os braços abrindo espaço no vácuo da memória e quando perto de mim, aspiro o teu perfume exótico e as minhas mãos procuram tocar-te, afastas-te um pouco, por sobre mim que te olho de espanto.

Reparo, só agora, que não tens pernas, nem ancas, és um semi corpo sobressaindo de um êxtase invisível na noite clara. A parte mais apurada da tua totalidade.

O teu sorrio sempre me impressionou e hoje,mais do que qualquer outra vez. É como se quisesses dizer-me: vês, estou aqui, mais pura, confiante de mim, não me fizeste nem fazes qualquer falta. Simplesmente não exististes em mim...nunca...foi tudo um devaneio.

Voltaste a aproximar-te do meu rosto e as minhas mãos, os meus braços, todo o meu corpo num impulso. Estou pesado. Não levito. Exausto de angústia. O teu perfume, os teus olhos, o teu sorriso...A sobranceria  da tua alma que me olha de cima de ti, do teu corpo semi corpo, onde a blusa branca sobressai na transparência do tecido. E digo não!, rouco, envolto em bruma, mas, não!  É mentira! Fomo-nos num simultâneo da alma. Não sabes nada da alma!

De repente, a luz reforça o seu fulgor, cega-me por um momento e quando volto a ver a imagem de ti , já não é um corpo, como o conheço. mas um interior de corpo ainda sem alma, onde tudo se mexe numa azáfama Titânica. O coração bate normalmente, as vísceras, acondicionadas no espaço que lhes compete, num aglomerado de milhões de minúsculos pontos que se interligam, as veias como turbinas que conduzem o sangue depurado, vermelho vivo. Posso ver os alimentos que comeste serem triturados pelo teu estômago. Espera, um ponto negro que se agita de um lado para o outro,como uma bola que alguém do interior de ti atirasse ás paredes finas do teu estômago, fixo-me bem, surpreendido.  E vejo que engoliste um caroço de azeitona que a máquina se prepara para expelir para outro departamento visceral. Detenho-me no coração e nas batidas compassadas, como se não tivesse existido nada entre nós, como se fosse apenas fumo sem substância, e julgo ver algo que lhe retém o pulsar constante, o acalma e impede que parta desordenado. É uma substância indecifrável que se aglomera em volta dele como uma fortaleza. Tomaste um calmante... Não te consigo chegar. Estás longe. Longe!...

E subo ao cérebro a achar de ti um outro sintoma , um vislumbre que seja do teu pensar, estou mesmo quase a chegar. Impressiona-me o cérebro, o que lá dentro cogita, tece, enreda e se transforma em acção. A mioleira. O córtex dos sonhos...

Ouço um estalido como se um interruptor se movesse a toque de alguém e desvio os meus olhos por milésimos de segundo. O que é o tempo? O que és tu no tempo? E eu?...

Acordo suado e pleno de angústia, os olhos em volta e nada que me diga se foi verdade , a minha verdade ou a tua, mas verdade, inteira ainda que possessa do absurdo de ser verdade. Se foi apenas invenção minha, ou tua, ou de alguém pérfido que nos juntou, que nos acalentou o desejo de sermos um só, em alma e corpo, numa simbiose absoluta do ser. Nada...

Apenas uma sensação esquisita de frescura, como se o desvanecimento do sonho repusesse um novo andamento a esta sinfonia imensa que construo, do abismo de mim.

25
Ago08

A N A B E L A ( III ) DIÁLOGOS DA ALMA

samueldabo

 

Hoje o dia sabe a amoras silvestres. Tenho o cheiro impregnado nas minhas narinas e sabe-me bem aspirar esse aroma idílico, símbolo da nossa ruralidade em vias de extinção.

Vem-me à memória os vagabundos que amamos. A sensação de liberdade absoluta que lhes achámos no olhar profundo em abstração de momentos quando olhavam para lá de nós, para o infinito de nós.

Vejo o teu vulto ao longe que se aproxima. Vens bela como de costume no teu passo encantador que mal poisa os pés no chão do passeio que imagino, como se dançasses sobre nuvens. Trazes um sorriso malicioso e terno, consigo ver a simbiose dos contrários.

E dizes-me com os olhos muito abertos.

