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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

01
Mar12

MENINA...

samueldabo
foto pública tirada da net
*
MENINA
*
estou a vê-la brincar
idade de fantasia
a construir sonhos de realidade
às vezes quase a gritar
fala gesticula movimenta magia
olhos lindos na cidade
que me faz lembrar o mar
*
às vezes surpreendida
pelo meu olhar tão embevecido
atira-me um vai embora
com um sorriso belo mas sentida
de me ver assim travestido
de menino que ela tanto adora
a meio do sonho retida
*
findo o regalo da infância
volta a pedir colinho
exercita em mim a nova esperança
de ver crescer nela em relevância
o humanismo novo onde eu gatinho
desde quando era criança
a cumprir no tempo a circunstância
*
autor: jrg
08
Dez09

MENINA BELA DO RIO

samueldabo

menina bela do rio
encanto de sorriso o seu
sinto em seu olhar o brio
que sendo de mulher a menina venceu

menina linda do rio
sua luz de mulher esplendorosa
menina saída do frio
mulher de bela tão caprichosa

menina bonita do rio
seu ar de mulher vistosa
que encanto de menina coloriu
seu aspecto de mulher amorosa

menina  mimo do rio
poeta do amor a mais engenhosa
que sendo mulher onde já se viu
menina tão linda maravilhosa.

 

menina sonho do rio

água corrente de vida purificante

caindo em cascata sorriu

menina vida de quem sou amante

 

 

 

autor:  JRG

28
Nov09

APARÊNCIAS DE MULHER...

samueldabo

todos os dias a empregada

que nos avia o pão café pastelaria

calças escuras camisa verde e boné fardada

frenética de movimentos e galhardia

 

vista de fora mulher banal

alva ou negra a pele sem atavio

apenas o corpo no vai e vem sensual

cem o perfume que acicata o cio

 

mas eis que num acaso é  hora de saída

e a mesma que há pouco parecia apagada

nos surge o cabelo solto a roupa colorida

e um sorriso nos olhos tão desejada

 

demoro o meu olhar na formosura

o fino traço do rosto a pele veludo

os olhos que rutilam na frescura

os lábios que sorriem e me deixam mudo

 

autor: JRG

 

 

05
Jun09

MONONUCLEOSE

samueldabo

A Mononucleose dizem que é doença benigna

mas numa criança pequena é sempre uma tempestade

amortece nela a vida ofusca-lhe o ser menina

torna baços os seus olhos espevita-lhe a maldade

 

porque sente a arrelia de não poder rir saltitar

privada das brincadeiras chora grita esperneia

sente dores na garganta na barriga mal estar

não importa se é pobre ou rica é a mesma panaceia

 

importa se sente amor de dentro à sua volta

ela não sabe que a dor se acalma na confiança

e que há meninos no mundo tristes nada os conforta

mas sente que é querida como deve uma criança

 

tantos mimos e beijinhos colinhos tão carinhosos

acabaram os castigos tudo lhe é permitido

só a febre a detém ensaia sorrisos gostosos

aprende da vida que o bem sem o mal não faz sentido

 

 

 

j.r.g.

 

 

 

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12
Nov08

O VELHO E A MIÚDA-ESBOÇO PARA UMA HISTÓRIA COMPRIDA

samueldabo

Estou exausto. Há horas que dançamos no frenesim das luzes que rodopiam em volta de nós. A música é um som longínquo, dançamos ao ritmo dos corpos que, como nós, balançam e oscilam entre si. Alguém capta o som da música e o transmite em sucessivas ondas de sensibilidade corporal.

A espaços de tempo emborcamos mais uma caipirinha. Foi a nossa escolha em simultâneo, talvez pelo, fascínio dos granulos transparentes, do acre adocicado , do leve fluido de álcool que não chega a toldar-nos de todo, nos mantém lúcidos de nós, da nossa evidência de sermos nós e não um estereótipo de nós, uma alienação incontrolável.

_ A minha mãe é uma cabra. Ás vezes penso que não me queiram, que fui um aborto falhado. Depois da minha irmã, logo eu, de novo, uma ratinha atrevida.

Peço-te que não abuses da bebida. Estou cansado e poderei não ter forças para te arrastar. E tu dás uma gargalhada. Tão bela quando te ris da forma como o fazes neste momento. Ris-te do que eu disse e do que tu disseste, da minha cara surpreendida. A mãe..

