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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

21
Abr13

ELEGÂNCIA

samueldabo

*
ELEGÂNCIA
**
o corpo dava a forma
fazia do vestido negro élan de sedução
na meia negra a opacidade
o encanto do pé no meio salto fora de norma
eis a mulher d'alma e coração
segura de ser a deusa em sua humilde vaidade
*
a gola modelar punhos de renda
uns olhos verdes instantes tão de tanto sedutora
na luz que envolve de magia seu olhar
os lábios fecham segredos que não se desvenda
perna traçada fixando a estrela da aurora
que já desponta sobre a montanha rompendo o mar
*
no ar intenso solto o perfume
no silêncio expectante e misterioso
onde a luz brilha em seu fulgor
no sorriso do olhar em cujo lume
arde docemente o ser ditoso
que me escolhera para ser o seu amor
*
tocam-se os lábios de alforria
os seios maduros arfam de sensuais palpitantes
os corpos tentam novos desafios
caem roupas supérfluas na sofreguidão da fantasia
beijos profundos de grandeza amantes
na delícia das mãos que desatam emaranhados fios
*
reacendido o fogo arde sem controle
há tanto tempo o amor paixão parecia rendido
entrelaçam-se as almas dentro da memória
os lábios sugam-se sôfregos de beijos que a alma engole
tocam-se desejos no respirar gemido
suores da pele que revelam cheiros com história
*
deleitam-se lascivas as bocas
os olhos reviram para o lado de dentro da alma
em beijos indeléveis que se viciam
entumescidos os sexos aguardam à porta das tocas
fervem sentidos nada os acalma
nem as palavras roucas que o amor ciciam
*
numa tempestade de tonturas
uma mulher um homem pelas bocas unidos
cambaleiam num absoluto orgásmico
elevam-se adejando sobre as suas loucuras
extasiados ante si rejuvenescidos
pela magia dos átomos ou um toque cósmico
autor: jrg
07
Abr12

MEU AMOR É POESIA !...

samueldabo

 

imagem pública tirada da net

*

MEU AMOR É POESIA !...
*
a poesia é como o amor
um sentimento de dar e receber
tão profundo que enlouquece
vento que agita as pétalas da flor
fogo que apetece nele arder
água sangue que a paixão aquece
ar que suaviza a nossa dor
*
é mansa brisa ou vento agreste
se brisa toca suavemente
se vento exalta o pensamento
se mansa de lírica veste
se agreste encanta docemente
é a alma em movimento
beijo de luz abraço se amor disseste
*
é fogo que lavra ardentemente
é chama azul vermelha ou amarela
cintila na alma com esplendor
é fogo de paixão que germina a mente
que explode em cor de aguarela
se arde lentamente é doce tão de amor
se louca de emoção invade a gente
*
autor: jrg

05
Fev11

SOBRE SOLIDÃO...MAR E CÉU AZUL...

samueldabo
 

foto de rosa maria

 

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quando à luz te vi e a sorrir

esqueci que eras rosa tão imersa em solidão

porque te vi rosa bela florir

seara vestida de versos orvalhada de emoção

**

mergulho no fundo da tua dor

cantada em poemas de dentro da alma ardente

mágoas sentidas de grande amor

que um dia se partiu de quem ainda tanto sente

**

de há quanto tempo este sorrir

que ilumina transparente a escuridão do dia

de onde brotam as palavras o fulgir

que estremece alma pura de tão dúctil poesia

**

teu nome de flor é fascinante

no encanto dos teus versos uma nova alegria

chama viva que enobrece ser amante

de quem veste de verdade em oculta fantasia

**

o céu clareou do acizentado

agora azul mavioso sobre um mar calminho

rosa flor sorri e canta amor sonhado

em versos onde cheiro alecrim e rosmaninho

 

autor: jrg





22
Abr09

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - A RECTAGUARDA

samueldabo

 

 

 

 

 

 

Alexandra...o cabelo negro, forte e curto, os olhos grandes, verdes avelãs, cara oval, lábios carnudos, expressivos de sensualidade, o corpo em harmonia com a alma pura de menina apaixonada. As maminhas redondas, nem grandes nem pequenas, suficientes, botões de rosas perfumadas, como ele dizia. Sorria, os dentes alvos, certinhos, caprichosos nos arrufos, dentadinhas nas orelhas, no sexo dele quando nas noites de namoro na escuridão da rua, sentados no patamar da porta, se deleitavam de amor, excitantes de paixão de amor.