 

Tell me a desire

 autor:: Daniel Oliveira

 

 Queres desarmar-me com elogios, é? Não é assim tão fácil... :) - Eu sorrio também. Os meus olhos nos teus olhos que brilham de sentimentos nobres

Anabela.
Tão doce. E o sorriso radiante por me saberes ferido das palavras que usaste.
Achas mesmo que os elogios que te teço a achar-te, são meras loas de adulador barato?
Fazes-me descrer do que eu pensava ter de melhor em mim, o cheiro do carácter impresso nas palavras.
Queres que desista de ti?
Não. Sou mesmo louco e tenciono levar até ao fim esta paixão de te ter como amiga, de te merecer na grandeza dos propósitos.
Diz-me tu que queres que faça. Que me ajoelhe a teus pés, para que os outros que nos vêem façam de ti a ideia de déspota sem piedade?
Que corte um dedo, uma orelha, um pelo do nariz?
Diz-me, mulher de tão bela que se fez incrédula e que eu quero a todo o custo amar como amiga.
Mas tens que dizer já, se mereço a humildade de te olhar, sem que tenha de ouvir dizer sempre o mesmo mote, que te quero apenas enganar, adular, bajular e sei lá que mais...
E estás, desde já, convidada para a nova orgia das palavras e dos conceitos. Acabei de lançar o desafio aos quatro ventos. Podes desancar-me. reduzir-me a pó, pisar-me com os teus pé delicados ou mandar-me pisar para que não sujes nada de ti.
Mas permite que ame a amiga que vejo e sinto em ti.

 


Paraste a uma distância confortável para que não te deixasses seduzir do calor e ênfase das palavras.

O sorriso deu origem a uma gargalhada. Os teus cabelos livres de amarras soltando-se com o teu gesto de cabeça para trás. O teu riso cristalino. E eu Insisto.

Anabela.
Só há uma forma de desmistificar a relutância de me achares merecedor da tua amizade:
Olhos nos olhos, mesmo que à distância.
Fixaste-me de súbito, parando de rir, os olhos húmidos da alegria ou da emoção do riso, os teus lábios voluptuosamente abertos, a reter as palavras que já tinhas na linha de partida do pensamento.

Neo.

Eu falo sempre "olhos nos olhos", ainda que à distância. Se com "olhos nos olhos" quiseres dizer: com frontalidade, verdade, sentimento...Só assim concebo uma conversa.
Dorme bem. Amanhã comento o teu novo texto, hoje já não tenho energia... Dorme bem. E correste por entre áleas de begónias, palmeiras do Brasil, rosas e hortênsias. Numa nuvem de perfumes interligados

Anabela!... Gritei do fundo de mim.
Já me ia deitar. estou seco de palavras e ideias. Mas vieste e para ti, olhos nos olhos, até tivemos uma vitória histórica. E aquele golo do Tiui, o último. Viste?...

Tentei seduzir-te com o futebol. Sei que és fã. E para ti, dizia eu, voltei atrás por um momento para te saudar por teres vindo. Sei que mereces a minha amizade. Quero merecer a tua. Farei tudo para conquistar a tua. É uma questão de vida, para mim. Ter-te por, como, amiga.

 

 

 É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta.

 

J.R.G. 

 

 

  O texto ANABELA (II) encontra-se editado em http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt

O texto ANABELA (I)  encontra-se editado em http://romanesco.blogs.sapo.pt

15
Ago08

ANDANÇAS PÚBERES

samueldabo

_Perdeste o ano pela segunda vez consecutiva e vais trabalhar. Não temos condições para andares a brincar na escola.

Pedro, os olhos no chão de cimento, soltando lágrimas de raiva por não ter sido capaz. Olhos grandes, escuros entre pestanas largas.  Mas pronto, iria trabalhar, no que houvesse, logo se veria, o sonho adiado. Ser defensor dos fracos, de todos os pobres que via de olhos no chão, como ele agora, no momento em que a mãe lhe apontava a incúria de mais um ano perdido em namoricos e visitas expectantes ao Castelo de onde olhava a cidade imensa do outro lado do mundo que conhecia, e sonhava a ponto de quase adormecer .

A escola grande sempre o intimidara. As calças de ganga remendadas, as camisas ou camisolas eram diferentes das dos outros rapazes, mais feias, sem brilho, as botas doíam-lhe os pés,  tinha joanetes e pé chato, o desconforto  de não ter um lanche, sendo o almoço fraco, confeccionado de véspera,  comido nas ameias do Castelo. De história até gostava. O problema foram as faltas, os namoricos.