._É verdade que o meu pai não é melhor que ela. Gastaram uma pipa de massa com o meu joelho, um tipo que conheciam...cirurgião e pêras...mas os afectos, o amor intransigente pela filha que eu sou ou era, já não sei nada, não os senti. E é isso que faz de mim este ser perdido da realidade, a esmo de acasos, sem um perfil definido para ser. Sem a confiança plena para ousar transpor o rumo a que me acomodei, invertê-lo, traçar de novo uma nova hipótese.

Disseste tudo isto ao ritmo da dança. Posso ver a cicatriz do teu joelho, tão saliente  da coloração da tua pele original, sobressaindo da saia curta que trouxeste em homenagem a mim, porque gosto de te ver de saias. A roda que se move em círculos e deixa que te veja as pernas belas quase até ás coxas. O teu feminino. Seres bela no teu feminino, porque me fazes sentir belo. Viver em sintonia com a beleza.

_Ameio-o, era o homem da  minha vida. Disse mesmo para mim própria: "serás o meu marido para sempre, sinto-o." E vivemos o sonho de nos amarmos em absoluto. Senti-lo na sua totalidade, dentro de mim, em volta e por sobre o meu corpo. Os sexos a absorverem-se em êxtases de paixão.

Fazes uma pausa, os teus olhos brilhantes, os lábios húmidos. Penso que gostava de beijar os teus lábios, de os sentir saborosos em mim. Estás sentada, esplendorosa e sorridente. Os teus lábios húmidos. os joelhos a descoberto e de entre eles a cicatriz. A coberto dos corpos inclino-me e beijo-a, a pele luzidia, como uma marca indelével para toda a tua vida. As luzes esbatem no meu rosto suado e dão-me um ar fantasmagórico e tu ris, lançando o corpo para trás, sem pudor, em gargalhadas de cristal que de mistura com a música assumem um som doce e suavemente belo.

_O tipo não aguentou a responsabilidade de sermos um projecto só nosso. Talvez fossemos demasiado novos, estiquei-me, avancei um espaço de tempo que não era o adequado, saltei um hiato, atasquei-me perdida e só, porque fui muito criticada por esta minha vivência e mandaram-me desenrascar, sair dela com a mesma maturidade com que entrara.

Está abafado na sala ampla, mas repleta de corpos, de vozes e sons de músicas afrodisíacas, ou simplesmente atípicas de rótulos, porque o som não conta, o som são as batidas do álcool nas têmporas latejantes. Sugiro que saiamos um pouco para junto do rio. 

E tu vens, airosa no teu corpo de menina, tão deliciosamente bela. Há uma brisa fresca que escorre da noite e por cima de nós, toda ela imponente de luz, a Lua cheia que nos olha e parece que se ri. Posso ver os contornos que nos induzem uma expressão de mulher, porque é o que eu quero ver nela, nas sombras que traçam os olhos, a boca, o nariz.

Pergunto o que andaste a fazer pelas ruas, amargurada de quê? Quantos homens abusaram do teu corpo? Quantos te conspurcaram a alma?

_Não quis voltar para casa, ou puseram-me na rua, ou tinham-se separado, minha mãe vivia com outro homem e eu não queria coabitar com estranhos. Não sei bem, foi um período confuso, estranho e doloroso até que levantasse de novo a minha estrutura, um pouco de corpo, um pouco de alma, e persistir, inverter o sentido fatalista da coisa, da vida, sabes como é!...

E eu não sabia, ou não queria saber. O teu cabelo negro sobre os ombros de onde vislumbro a alça que o prende, ao sutiã, que segura as tuas maminhas redondas, mimosas, botões de rosa despontando do teu corpo magro. Frágeis e tão poderosas porque és tu na tua sensualidade plena e movem-se com o teu arfar, tão suavemente como a brisa fresca da madrugada sobre o rio sereno.

_Agora tenho uma casa, só minha, onde me habito com as minhas preciosidades e só entra quem eu convido, quem eu quero. Mentiria se te dissesse que não sinto a falta de um amor sério, um amor de verdade que me aquecesse nas noites frias da alma, que me impulsionasse nos momentos de desânimo.