Manuel António era para ela toda a realidade de um sonho belo que a acompanhava desde a puberdade, de quando os sonhos tinham um toque de fadas míticas. Amava-o de uma forma estranha, como não amara ninguém, de dentro, de um de dentro de si que desconhecia até ele surgir na sua vida, como se fora impossível ter sido de outra forma.

É verdade que, por mais de uma vez, ardendo de um desejo voraz que ele provocava quando a acariciava nos mamilos, a vulva, os beijos aglutinadores de posse, de entrega do todo, do desconhecido adivinhado, sugerido pelas emoções que atravessavam, exaltantes, o seu sentir de mulher.

Era virgem porque era comum na época casar virgem, ser de um homem só, e ela acreditava na monogamia. Via-se de vestido branco, a grinalda sobre a cabeça, o ramo de laranjeira, a noite de núpcias com o sangue derramado sobre os lençóis.

Agora pensava que bem podia ter satisfeito os desejos de ambos, que se achava convencida pelos argumentos dele, que uma nova era estava prestes a irromper das mentalidades adormecidas por séculos de ostracismo da verdadeira dimensão do ser mulher. Sim, sentia que se operavam mudanças. Agitação em França, igualdade, fraternidade, amor livre, a libertação da mulher do jugo do homem e do lar.  A atenção que lhe davam os amigos de Manuel António, como uma igual, as amigas que ele lhe apresentara, desinibidas, libertas de  preconceitos religiosos ou de família. Por outro lado, tinha medo de engravidar, ter um filho do seu amor e ele longe, na guerra que ambos detestavam, mas que ela tinha esperança de o ter de volta. A esperança não é uma certeza, tudo pode acontecer, sabia que ambos sofriam, mas  decidiram que seria quando ele voltasse.

_Senhor Joaquim!...

Era o carteiro, um sorriso malandro, os olhos inquietos na procura do interior da mala postal.

Recebia quase sempre muitas cartas e volumosas. Manuel António escrevia todos os dias e às vezes mais de uma vez no mesmo dia. Contava pormenores da vida dos locais, falava da natureza, dos rios ou paisagens que se pareciam com as da terra, os animais e os sons misteriosos, da magia dos olhos negros das crianças, dos aromas, que a queria lá nas férias, estava a estudar uma possibilidade, uma semana que fosse.

Alexandra até gostava de estar com ele. Sentia que se tal acontecesse não resistiria aos apelos insistentes do corpo, o cheiro a mar do corpo de Manuel António, como o amava e como se sentia amada!... Mas  África não a seduzia, tinha medo, era um sentimento de abstracção absoluto. Tinha uma paranóia por Asiáticos e África.

Estávamos em Fevereiro, a noite escura, quente e soprava uma brisa forte dos lados de África, curioso, de onde soprava a brisa.

De repente, um rumor misterioso, como se falas pavorosas advindas do interior da terra se fizessem ouvir, rompendo silêncios ancestrais, as paredes da casa estremeceram, o candeeiro de petróleo sobre a mesa da sala oscilou, breves segundos, os gatos numa correria inquietante, o latir do cães, e vozes de pessoas assustadas que gritavam salmos e ave Marias. Clamavam a Deus por misericórdia. Alexandra e a família saíram para a rua. Estava apavorada e pensou que o terramoto seria pacífico. As casas tinham aguentado, talvez devido ao terreno ser de aluvião. Fazia calor e era madrugada...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

...

