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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

19
Set12

EPITÁFIO - (para a PAULA)

samueldabo
imagem pública tirada da net
*
EPITÁFIO
(para Paula)
*
juntam-se à despedida
no silêncio apenas
a morte
trocam olhares demências
cada um em seu drama
a pensar
*
amigos conhecidos família
ligados por um fio
o sangue
ou a memória das vidas
que foram um dia
o tempo
*
a decompor-se nos vermes
o corpo jaz ali morto
vegetal
que antes repartiam entre si
interstícios da carne
nas orgias
*
a persistência do mistério
na homilia do padre
morrer
a encomenda das palavras
faz-se tarde a morte 
já partiu
*
terá rondado alguém eu tu
o gato preto ronrona
porquê
tanta disputa tanto ódio
fétido cheiro tétrico
quem era?
*
foi de repente adormeceu
terá deixado algo
por fazer
uma sentença um desejo
uma memória dizer
não quero
*
tristes e indizíveis actos
rostos desnoitados
funerários
carregam a urna deitado
um corpo sem alma
amortalhado
*
segue o cortejo lentidão
servil ao protocolo
quem era ..é
o som cavo da terra tapa
flores que me cobrem
olhares
*
cada um regressa ao sitio
o corpo manchado
ali fica
embebido na arenosa terra
com flores a murcharem
da vida
autor: jrg
18
Dez11

ABSURDO MISTÉRIO...

samueldabo

foto pública tirada da net


*

ABSURDO MISTÉRIO...

*

estranho mistério
o da morte
que nos deixa impotentes
no vácuo 
da nossa indignação

*

mais estranho
quando alcança sem aviso
a nossa interioridade
nos arranca a parte mais dolorosa
de ser mulher e mãe

*

estranho porque atípico
sem sentido
quando nos toca a alma
e inunda de saudade
o pensamento a angústia infinita

*

porque estranho 
é o tempo que demora a viver
um ser inteiro
escravo do impudor
mítico da morte

*

mas uma criança
promissão de existir a crescer
um pedaço da alma
dos genes que de dentro recusam
o absurdo da morte

*

feridas abertas de mãe
insaráveis quietas
onde não mais a esperança
que acuda à revolta
implorando estranho perdão

*

estranha fragilidade
ante tanto domínio absoluto
raiva ódio violência
que o rio da morte arrasta
como um pesadelo

*

às vezes penso na morte
sob véu de seda 
bela à luz da transparência
e não aquele espectro
que leva à mãe a criança

*

outras imagino a resistência
que de dentro da alma
a vida cansada teima em refulgir
da tétrica mansidão
do sem sentido que nos incita a existir

*

amarrotados no medo
que nos eterniza no mito de deus
a quem confiamos o tudo
e o nada de que padecemos
a culpa o erro a vileza

*

estranhos mistérios
o da morte o do azar o da sorte
que nos trocam os passos
abstractas emanações que nos tocam
invasivas adúlteras secretas

*

jrg

18
Out08

MEMÓRIAS DA GUERRA - MATAR OU MORRER!...

samueldabo

Vaga lumes luziam em silêncio por entre o capim de hastes delgadas e cheiros impertinentes que se alojavam nos corpos e no interior de cada um, como um estigma de amor.

As botas enterravam-se na água lamacenta das bolanhas vazias de arroz, talvez densamente povoadas de repteis e outros anfíbios ou semi anfíbios, ou peixes sem nome e de outras pequeníssimas espécies de habitantes aquáticos, que fugiam espavoridos a cada passo e ao ruído surdo do chap chap cuidadoso de cada passada.

Eram duas longas filas de homens que se entregavam aos mais variados pensamentos, entre a atenção sobre a  floresta escura,  e algum ruído indissociável do perigo que pressentiam avindo da sua densidade impenetrável.

Manuel António seguia na fila da esquerda, a mais distante da orla da mata. decidira não fazer a barba. Tomara o banho antes de se deitar e escrevera uma carta longa para Alexandra. Não uma despedida, mas uma carta densa de amor de projectos ao porvir. O filho que queriam ter. O filho deles, varão. Queria um menino, não porque desgostasse de uma menina, mas tinha receio de não ser capaz de a educar.

Atrás dele, o Fátima, sussurrava Pais nossos e Avé Marias, um rosário entre o gatilho da espingarda  e a mão que segurava o cano, junto ao carregador de munições. A voz pastosa quase inaudível, uma ladainha.

Na sua frente, passos trôpegos, gingando ora para um ora para outro lado ao peso das granadas de Bazooka, e do bagaço que ingeria sempre que havia uma operação de combate, o Cortegaça, espalhafatoso na parada do quartel ,barafustando contra tudo e todos, agora mudo, congeminando sabe-se lá o quê ou contra quem.