Arranjou trabalho com o Matias que tinha um negócio de fazer blocos de cimento para a construção de casas. Agora sim, iria criar músculo, crescer. Ser homem.

Pedro era um rapaz frágil de constituição baixa e escasso de carnes. O cabelo negro sobre a testa, desfeita a  onda com a secagem da água com que molhava o cabelo para acomodar os remoinhos que teimavam em permanecer, espigando os pelos  que sobressaíam do restante acomodado pela água.

A cara borbulhosa do acne e uns pelos faseados que faziam o seu orgulho de parecer homem grande, homem feito.

Namorava a sobrinha da dona da mercearia que lhe arranjava o tabaco. Era uma namorada tímida como ele, que corava quando a tentava beijar nas faces, ou lhe dava a mão em plena rua. Chamava-se Sofia e tinha uma boca acentuada pelos dentes sobrepostos.

O primeiro dia passou na aprendizagem do manuseio das ferramentas de molde.

Os homens que o conheciam diziam entre gargalhadas que o Matias era maricas.

_Olha que o gajo tem o cu cheio de merda seca! E riam-se...

Pedro, olhos no chão ouvia e precavia-se, para dentro de si. Que com ele não contasse. Ouvia os rapazes falarem de ir aos paneleiros, através das dunas mais distantes, nos côncavos  de areia que o vento cavava. Mas nunca fora. Tinha nojo.

O Matias  contratara o rapaz de olhos postos na braguilha onde lhe adivinhava um membro farto e sedutor. Os olhos brilhavam-lhe de satisfação. Logo pela manhã já estava bêbado.

Pedro virava a areia com a pá, maior que ele, tantas de areia tantas de cimento, um pouco de água, aprender a que era suficiente, para a massa ficar no ponto nem muito grossa nem muito fina, no ponto. Colocar massa nas calhas das formas, bater com a ferramenta indicada, raspar os excessos, tirar os ferros que formavam os buracos e abrir o molde de ferro. Era como fazer bolos com o balde na areia da praia. Não ele, que nunca tivera baldes, só latas velhas que achava nas ruas de areia do bairro onde vivera em criança.

Ao terceiro dia, o Matias fez um intervalo e foi até à barraca onde guardava as ferramentas e chamou Pedro para que o ajudasse.

Pedro olhou de frente,pela primeira vez olhava alguém de frente, olhos nos olhos, o Matias a babar-se, os olhos esbugalhados pelo vicio, pelos vícios, a baixar as calças, a tocar-lhe no sexo que andava sempre firme dos pensamentos que tinha, das calças apertadas que o comprimiam de encontro ás pernas. Pedro disse que não. E o Matias insistente, que lhe pagava mais cinco escudos por cada vez. Pedro a fazer contas. O Matias pagava-lhe dez escudos por um dia esforçado  de trabalho e cinco pelo vício de sexo!...Insistiu que não,que ele, Matias não se lavava.

O outro, possesso de desejo, implorava-lhe que o deixasse então chupar-lhe o membro hirto que se avolumava sob as calças, aumentando o desejo do velho que se babava e mexia no sexo de Pedro, com as mãos calejadas, grossas, poderosas.

Vencido, Pedro acedeu, tirou o sexo pela braguilha das calças. Matias ficou louco e sôfrego enfiou-o pela boca em chupadas loucas de desejo e lascívia. Foram momentos breves.

Pedro enojou-se e a pila murchou, secou a febre. Matias deu-lhe os cinco escudos e mandou-o regressar ao trabalho.

Pedro fez o resto do dia em ânsias para chegar a casa, lavar-se. Sentia um nojo pela figura asquerosa do velho. Uma pressão intensa na cabeça como não tinha sentido antes.

Meteu na sua cabeça que nunca mais. Se ele tentasse, se forçasse vinha embora, ou dava-lhe com a pá na cabeça.

_Pedro!...

Era o pai que o chamava. Regressava do trabalho a pé e passara por perto.

_Estás vermelho, aconteceu alguma coisa?

_ Não pai,apenas que cresci bastante, hoje. E gostava de arranjar um trabalho melhor.

 Pedro, onze anos, a muscular-se fazendo blocos para a construção de casas.