04
Abr09

POEMA INDÓMITO!...

samueldabo

vislumbro o teu corpo no cume da montanha sublime

os teus lábios unidos não sorriem choram nostalgias

regurgito da memória os momentos vividos e afligi-me

de ver tanta beleza desvanecer-se em amargas agonias

 

De onde te olho e vejo nítida de alma adejante sobre ti

enquadrada na alvura das nuvens que cobrem o azul celeste

uma nesga de sol  que rompe a densidade e te sorri

te banha de luz  te ilumina aquece da temperatura agreste

 

Grito o teu nome deixando que ecoe  da voz o som pungente

é grande a distância entre o cume e a base onde me encontro

amar-te-ei sempre disse-te e tu olhaste-me vaga indulgente

incrédula do meu sentir o futuro  já frio em ti  e eu um monstro

 

jrg

 

23
Fev09

DESAFIO - POSSIVEL DEFINIÇÃO DO AMOR - DESAFIO

samueldabo

 Da minha amiga TiBéu, do blog :     

    o convite para dissertar sobre o amor, aqui vos deixo a minha reflexão:

 

 

O amor é uma palavra que procura definir conceitos de elos de ligação afectuosa entre as pessoas, na generalidade, para definir a união de duas pessoas entre si, para consubstanciar numa só palavra, todos os efeitos atractivos que dois seres sentem de um outro para si. Diz-se fazer amor, de um acto sexual. Diz-se amo-te, para demonstrar que queremos aquela pessoa para um projecto de vida a dois. Amar de sensualidade.

 

 

 

 

Esta é uma imagem de amor, onde os afectos são uma evidência que refulgem na memória de momentos vividos. E não só doces momentos, também amargos, ás vezes violentos, porque o amor é uma manifestação também de bom senso, que se não afoga, nem consome na paixão inicial, quando é ainda uma novidade  que nos percorre o corpo, nos faz estremecer ao menor contacto, à presença do ser amado.

Amar a sensualidade de outro ser, é sentir que duas vontades estão em condições de encetar um projecto, onde a sexualidade é uma parte importante, mas que não se esgota, nem alimenta na sexualidade.

Amar uma pessoa, gostar de ter sexo com essa pessoa, é sinónimo de estar preparado para iniciar um projecto de vida, ter filhos, até à eternidade. Associamos, comummente, o amor a sexo, "amas-me, prova-me com sexo", mas o fazer sexo é um acto biológico, uma necessidade do corpo, de libertação de fluidos, energias, pode-se amar uma pessoa, viver com ela uma vida inteira e ter tido sexo ocasionalmente, porque o ser é assim mesmo, o desejo, o cio, não tem hora, não pode ser controlado, asfixiado em nome dum sentimento que lhe é alheio, que é uma confusão ou imposição da ética.

O amor é também e essencialmente o cheiro, os aromas do corpo e do sexo, os aromas que fluem do interior do corpo, que são mutantes com a idade e que só amando se consegue entender e acompanhar, porque os nossos próprios aromas também mudam, não só os do outro.

Amor é talvez um sinal cósmico que como um raio ziguezagueante penetra duas almas, os genes do amor e os faz reflectirem-se um no outro, inapelávelmente.

 

 

07
Fev09

P A R A B É N S AMOR!...e vão 39

samueldabo

O vestido branco arrastando pelo chão, encobrindo as tuas pernas maravilhosas, sufocando os aromas do teu corpo, a grinalda de flores brancas sobre os teus cabelos negros, os teus olhos verdes, raiados de verdes intermédios, de tom escuro. mágicos , onde aprendi a ler de ti, da alma esfuziante de encantos. A luz dos teus olhos, aprendi que era amor, altivos e submissos, não a mim, de mim, mas a algo que aceitamos como o sendo do nosso ser.

O sorriso de felicidade, as gargalhadas, a ternura com que me beijavas a cada instante, por cada motivo, por mais banal. O pote do arroz que despejaram à nossa passagem triunfal, como se carecêssemos da tradição para nos consubstanciarmos de e em amor eterno.

A cerimónia do sim ante as testemunhas, o ar incrédulo de alguns que não acreditavam na possibilidade de sermos amantes, ou talvez aguardassem um desfecho trágico à sublimidade de nos amarmos para além do racionalmente aceite.