Estropiados. Nenhum deles queria sair dali estropiado. Antes morrer. E iam ficando, sem o saberem, sem darem por isso a cada estremecer do coração, ao estalido vindo da mata, ao riso súbito, aviltante, dos macacos despertos pelo cheiro humano irrompendo pelo seu habitat. Seguiam o trilho que alguém erudito traçara com nuances hipócritas de ser  o melhor para os homens, o mais seguro e capaz de surpreender o inimigo. Um risco sobre o papel rijo e amarelado do mapa e de onde sobressaía a mancha verde da floresta e o local exacto do acampamento ou aldeia a destruir.

Manuel António é um pacifista. Não quer matar. Não quer destruir o lar de ninguém.  Aceitou de si, vir por amor. Acreditando que era possível vir e voltar sem que tivesse ocorrido nada do que temia, matar, por exemplo. Não pensava na sua própria morte, mas o acto de matar um outro ser que ele admirava, que ele amava e a quem não podia dizer uma palavra se se encontrassem frente a frente. Era matar ou morrer, sem uma palavra. O mais rápido, o menos surpreso, o sangue mais frio, ou o dedo mais hábil. Matar ou morrer.

Sentia as lágrimas ofuscar-lhe a visão.

As pernas começavam a pesar, de molhados, os uniformes ganhavam uma pressão intransigente  sobre as pernas. A noite ainda densa e eis que se chegam ao local do assalto. Os homens são dispostos ao redor da aldeia para que não escape nada nem ninguém. Casas de  lama e capim. Uma clareira castanha no verde da mata. África.

É dada a ordem e como uma mola, os que estavam instruídos para a tomada do objectivo, lançam-se confiantes que não terão oposição, sobre as casas de onde começam a sair animais de criação, galos galinhas e porcos. Das casas, aos gritos indecifráveis porque de dialectos tribais ou étnicos, saem mulheres de idade, crianças, velhos que vociferam contra os invasores. Ouvem-se disparos de metralhadoras de armas ligeiras, gritos de filhos da puta, cabrões e outros selváticos de dentro, da raiva de estar ali e não querer ou de gostar desta farsa de ser homem. Há fumo, labaredas que se propagam ao capim envolvente das palhotas, o choro das crianças cansadas de correr em volta. O ranho, as lágrimas ,o suor de mistura com o pó e o cisco das palhas ardidas.Imagem Dantesca no dealbar da madrugada.

Manuel António está na retaguarda , dos que fazem segurança à chacina dos bens e da dignidade de uns tantos que resolveram tomar o partido dos bandidos e observa aterrado o vai e vem dos homens possessos. Homens, como ele. Dum povo que vive amordaçado e convencido que é dono de outros povos tão longe. E pensa que é tão responsável como os que executam.

Feita a operação, trazidos alguns prisioneiros, mulheres e crianças, para servir de aviso à restante população rebelde, iniciam o regresso, constatando que não havia armas, nem gente armada, nem Turras, naquelas miseras palhotas no interior da mata.

O mesmo caminho de regresso. "Olha o papão. Deus nosso Senhor castiga-te." Lembrava-se, de quando era criança e fazia um estrago, os ralhos adultos, o olhar severo, do lado de fora e de cima de si, poderosos e ele franzino, dois palmos de gente, tremendo de medo pelos castigos...

O sol apareceu e trouxe a habitual nuvem de mosquitos sugadores dos suores entretanto expelidos pelos poros dos corpos cansados. A mesma tensão, agora acrescida pelo medo de qualquer retaliação. Os rostos têm uma cor macilenta. Os olhos salientes, as pálpebras inchadas. Manuel António é o penúltimo porque o Fátima fazia questão de ser o último. Era Fátima. Sentia-se imbuído dum espírito de protecção.

Soam tiros de costureirinha, assim chamada porque o som parecia o de uma máquina de coser roupas. Explosões de morteiro 62. Os homens espalham-se pelo chão e disparam as suas armas na direcção da mata.

Manuel António repara que o Fátima está inerte, que geme baixo e nota-lhe uma mancha negra junto ao ombro. O tiroteio é intenso. Ouvem-se gritos de perto, em Crioulo que os mandam para a sua terra, que lhes chamam bandidos. Julga ver vultos que correm tão perto e pensa que é  desta que não vai escapar.  Levanta-se um pouco para amparar o Fátima, arrastá-lo para junto do enfermeiro que, transido de medo espumava da boca seca e pastosa dum suco horrendo entre branco e castanho, sangue. Por momentos pensa que o Fátima cumprira a sua missão, o quer que fosse, bala ou estilhaço de granada, se ele fosse o último, seria ele o atingido.