Digo-te que sim, que sei ou sinto isso de ti, que na realidade da tua juventude, ter alguém a quem chamar amor. Teu amor. Dizeres a palavra :amo-te, é uma falta com a qual não sabemos lidar. Podemos dizê-lo em abstracto, ausentes até da presença de um outro em nós, mas poder dizê-lo e estar ali, na nossa frente alguém que nos olha, que nos surpreende a palavra na hora, ou momento em que sai, se torna uma forma de estar, de querer, de ser. Alguém que nos afaste a ideia de solidão que nos persegue. Não ter nada nem mais ninguém. Sou!...para quê, para quem? ser capaz de ser para mim, se ser eu para mim. É muito fácil de dizer aos outros. Mas não podemos abandonar-nos. Somos os últimos guardiões de nós mesmos. Somos a mola, o motor, a razão

_Achas mesmo que alguém um dia se interessará por esta pobre de Deus. Sem cheta nem um sentido estético da e para vida? Que faço eu para ter o direito, ou a benesse de ter um pouco mais de conforto, partilhar o que em mim ferve, ter filhos, experienciar que nada me afectou o sentido da maternidade, que nada me afectou o sentido de ser uma boa companhia de projecto?

Conto-te a minha história , de como tudo começou de repente e a partir de um acaso, que se calhar não era um acaso ,mas uma congeminação  de factores que criaram as empatias factuais, que nos fizeram olhar de uma forma diferente e determinada direcção. Digo-te que são incontroláveis, imprevisiveis as nuances de nos estar a acontecer o impensável, de todo em todo.

O luar sobre o teu rosto circunspecto. Peço-te que não estejas apreensiva e dou-te a mão para que retomemos o caminho de regresso. Deixar te.ei em casa como combinámos. Foi um sonho diferente, o desta noite e o rio, ao longe ainda o mar. Um dia destes levo-te no meu barco e pescaremos robalos à linha. Confia em tudo de ti, a tua sabedoria é o teu Norte.

_E como é que se faz?...Há quanto tempo não como peixe?...

A tua voz era já um fio de som em fase de abandono pelo sono. Olhei-te pelo canto do olho, tão jovem, tão bela, tão virtuosa.

Minha amiga

 

03
Jul08

MAMÃ PORQUE SOU PRETA SE TU ÉS BRANCA?

samueldabo

O pai de origem Indiana, estatura média, magro, o cabelo ondulado, negro e os olhos mistério dos longes deixados, escuros, cintilantes e sempre agitados, como se temessem o ar que circunda à volta de si, a pele escura, geneticamente negra.

É especialista em medicina molecular. Estava em Moçambique quando se deu a revolução que o levou a ter de escolher entre ficar e partir. Escolheu partir, por não acreditar nas novas classes dirigentes, por temer as convulsões inerentes à mudança, por um desejo de aventura. A Europa...

E veio e conheceu a mãe, uma mulher linda de cabelos castanhos e pele morena, olhos castanhos escuros, um sorriso encantador, o corpo de formas harmoniosas, afável.

É especialista em medicina familiar e enamorou-se deste homem belo, que conheceu num simpósio sobre: Novos Contributos da Genética Molecular para a Medicina.

Apaixonaram-se, misturaram culturas, casaram e tiveram uma menina exóticamente bela, saída deste amálgama de genes tão distantes, e tão geneticamente próximos.

A menina tinha a pele escura e uns olhos escuros desmedidos no rosto pequeno, mas belos, únicos. Cresceu e foi à escola. Era inteligente. Absorvia tudo o que ouvia, via e escutava, mas tinha um olhar triste. Sentia que não era igual aos outros meninos. Não era preta nem branca, era escura, mas de um escuro indefinido  e via nos olhos pasmados dos outros meninos uma interrogação muda, um olhar estranho sobre o seu corpo, como se fosse um bicho raro, ou tivesse uma doença exposta que a definisse como ser imprópria para brincar as mesmas brincadeiras dos outros meninos e meninas.

Um dia eles, os colegas da escola, riram-se espalhafatosamente quando chegou e chamaram-lhe um nome diferente:

-Monhé!  Preta Monhé!...

Ficou aterrada, petrificada de onde ouvira em tom jocoso, do lado de fora do outro mundo que era o deles. Baixou os olhos lindos e grandes que choravam em silêncio. Foi assim que a encontrou uma professora que passava, que repreendeu os meninos e meninas com uma voz suave, mas firme.

Na aula o tema foi as origens do tom da pele e o respeito pelas diferenças. Os meninos e meninas foram convidados, à saída, a dar um beijinho à menina e a pedirem desculpa pelo seu acto. E a menina acalmou. Acalmou, mas não esqueceu.