Hoje olhei-te e vi o mesmo brilho. Penso que o vi em todos os anos a sete, e sinto a mesma ansiedade, o bater forte do coração, como se fosse hoje o dia sempre em absoluto.

Só eu vejo a tua pele luzidia, só eu vislumbro o brilho dos teus olhos, só eu capto o encanto do teu sorriso, só eu te sinto airosa, o andar igual , a voz doce e quente que me chamava amor, que me chama amor. Só eu sinto que os anos não passaram, que és a minha eleita, o meu mimo de ternura, na doença e na alegria, nas tempestades agrestes que nos assolaram. Onde  outros fraquejaram por tão pouco, nós erigimos uma fortaleza de amor.

És um exemplo de mulher no comando. Trabalhaste, foste  e és mãe, avó, amante fulgurosa, a financeira que resolveu as crises, a mãe que desceu ao fundo e esgatanhou a besta. Eu fui o sonho, o sonhador que interpretou a vida como um romance em que os personagens se agitavam nas águas revoltas e lamacentas e se erigiam em ondas de espuma para continuarem a ganhar tempo ao tempo. O tempo decidiria, decidiu?

Olho-te hoje e vejo a mesma menina de há quase quarenta anos. Minha paixão de amor, minha eternidade. Habituei-me aos novos aromas, à rebeldia da tua intransigência, beijo-te nos lábios e chamo-te amor. Há quantos anos és o meu amor?

Hoje vamos ser de novo como dantes, renovaremos o cenário, ou reinventá-lo-emos, haverá música suave ao jantar, talvez velas, flores, trocaremos sorrisos e olhares indiscretos, daremos as mãos, terás momentos de ser mais coquete, talvez tomemos um duche juntos e deixar-nos-emos enredar na teia que vimos construindo, até à eternidade da tua infinitude de mulher.

Amo-te

 

01
Fev09

O MAESTRO!...

samueldabo

 

da Wilquipédia

 

O papel do maestro, regente ou condutor é dar uniformidade a um grande contingente instrumental ou vocal para que todas sigam o tempo, a dinâmica e o andamento indicado na partitura, pois sem ele cada músico ou cantor perderia a marcação do tempo em relação aos outros. Em síntese, ele é o chefe do grupo, aquele que dita as ordens, impondo na maioria das vezes a sua "interpretação" à obra musical. Porém a figura do maestro ditador, prepotente e arrogante vem entrando em decadência há um bom tempo, e as grandes orquestras do mundo vêm preferindo assim regentes que se coloquem no mesmo nível dos outros integrantes da orquestra, sabendo que eles estão ali juntos para fazer música e não impor ordens.

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 O Maestro                                                                       

O cabelo comprido entremeado de fios brancos luminosos, por entre pretos, mestiços, sobressaindo da meia calva que exubera a figura altiva, dúctil  e firme do maestro.

Entra na sala e recebe os aplausos sentidos da plateia, curva-se e agradece, as luzes ofuscam-se ante o seu brilho, atentos, os músicos aguardam o inicio da dinâmica orquestral.

Estou do lado de fora da sala em cima do telhado onde, por uma nesga furtuita me é permitido viver um absoluto de concerto, de onde abarco a plateia, o palco, o jogo de luzes, o som e as imagens em movimento dos instrumentos.

O compositor era anormalmente louco, e digo anormalmente, porque os loucos não escrevem partituras, sinfonias, óperas, duetos...O Maestro representa o criador da música que vai fazer evoluir nos seus diversos andamentos.

Os braços acomodam-se em arco, sereno o seu olhar, o corpo direito, monumental,  a batuta na mão direita, os músicos agitam-se levemente, aprontam os instrumentos, leem as pautas.