Manuel António voltou para a sua posição, rastejando e de cócoras, olhos na mata e dá com ele,os olhos dele luminosos, os dentes brancos, um lenço vermelho sujo enrolado na cabeça. É um homem como ele, mas está do outro lado da vida. Grunhe palavras inteligíveis e dispara na sua direcção. Rápido estende-se e rebola no chão de capim. Ouve os silvos das balas sobre si. Angústia. os passos que se movem rápidos e dispara gritando: Alexandraaaaaaa!!!! dispara um carregador e outro que conseguiu enfiar entre tremores.

_Já o mataste!.

Era uma voz conhecida. Palmadas nos seus ombros, nas costas, os tiros ainda que se afastavam. Névoa no interior do cérebro. Saliva acre que teimava em escorrer-lhe de dentro de si

_Mataste-o pá. Porra!   O Cortegaça, já sóbrio, sem o peso das granadas de bazooka entretanto despejadas.

_Eu?!  Incrédulo, ele, Manuel António, a levantar-se atordoado, a apalpar.se e a cuspir a ver se era sangue o que teimava em escorrer de si, por entre os seu lábios. Não, não era sangue, ou era, de uma cápsula de bala que saltara da culatra e foi ver, aproximou-se de onde o comandante e outros pegavam na arma do homem que ele supostamente matara. E lá estava, as vísceras de fora, enrodilhadas entre si, o intestino grosso e o delgado e todos os órgãos à volta, macabros, numa evidência de corpo tracejado a bala. E o cheiro a carne, não de fora, mas de dentro da carne, pestilento, onde já nuvens de mosquitos se banqueteavam e em cima, por cima das cabeças deles, os abutres atentos, farejantes da morte em busca do festim. Olhou o homem de pele escura, os dentes brancos agora escondidos sobre os lábios cerrados, os olhos abertos, negros, ainda com um resto de brilho, como vidro, e em volta a córnea amarelada. As mãos abandonadas de palmas voltadas para cima, como se pedisse desculpa ou se oferecesse em sacrifício de uma causa a que Deus?... meu Deus!...

Voltou-se e seguiu em passos lentos na direcção de amigos que o sentiam  desfeito. Um esgar de dor em todo o rosto, os membros entorpecidos, névoa no cérebro e uma palavra que repetia em sucessivos estertores da voz:

E agora Manuel António?...E agora....?

 

16
Set08

MORREU O FERNANDO DO CALDEIRADAS

samueldabo

Era um homem bem humorado. Cozinheiro exímio, que tinha a paixão de cantar o fado.

Cultivava o dom da simpatia. Morreu durante o sono para que o corpo não sofresse. Boa alma.

Relembro conversas sobre adversidades da vida. A alegria de viver. A fama efémera ao participar num programa televisivo. Relembro a figura pitoresca do cozinheiro aprumado, de branco e com o barrete da classe extrapolado da sua figura baixa e cheia . As gargalhadas e a postura preocupada em alguns momentos menos felizes.

Relembro as festas que organizou com os Karaoke em plena rua, ou passeio público.

E relembro, sobretudo, o espaço do restaurante, O Caldeiradas, que ele comprou e restaurou e que servira de posto da G.N.R.

E relembro, sobretudo, porque foi neste espaço, onde hoje funciona a cozinha, que se situavam as celas de prisão, onde eu fui preso com 10 anos apenas, porque, com outro amigo, atirei pedras ás lâmpadas dos candeeiros públicos. Não sei se parti alguma, ou se foi o outro, mas atirei e foram-me buscar a casa.

A minha mãe não estava, levaram-me e deixaram recado para que fosse ao posto resgatar-me.

Na cela escura chorei como se estivesse possesso e deram-me uma bofetada para que me calasse. Tinha medo do escuro. E isso, nesse tempo, era motivo de chacota.

Morreu um homem bom e de bem de um momento para outro, entre a noite e o dia e isso faz-me sempre reflectir que não somos donos de nada, nem de nós. Inexoravelmente, o fim acontece, como se estivesse programado, por mais que nos esquivemos.

Ser dono do Caldeiradas ou ser dono de nada. Ser o homem mais rico do mundo ou nada.

Ser o mais possessivo ou o mais liberal. Ser o mais feliz hoje ou o mais pessimista. Ser o mais avaro ou o mais odiado dos mortais. Só o amor engrandece, só o amor torna possivel a felicidade de ser pessoa.

Gostei de te conhecer Fernando

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