26
Mai08

PLANETA AÇORES

samueldabo

Ontem tive uma noticia que me deu um momento grande de felicidade: o blog foi adicionado no site do Planeta Açores.

E felicidade porquê, se não foi por amor de uma mulher. Se não escreveste um livro nem te nasceu uma criança?

Porque me plantaram como árvore enverdecente em mais um tom de verde entre a majestade de verdes exaltantes.

Porque amo a terra e as gentes numa simbiose do belo que lá achei, e me envolveu num conceito novo de humanidade.

Porque amo a carne das rêses  e o sabor doce do ananás que alimentam o corpo.

Porque amo o mar que é a parte maior deste Planeta único que são as nove entre tantas pequenas partículas da matéria fundida que o constituem.

Porque amo a cultura, de cultivo antigo, do ser e do haver que me alimenta o espírito.

Obrigado

 

23
Mai08

O ASTRÓLOGO

samueldabo

Na grande superfície comercial, num espaço nobre junto ao corredor central por onde toda a gente passa, já estava montada a banca, o cenário envolvente numa aura mística com a exposição dos livros e os cartazes que anunciavam a presença do Astrólogo.

Haveria a oferta da carta astral a quem comprasse um exemplar do livro ao que se seguiria uma breve interpretação das características de cada um.

Havia fila e impaciência pelo atraso. E eram, na sua maioria, mulheres, de meia idade e até jovens que admiravam o Astrólogo e as previsões que fazia sobre eventuais acontecimentos. à espera de respostas imediatas para agirem ou simplesmente aguardarem o ciclo propício.

A atmosfera de cheiros intrigantes numa simbiose de aromas díspares, entre perfumes e desinfectantes, o bacalhau os legumes, a livraria  de olores distantes.

Chegou. A mala a tiracolo. A expressão a indiciar cansaço, as desculpas em trejeitos de lábios e sorrisos, o trânsito, a dificuldade em arrumar o carro.

-O António, não veio, ainda?

Digo que não. E ele, desinteressado, a dizer que vem. Que ficou de vir e mais a Manuela e que sem eles não podia chegar a todos.

O computador, a impressora, as canetas e papeis para preencher o nome e as datas correctas de nascimento, local e hora.. O ligar das máquinas, o filho confortando-se na cadeira, iniciando o programa e a mãe, uma simpatia de senhora a dar indicações. A sentar-se majestosa e radiante de orgulho.

-Vamos lá começar. Quem está primeiro?

Avança a primeira da fila que leva dois livros. Um é para ela outra para oferecer à mãe que é uma grande admiradora do Astrólogo.

E ele, de olhos brilhantes, explicando que oferece a Carta Astral e uma pequena interpretação da mesma. Mais explicito, só marcando uma consulta, onde a personalização da análise permitirá outra ilações.

Entretanto chegaram os colaboradores. São como as fadas que sugerem paliativos a inquietações e dramas. E colocam-se à disposição. Os gestos abarcando todo o Universo. As palavras quentes e indutoras. A descoberta. Olhos húmidos pela emoção de se expor, a pessoa, mulher frágil enrolada em dúvidas, em suspeitas, anseios ou traições pressentidas

E o comercial, atento, distribuindo os papelinhos e respondendo a perguntas, incutindo expectativas, saindo já do aspecto comercial e deixando-se penetrar do espírito Astral e da humanidade evidente que se evade dos olhos, das palavras, de gente que se preocupa consigo própria. A encontrar similitudes abrangentes, a trocar impressões depois das impressões. A acreditar, a fazer acreditar.

Oiço o Astrólogo dizer a uma jovem que tem o signo tal em tal o que indicia um diferendo com sua mãe. E ela a aquiescer, que sim e a questionar como resolver tal dilema.

E ele que precisa de um estudo mais profundo, que ela marque uma consulta.

Ouço o António, num outro recanto da estante repleta de livros, surdos mudos ás vozes excitadas, excitantes que falam da tragédia de amores possessivos, inconstantes e nem sempre devidamente correspondidos.

E ele a falar em Marte, Úrano, Plutão e em tons macios, adulantes, penetrante no âmago do ser que se contorce na busca de si e de uma palavra que a seduza.

A troca de olhares cúmplices entre todos os que compõem a imagem de pequenas tragédias, ou simples curiosidade de saber se é verdade o que já sentem de si próprios.