A peça começa com os metais, meteóricos, em força, ressoante pelo espaço devidamente aprimorado de condições acústicas excelentes. Os braços do maestro movem~se em circulos e linhas paralelas, obliquas, o corpo inclina-se,dança, todo o corpo se movimenta como notas de música. O brilho dos olhos que se abrem e fecham, se dirigem para cada um dos grupos de instrumentos, para que se calem uns, ou se acalmem e outros ataquem no momento certo, o momento empolgante, como onda que se forma, se agiganta e se abate sobra ondas mais pequenas que a sucediam.

O Maestro torna-se uma parte intima de cada espaço da música, ele é o espirito e a letra da criação, interpreta-a e executa-a em cada um dos outros que a tocam. É belo. Acalma, os movientos suaves, a mão esquerda que guia o andamento, a direita que indica o grupo, e de novo o toque a rebate, todo ele em polvorosa ritmica, a testa sua, os braços como barco em tormenta, a batuta ao fundo e de novo acima, os dedos da outra mão num bailado demoníaco e de novo a acalmia, a suavidade melódica dos violinos, o piano em sintonia, um toque diáfano  da percussão, como que marcando um ritmo. As violas os violoncelos, a harpa mitica, os contra-baixos.

E do nada, quase silêncio, um fio de violinos, as mãos quase paradas do Maestro, os rostos dos músicos na expectativa, um movimento brusco, do nada , em crescendo retumbante, o ataque final, os trompetes os trombones, as trompas, as tubas, clarinetes e saxofones, e pouco depois todo o apetrecho de instrumentos musicais em unissono congregado numa emulsão de sons harmoniosos e o Maestro possesso de energia, os lábios abertos, sorriso esgar de dor ou grito, a alegria, o medo, o terrror, depois sereno, as mãos em movimentos que se cruzam e se entrecruzam , que rodopiam se ultrapassam, sobem e descem, mergulham e  emergem , estancam e recomeçam  onde só elas sabem o rumo, o alvo e são gigantes pequeninas da alma imensa do maestro que termina em apoteose colossal, dobrado sobre si mesmo.

 

autor: JRG

25
Jan09

BATATAS FRITAS - MEMÓRIAS DA GUERRA

samueldabo

Do regresso da cidade, a lancha aportou a um aquartelamento intermédio, porque viajar de noite não era aconselhável. Qualquer luz seria um alvo fácil, ou porque a tropa não estava disposta a horas extraordinárias.

Manuel António encontrou um amigo, um condiscipulo de escola de vila, de pescarias no juncal junto ás dunas. Há quanto tempo? Uma eternidade todo o curto tempo decorrido e ainda o fim não se pressentia, se é que havia fim ou tempo, ou apenas o verde das arvores frondosas palmeira que respiravam do alto de onde talvez se visse o mundo, o outro mundo de onde viera e deixara uma parte importante da alma.

Partiriam de manhã ás 6. Passou o dia em volta do rio, as crianças brincavam com canas, pequenos pedaços de madeira que serviam de barcos, corriam sem sentido em volta de si, em volta dum tempo que tardava. As barrigas inchadas sobressaindo do corpo esquelético. Os olhos de um escuro de abismos recônditos. As carapinhas sem brilho, cobertas de poeira, de terra amarela .

Comeu ostras, bebeu vinho, conversou até tarde e adormeceu na cama que lhe destinaram.

Acordou já o dia ia alto, o coração palpitante, tivera pesadelos, mortes, a sua própria morte e a aflição para sair da morte,  o debater do corpo, ou não, seria a alma, porque ele via o corpo envolto na mortalha, um pano imenso, branco,  manchas de sangue e vultos que se guerreavam na disputa do corpo dele e algo, uma força que se colava ao corpo, que se pressentia nele e de repente um dos vultos desvia-se da alma e corre para o corpo, para o cortar, o dividir...foi quando acordou, se mexeu, se procurou ainda imerso na névoa do sono e viu que  era dia de sol nascido, correu à porta e já não viu a lancha da Marinha que o levaria a casa, à sua casa de ali, de estar longe.

O coração bateu com mais força, suou, temeu-se de ser castigado, dado como desertor, julgado em conselho de guerra, condenado.