à noite, na sua casa, quando os pais e ela se sentaram à mesa para o jantar, a mãe já estranhara o misterioso silêncio dela, sempre tão alegre quando chegava da escola, como se entrasse num reino seguro onde se libertasse dos medos.

-Mamã, porque sou preta se tu és branca?

Os olhos grandes, muito abertos, fixando não a mãe mas o pai, um trejeito nervoso nos lábios carnudos de menina.

Olharam-se todos num silêncio de gritos assustados. Como se tivessem percebido agora, ele  e ela, o pai e a mãe, que falhara algo na comunicação deles com a menina. Mas então e o colégio, um modelo de educação e ensino em que confiaram?

-Minha querida, a cor não importa. O importante é o saber. Sermos diferentes...

-Não!, Disse a menina, não quero ouvir essa explicação. Já a ouvi hoje.  Queria apenas saber se era verdade ou se havia outra explicação. A culpa é dele!

Apontou o pai que assistia à cena com um ar apavorado e carente de amor, do amor daquela filha que amava e que esquecera na luta pelos outros.

-Não quero viver mais com ele!....

E correu para o quarto, chorando, a menina exóticamente bela de olhos grandes, escuros de mistérios de longe.

 

27
Mai08

A NETA

samueldabo

É linda. Direi que é bela no seu conjunto absoluto de genes. Porque além de linda tem um sorriso genuíno e expressivo do que é na sua essência de si. E a voz soa musicada de dentro em silabas concretas e afirmativas do seu querer.

Ter visto a eco onde aparece disforme, quase monstro, e adivinhar, sentir, a transcendência do que virá, porque a sentimos no bater apressado do coração. E senti mo-nos nós lá, na totalidade de nós porque já não temos outra utilidade.

Estamos no limite de ela ser, porque somos a última referência tendo sido a primeira, dela no pleno da vida que lhe surge em emoções de alegria.

Ainda não há a dor. É apenas um ser indefeso de per si, que se sabe e sente defensável. É um ser a apreender tudo que ouve sente, vê e mexe. E vê-la revolver o que interioriza, reflectir já em si as impressões que lhe chegam que absorve com ligeireza, a interrogar-se quando interroga, e a transmitir de si a imagem da inteligência evolutiva.

Primeiro as letras, uma a uma, os números a que foi juntando afirmações. O dó, ré, mi em  entoação musical que te arrancava sorrisos, o tá tá  té té ti ti...O b  a   ba e por diante até ao hoje que contróis as palavras já em pré-conceitos do ser que cresce no teu corpo mimado de menina..

Lembro o esbracejar dos braços como se quisesses voar e as mãos batendo no tampo da mesa a chamar a atenção para a evidência de ti. As tentativas de gatinhar, mas movendo na direcção da retaguarda, as mãos a empurrar o corpo e não os joelhos e os teus gestos pela frustração de  não seguires o rumo que te indicávamos, ou seria porque era a ti que competia traçar o rumo e não a nós tão sábios a aprender-te de nós.

E naquele dia em que nos reencontrámos, na praia, e ensaiaste os primeiros passos e nós pensámos que o fizeras pela emoção da nossa visita e batemos palmas, todos e tu, exultante da alegria de seres capaz.

Minha querida menina, meu amor, meu milésimo de gene, de mim. O afã de te preparar para o mundo que vais ter que enfrentar. Tornar-te poderosa na tua essência para que o corpo, o invólucro que te acoberta a alma não te traia nas emoções do caminho

Agora já andas, corres e fazes tropelias. Mas tens a dimensão da humanidade que vais ser e preocupas-te comigo, com o que eu não sei de ti.

Queres mandar nas brincadeiras  e experimentar de tudo o que vês aos grandes. Tens pressa de ser grande, como eu tive e não sabia como sei que ser grande não é ser maior

se não se souber o que se é.

Meu amor de menina, quero que saibas que és a segunda mulher da minha vida, e ainda és só uma menina.

Espero por ti. Sempre

 

07
Mai08

E VIERAM AS TÁGIDES

samueldabo

Vieram de madrugada, as Tágides, e inundaram o meu sonho até então num emaranhado confuso, tornando-o mais fluente e limpido de contornos racionáveis, a deixar-me pairar nas nuvens dos desejos.