Explicar até quase a exaustão que a Astrologia não é um ler a sina. É antes uma análise da pessoa considerando as influências Astrais sobre o exacto momento e o lugar do seu nascimento e que a cada ciclo ou momento é susceptível de sofrer alterações, por efeito de fenómenos ocorridos em constelações de Planetas que nos condicionam e ou intuem no nosso crescimento.

Observar os efeitos psicológicos que o desfolhar da suposta personalidade têm sobre a pessoa submetida à análise do Astrólogo.

Anuir que a Astrologia sendo uma prática ancestral da procura do homem pelo seu destino e por se tentar explicar a si mesmo a razão de ser de uma forma e não de outra, constitui um elemento fundamental na área do conhecimento pessoal e das ciências da mente e como tal não pode simplesmente ser ignorada, ou ostracizada.

 

07
Mai08

E VIERAM AS TÁGIDES

samueldabo

Vieram de madrugada, as Tágides, e inundaram o meu sonho até então num emaranhado confuso, tornando-o mais fluente e limpido de contornos racionáveis, a deixar-me pairar nas nuvens dos desejos.

Havia grandes precepicios, entre altas montanhas  agrestes e despidas de vejetação.  No fundo, algém que me é querido, muito querido, um ente de feições descarnadas pela dor e ao cimo da montanha a salvação.

Eu a meio, impotente sem meios que me valessem para chegar à base da ravina, e ainda que chegasse, como alcançar o cimo , a perfeição?

E dei por mim a descobrir que voava. Não com asas como as aves da minha imaginação, mas com um simples movimento dos braços e das pernas em conluio.

Desci logo, a ver-me, como se nadasse. A ver a minha alma desprendida. Chegado ao fundo, que é onde a desgraça sempre bate, peguei o corpo inerte e quase descarnado. Pele e osso.

Os olhos abertos num espanto de quem acha em última instância a salvação.

E oiço as minhas próprias palavras ciciantes.

-Sou eu meu amor, aquele que te projectou muma ejaculação de Primavera, com tanto amor que te perdeu . Venho colher-te, porque tu és meu, queira ou não queira o papão.

E pegando nos meus braços, repentinamente imensos de força, o corpo a renascer de vida, inicio a subida ingreme, num esforço de marés vivas, contra o tempo incerto, a alma que pode voltar ao lugar de onde havia saído.

A meio, uma lufada de ares contrários desvia-me a tragetória. O suor escorre-me nas faces geladas pela euforia da subida agreste. Dou uma guinada. venço o vácuo que queria abater-me e mais a minha carga.

E num salto de gigante, numa última  investida da alma agitada  que ameaça voltar à matéria , galgo os silvados de picos agudizantes, a árvore altiva de ramos dispersos, a pedra sinuosa que proteje a plataforma firme e segura e deposito o corpo que de imediato renasce, ganha carne, cor e movimento.

E nisto, o sonho, se era sonho, acaba. E volto atordoado, abanando os braços, a ver se era verdade que voava.

 

13
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.9

samueldabo

Alberto como louco, percorrendo a Ilha, ainda na esperança de encontrar Carla com vida, em cada recanto da costa, no interior das grutas do Algar do Carvão, indiferente já, à beleza que tudo em volta exibia.

 A humidade, o sol intenso, ansiedade descontrolada, o tempo a fugir a inviabilizar o reencontro com a mulher que amava tão intensamente. Linda.

 O suor deslizava pelas faces emagrecidas. Sentia dores por todo o corpo. Dores que vinham do interior de si, da memória. Os seus passos entorpecidos pelo cansaço. O desalento a apoderar-se da razão mas a vontade, o eu ser, a comandar ainda os movimentos, a direcção.

Voltou a descer para o litoral. Algo lhe dizia, uma fixação, que era no mar que tudo podia acontecer ou ter acontecido.

Nos últimos dias, o telemóvel tocara de novo algumas vezes. Do outro lado só o silêncio, mas   pareceu-lhe ouvir o som das ondas na rebentação, um som que tão bem conhecia. O mar que tanto amava.

Alberto conduzia o carro como um autómato e mal via os outros automóveis. Fixado no lado direito da estrada. As vacas pachorrentas nos pastos, levantando a cabeça, acenando.