Lembrava-se dum camarada que abateu um jagudi. Os jagudis eram abutres preservados como reserva animal natural e preciosa. Eram uma aves de porte altivo, insensível, que espreitavam na copa das árvores uma oportunidade de corpo apodrecido. Evitavam a decomposição dos corpos  a céu aberto. As cabeças enormes, depenadas, os bicos curvos, poderosos. Os olhos sobressaídos, sanguinários. Constituíam uma visão tétrica do ambiente. Dera-lhe um tiro, um só tiro e a ave enorme abateu-se no solo.

Foi condenado a um mês de prisão e aumento do tempo de permanência. Vi o choro dele, convulsivo, quando recolhia à cela.

Manuel António, fez um gesto largo com os braços e apresentou-se ao capitão, que adormecera, se esqueceu de pedir a alguém que o acordasse, a quem?

O Capitão mandou informação para o outro quartel e ficou resolvido que iria na próxima lancha, mas só havia outra dentro de seis dias. Sem castigos...

Os dias passados sem nada para fazer, ás voltas em volta do quartel , as brincadeiras dos miúdos sempre iguais, monótonas, apenas os ritmos do pilão o distraíam um pouco. O batuque e a cantoria. O amigo convidava-o para comer ostras. os dias iam compridos dilaceravam-lhe a saudade. Alexandra. Podia apenas mandar-lhe os aerogramas, cartas oficiais oferecidas, mas curtas para o tanto que queria escrever. Estava doente com paludismo. Febre, enjoos, alucinações..

 

"Meu amor, minha vida.

Fiquei retido neste aquartelamento porque adormeci. O meu cérebro, a minha alma, não param de me recriminar por este deslize. Estar lá, no local onde estão as minhas coisas, as nossas coisa, e os amigos que são uma família que já não dispenso. As tuas fotos estão lá, não vou receber as tuas cartas de uma semana inteira, eu escrevo-te daqui e vais sabendo noticias, eu lerei todas juntas quando regressar.

Apanhei paludismo. Isto é irritante e deixa-me carente de mimos, estares aqui e poder mexer nas tuas maminhas, cheirar tudo de ti, meu amor. tenho o cheiro do teu sexo nas minhas narinas, não suporto isto sem o teu cheiro. És toda e tudo na minha vida e eu amo-te e quero viver para ti, para o momento sublime do nosso reencontro...

Esteve três dias na cama, febre e vómitos, enjoos ao cheiro da comida, nem a sopa, apenas rodelas de ananás em calda e água. Água para tomar os comprimidos de quinino. A imagem de Alexandra, tão linda de dentro dele em delírio, o cabelo curto, negro o rosto redondo e os olhos grandes, belos e tão brilhantes de amor. O corpo dela , corpo miúdo, airoso, o andar dela. Tudo nela o encantava, mas o cheiro, o aroma do sexo excitado pelas carícias dos seus dedos.

A lancha partia no dia seguinte, ás seis da manhã. Pediu a vários, aos sentinelas que seriam rendidos a essa hora, que o acordassem.

A lancha de cor cinzenta tinha uma tripulação de seis homens, com o comandante. Uma metralhadora pesada de balas  tracejantes. Tudo era cinzento, um cinza azulado. Chegariam a meio da tarde.

Manuel António estava mais magro, os três dias sem comer praticamente nada, por fim até enjoara as rodelas de ananás em calda, apenas a água. Sentia fome, uma fome sem sustentação e foi comendo da ração de combate que lhe haviam distribuído.

Era ele e outro, da tropa geral, tropa macaca, encostados à proa chata da lancha. Em frente os marinheiros sob uma espécie de coberta  a prepararem o almoço.

Manuel António, os olhos fixos nos preparos, no tipo de comida, o fogão com uma frigideira onde colocaram batatas a fritar.

Á medida que iam fritando as batatas exalavam um aroma conhecido há muito refundido na memória. Batatas fritas!...

Os marinheiros olhavam na direcção deles, os dois da macaca que mastigavam o sem sabor da ração de concentrados. Os olhos fixos na distância que os separava 6 a 7 metros, talvez, olhos que não se liam. O cheiro a batatas fritas intenso.

_Talvez eles nos ofereçam de comer, somos só dois...

_Talvez...disse Manuel António.

Os outros foram comendo o delicioso repasto. A lancha navegava pelo meio do rio por entre a luxuriosa vegetação de ambas as margens. Ás vezes soltavam gargalhadas. O sol a pique queimava. Os olhos amorteciam a ilusão de comer algo que não comiam há muitos meses. Batatas fritas...mas não comeram

 

 

12
Nov08

O VELHO E A MIÚDA-ESBOÇO PARA UMA HISTÓRIA COMPRIDA

samueldabo

Estou exausto. Há horas que dançamos no frenesim das luzes que rodopiam em volta de nós. A música é um som longínquo, dançamos ao ritmo dos corpos que, como nós, balançam e oscilam entre si. Alguém capta o som da música e o transmite em sucessivas ondas de sensibilidade corporal.

A espaços de tempo emborcamos mais uma caipirinha. Foi a nossa escolha em simultâneo, talvez pelo, fascínio dos granulos transparentes, do acre adocicado , do leve fluido de álcool que não chega a toldar-nos de todo, nos mantém lúcidos de nós, da nossa evidência de sermos nós e não um estereótipo de nós, uma alienação incontrolável.

_ A minha mãe é uma cabra. Ás vezes penso que não me queiram, que fui um aborto falhado. Depois da minha irmã, logo eu, de novo, uma ratinha atrevida.

Peço-te que não abuses da bebida. Estou cansado e poderei não ter forças para te arrastar. E tu dás uma gargalhada. Tão bela quando te ris da forma como o fazes neste momento. Ris-te do que eu disse e do que tu disseste, da minha cara surpreendida. A mãe..

._É verdade que o meu pai não é melhor que ela. Gastaram uma pipa de massa com o meu joelho, um tipo que conheciam...cirurgião e pêras...mas os afectos, o amor intransigente pela filha que eu sou ou era, já não sei nada, não os senti. E é isso que faz de mim este ser perdido da realidade, a esmo de acasos, sem um perfil definido para ser. Sem a confiança plena para ousar transpor o rumo a que me acomodei, invertê-lo, traçar de novo uma nova hipótese.

Disseste tudo isto ao ritmo da dança. Posso ver a cicatriz do teu joelho, tão saliente  da coloração da tua pele original, sobressaindo da saia curta que trouxeste em homenagem a mim, porque gosto de te ver de saias. A roda que se move em círculos e deixa que te veja as pernas belas quase até ás coxas. O teu feminino. Seres bela no teu feminino, porque me fazes sentir belo. Viver em sintonia com a beleza.

_Ameio-o, era o homem da  minha vida. Disse mesmo para mim própria: "serás o meu marido para sempre, sinto-o." E vivemos o sonho de nos amarmos em absoluto. Senti-lo na sua totalidade, dentro de mim, em volta e por sobre o meu corpo. Os sexos a absorverem-se em êxtases de paixão.

Fazes uma pausa, os teus olhos brilhantes, os lábios húmidos. Penso que gostava de beijar os teus lábios, de os sentir saborosos em mim. Estás sentada, esplendorosa e sorridente. Os teus lábios húmidos. os joelhos a descoberto e de entre eles a cicatriz. A coberto dos corpos inclino-me e beijo-a, a pele luzidia, como uma marca indelével para toda a tua vida. As luzes esbatem no meu rosto suado e dão-me um ar fantasmagórico e tu ris, lançando o corpo para trás, sem pudor, em gargalhadas de cristal que de mistura com a música assumem um som doce e suavemente belo.

_O tipo não aguentou a responsabilidade de sermos um projecto só nosso. Talvez fossemos demasiado novos, estiquei-me, avancei um espaço de tempo que não era o adequado, saltei um hiato, atasquei-me perdida e só, porque fui muito criticada por esta minha vivência e mandaram-me desenrascar, sair dela com a mesma maturidade com que entrara.