Mariana acabara de levantar voo, para S.Miguel , convocada por Santiago. Revia as últimas peripécias da aventura macabra em que se tinha metido. De qualquer modo não tinha nada a perder. Sorria na perspectiva de encontrar Alberto, olhar de frente , olhos nos olhos, aquele homem com quem se casara um dia. Depois, era urgente livrar-se de Santiago. Um traficante é sempre perigoso, importava-se mesmo  muito pouco pelo dinheiro envolvido.

Estes tipos das Ilhas são uns ingénuos. Pensam que têm o rei na barriga e não contam com as máfias instituídas. Os direitos arduamente instituídos.

Santiago aguardava com serenidade a chegada de Mariana, confiante que em breve sairia em liberdade. Não podiam provar nada sobre o tráfico, nem sobre o rapto. Em última instância daria os comparsas como únicos responsáveis. Apresentar-se-iam como consumidores desesperados . E quanto ao rapto, sim foram eles, queriam pedir um resgate, mas a mulher tinha fugido e não sabiam o seu paradeiro. Santiago a reconstituir os passos dos capangas. A enredar a história para que Mariana não tivesse dificuldade em transmitir as instruções aos capangas.

Alberto. Em frente o Ilhéu das Cabras. A policia marítima tinha vistoriado de perto, com os binóculos. Não viram sinais que os convencessem a subir. Era arriscado. Hoje o mar até parecia sereno, junto ao Ilhéu. A dor de cabeça. O coração arritmado . Implorando a Deus.

Parou o carro a esmo junto à freguesia de Porto Judeu. Fixou os olhos doridos no Ilhéu em frente. Aves esvoaçavam em redor, desciam ás águas, mergulhavam e voltavam a subir, Garças, Gaivotas que nidificavam por ali. O mar batendo em pedras dispersas. Alucinações acudiam ao cérebro . Imagens desconexas. O corpo esventrado de Carla. Ora uma imagem com asas, vestido branco e cânticos melodiosos. O corpo de Carla, esbelto, macio e perfumado, levitando. E viu algo que empurrado pelas ondas batia nas pedras com um ruído seco, a intervalos. Levantou-se com vigor renovado. O brilho do olhos avivado pela miragem.

Esfrega os olhos enquanto desce o declive. Não acredita. Acredita. É uma visão distorcida, mas parece um corpo apoiado numa tábua. Geme baixinho. Reclama de Deus. Sim, é um corpo. Entra pela água a tempo de evitar que uma onda mais forte atire a tábua com violência contra as pedras, ou que a afaste de vez.

Agarra a tábua, o corpo. Levanta a cabeça do corpo tombada sobre a água. É Carla, meu Deus. Grita, abraça o corpo inerte, dizendo baixinho:

-Meu amor. Meu amor. Meu amor.

O corpo está frio. Alberto não sabe nada de primeiros socorros. Deposita o corpo de Carla no chão seco e procura atabalhoadamente o telemóvel. Marca a emergência e dás a localização, com vós trémula, exaltada aos pedidos de pormenores.

O corpo de Carla na sua frente. Alberto chora convulsivamente enquanto lhe tira as roupas rotas e sujas. Golpes nos braços e pernas. O sexo, a púbis , sem fulgor, os seios, os dedos compridos a pele porosa, engelhada. fria. Veste-lhe a  roupa que trouxera. As cuecas, uma bata ou roupão, ou robe.

Os bombeiros foram os primeiros a chegar. Fizeram os exercícios aprendidos para os afogados. Tentaram reanima-la e disseram a palavra mágica, suprema felicidade.

-Está viva. Muito fraca, mas viva. É urgente levá-la para o hospital.

Alberto ouviu as palavras e tombou inanimado, vencido pela emoção e o cansaço. O carro da emergência chegou entretanto, e a policia, e alguns curiosos.

A tábua batia nas pedras e seguia a força da corrente

 

 

Registed by Samuel Dabó

02
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.5

samueldabo

Ao jantar, falaram de factos passados, acidentes escolhidos em momentos de procura. O embuste das palavras, a teatralização  estudada que nos leva a sentir, a acreditar.