Está abafado na sala ampla, mas repleta de corpos, de vozes e sons de músicas afrodisíacas, ou simplesmente atípicas de rótulos, porque o som não conta, o som são as batidas do álcool nas têmporas latejantes. Sugiro que saiamos um pouco para junto do rio. 

E tu vens, airosa no teu corpo de menina, tão deliciosamente bela. Há uma brisa fresca que escorre da noite e por cima de nós, toda ela imponente de luz, a Lua cheia que nos olha e parece que se ri. Posso ver os contornos que nos induzem uma expressão de mulher, porque é o que eu quero ver nela, nas sombras que traçam os olhos, a boca, o nariz.

Pergunto o que andaste a fazer pelas ruas, amargurada de quê? Quantos homens abusaram do teu corpo? Quantos te conspurcaram a alma?

_Não quis voltar para casa, ou puseram-me na rua, ou tinham-se separado, minha mãe vivia com outro homem e eu não queria coabitar com estranhos. Não sei bem, foi um período confuso, estranho e doloroso até que levantasse de novo a minha estrutura, um pouco de corpo, um pouco de alma, e persistir, inverter o sentido fatalista da coisa, da vida, sabes como é!...

E eu não sabia, ou não queria saber. O teu cabelo negro sobre os ombros de onde vislumbro a alça que o prende, ao sutiã, que segura as tuas maminhas redondas, mimosas, botões de rosa despontando do teu corpo magro. Frágeis e tão poderosas porque és tu na tua sensualidade plena e movem-se com o teu arfar, tão suavemente como a brisa fresca da madrugada sobre o rio sereno.

_Agora tenho uma casa, só minha, onde me habito com as minhas preciosidades e só entra quem eu convido, quem eu quero. Mentiria se te dissesse que não sinto a falta de um amor sério, um amor de verdade que me aquecesse nas noites frias da alma, que me impulsionasse nos momentos de desânimo.

Digo-te que sim, que sei ou sinto isso de ti, que na realidade da tua juventude, ter alguém a quem chamar amor. Teu amor. Dizeres a palavra :amo-te, é uma falta com a qual não sabemos lidar. Podemos dizê-lo em abstracto, ausentes até da presença de um outro em nós, mas poder dizê-lo e estar ali, na nossa frente alguém que nos olha, que nos surpreende a palavra na hora, ou momento em que sai, se torna uma forma de estar, de querer, de ser. Alguém que nos afaste a ideia de solidão que nos persegue. Não ter nada nem mais ninguém. Sou!...para quê, para quem? ser capaz de ser para mim, se ser eu para mim. É muito fácil de dizer aos outros. Mas não podemos abandonar-nos. Somos os últimos guardiões de nós mesmos. Somos a mola, o motor, a razão

_Achas mesmo que alguém um dia se interessará por esta pobre de Deus. Sem cheta nem um sentido estético da e para vida? Que faço eu para ter o direito, ou a benesse de ter um pouco mais de conforto, partilhar o que em mim ferve, ter filhos, experienciar que nada me afectou o sentido da maternidade, que nada me afectou o sentido de ser uma boa companhia de projecto?

Conto-te a minha história , de como tudo começou de repente e a partir de um acaso, que se calhar não era um acaso ,mas uma congeminação  de factores que criaram as empatias factuais, que nos fizeram olhar de uma forma diferente e determinada direcção. Digo-te que são incontroláveis, imprevisiveis as nuances de nos estar a acontecer o impensável, de todo em todo.

O luar sobre o teu rosto circunspecto. Peço-te que não estejas apreensiva e dou-te a mão para que retomemos o caminho de regresso. Deixar te.ei em casa como combinámos. Foi um sonho diferente, o desta noite e o rio, ao longe ainda o mar. Um dia destes levo-te no meu barco e pescaremos robalos à linha. Confia em tudo de ti, a tua sabedoria é o teu Norte.

_E como é que se faz?...Há quanto tempo não como peixe?...

A tua voz era já um fio de som em fase de abandono pelo sono. Olhei-te pelo canto do olho, tão jovem, tão bela, tão virtuosa.

Minha amiga

 

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