Alberto falou da sua relação com Mariana. Da paixão violenta. Era bom fazer sexo com ela e no fim, sentir o bem estar das coisas conseguidas. Não ter reparado em como era possessiva. Apenas fazer sexo com ela. E acorrer a todas as chamadas. Até ao dia em que, confrontados com uma situação difícil , tudo se desmoronou. Era frágil o elo de ligação. O que eu queria era o absoluto, no amor. Conciliar o ser e o haver, numa absorção total das duas mentes, como uma só. Que se digladiam , se confrontam, se violentam, por vezes, como nós em nós, mas que se amam acima de tudo, tudo mesmo. Porque se confiam e esperançam a cada momento de vida, se respiram. Não fingir. Não há seres perfeitos. Saber gostar, amar as imperfeições do outro.

Carla deixara de comer, embevecida, com a ternura das palavras. A mão pousada sobre a mão dele como que a estabelecer um elo. E não se conteve.

- E que situação foi essa? Queres falar sobre isso? Meu amor! Como eu me sinto ir, liar-me no menino triste que ainda há em ti. Como eu te amo!

Alberto estremeceu. Em milésimos de segundo permitiu-se pensar que naquelas palavras não havia teatro. O ar doce de Carla. Os olhos a espelhar lealdade.

-Mulher linda da minha vida. Vamos viver o absoluto do amor! Amo-te tanto. É tal o prazer de estar aqui e ver a tua imagem, desde há dias, a tua imagem. Deslumbrante que me esqueci de te dizer quem sou, o que faço.

Alberto levantou-se da cadeira e deu-lhe um beijo sobre os olhos, quente e húmido e voltou a sentar-se sem deixar de a fitar e ela nele, como serpente e presa cada qual, o ser e o não ser.

-Sou livreiro. O meu pai deixou-me uma loja que vende sonhos. Mariana era jurista, fria, calculista. Sei-o hoje. Eu tenho um irmão que foi arrastado pelo sórdido lado da vida. Drogas pesadas. Roubou. Foi preso. O que eu esperava de Mariana era que o defendesse em tribunal. Que usasse todos os trunfos. Que afrontasse o sistema. Que fosse um eu nela e ela em mim. E ela recusou. Não queria manchar a sua reputação. Podia entregar o caso a um colega. Foi o fim. Acabei de deitar o que quer que restasse.

Nos olhos de Carla a luz, sem lamechas. Um sorriso doce de esperança. O belo e diáfano som da sua voz.

-E salvaste-o?

-Sim, está num centro de recuperação . Há já um ano.

Pagaram, levantaram-se e seguiram enlaçados, os corpos embatendo-se a cada passada,

um último olhar à Lua e ao reflexo sobre as águas calmas da baía, beijando-se, arrulhando e sentindo-se, como um só, o pulsar apreçado do coração.

Subiam a rua da Sé envoltos no quase silêncio pelo adiantar da hora. E Alberto, ao ouvido, num sussurro.

-Não tens medo?

-Oh! Não. isto não é Lisboa. É uma cidade pacata. Nunca acontece nada. E agora tenho-te, querido, para me proteger .

A noite a refrescar e uma ténue neblina a emprestar um ar soturno aos candeeiros de luz mortiça, emblemática duma cidade quase museu.

Alberto olhou em volta, a rua deserta. Vindos da Praça velha, dois carros em andamento lento. De cima nada.

Um dos carros parou, no preciso momento em que Carla mudou de posição e se colocou do lado esquerdo de Alberto. Da janela entretanto aberta, uma mão forte arrancou a mala de mão de Carla e arrancou na direcção das Covas.

Alberto, num impulso, deus alguns passos em perseguição do carro que, um pouco à frente, deitou pela mesma janela a mala , a mesma mala.

 Apanhou-a e voltou-se, com um ar triunfante, mas?...Nada. O vulto de Carla, debatendo-se, os olhos de pânico, no interior do outro carro que seguiu a alta velocidade, o chiar dos pneus na pedra polida da rua da Sé. O ar desesperado de Alberto, sem compreender, sem aceitar, sem querer acreditar, olhando ainda em volta, no espaço interior  do recanto exterior   da loja.

Tinha visto um policia junto à Caixa, correu em desvario. O policia também tinha seguido o desenlace do rapto.  Vinha a subir na direcção de Alberto. Tirou as matriculas porque lhe tinham parecido suspeitos. Iria tratar de tudo, fechar portos de saída. Aeroporto. Que tivesse calma. é uma questão de tempo. Estamos numa ilha.

continua

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

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