Havia grandes precepicios, entre altas montanhas  agrestes e despidas de vejetação.  No fundo, algém que me é querido, muito querido, um ente de feições descarnadas pela dor e ao cimo da montanha a salvação.

Eu a meio, impotente sem meios que me valessem para chegar à base da ravina, e ainda que chegasse, como alcançar o cimo , a perfeição?

E dei por mim a descobrir que voava. Não com asas como as aves da minha imaginação, mas com um simples movimento dos braços e das pernas em conluio.

Desci logo, a ver-me, como se nadasse. A ver a minha alma desprendida. Chegado ao fundo, que é onde a desgraça sempre bate, peguei o corpo inerte e quase descarnado. Pele e osso.

Os olhos abertos num espanto de quem acha em última instância a salvação.

E oiço as minhas próprias palavras ciciantes.

-Sou eu meu amor, aquele que te projectou muma ejaculação de Primavera, com tanto amor que te perdeu . Venho colher-te, porque tu és meu, queira ou não queira o papão.

E pegando nos meus braços, repentinamente imensos de força, o corpo a renascer de vida, inicio a subida ingreme, num esforço de marés vivas, contra o tempo incerto, a alma que pode voltar ao lugar de onde havia saído.

A meio, uma lufada de ares contrários desvia-me a tragetória. O suor escorre-me nas faces geladas pela euforia da subida agreste. Dou uma guinada. venço o vácuo que queria abater-me e mais a minha carga.

E num salto de gigante, numa última  investida da alma agitada  que ameaça voltar à matéria , galgo os silvados de picos agudizantes, a árvore altiva de ramos dispersos, a pedra sinuosa que proteje a plataforma firme e segura e deposito o corpo que de imediato renasce, ganha carne, cor e movimento.

E nisto, o sonho, se era sonho, acaba. E volto atordoado, abanando os braços, a ver se era verdade que voava.

 

16
Abr08

SER MÃE !!!...

samueldabo

Ser mãe. Sentir a vida crescer, o coração, os pés que se esticam, os braços que gesticulam hipotéticos desabafos. Guardar para si, porque não existem palavras que exprimam tamanha felicidade, o desenrolar de cada etapa seguida ao milímetro no écran das ecografias.

Suportar o incómodo do ventre que cresce e que interrompe a imagem harmoniosa da elegância. E continuar a gostar do seu corpo. Porque o seu corpo é casa, é abrigo, é amor.

Ser mãe e ter de conjugar a complexidade de interesses que se perfilam, de afectos.

O companheiro, ainda incrédulo, que não sente nada em si próprio, só a ideia ,e vaga, do  que aí vem, parecendo, por vezes cioso do lugar que, adivinha, está prestes a  perder.

A vida profissional que lhe exige o esforço épico de manter o êxito, para lá do todo que se enovela no interior de si.

Ser mãe e sorrir todos os dias, mesmo quando dói . ou enjoa  alimentos líquidos e aromas mal aceites. Mesmo quando está em desacordo com as palavras, os gestos, as atitudes. A sentir o orgulho, a magnitude, do momento e saber que é ela a essência, que é dela o alimento da vida que emerge, a responsabilidade de proteger , de educar, de acudir quando já não pode rectificar, por toda a vida, até ao fim.

Ser mãe!!!...

13
Abr08

O ACTO DE CUSPIR

samueldabo

Cuspir, em Portugal, hoje, como ontem, é um acto de cidadania.

As pessoas cospem na sopa. Cospem nas ruas por onde passam. Cospem para o ar, mesmo avisados que o cuspo lhes pode cair em cima. Cospem da janela dos carros em andamento e atingem outros que ás vezes, até nem têm o hábito de cuspir. Cospem nos cinzeiros em recintos públicos. Cospem da janela de suas casas e atingem passantes incautos que se incomodam, barafustam, mesmo sendo, eles próprios, activos cuspidores por onde passam. Cospem com raiva.

E eu questiono-me das razões invocadas, os lenços de papel são caros e nem sempre há receptáculos, guardá-los no bolso das calças, na mala de mão, que nojo!

E atento nos ídolos da bola, futebol, por cá e por esse mundo fora, cuspindo com personalidade no relvado,  onde, por vezes, se rebolam em quedas aparatosas, envolvendo-se em cuspo com voluptuosa ansiedade. Cuspindo no adversário que lhe deu uma cotovelada . E tudo isto colocado em evidência, pelos média, duma forma seráfica, apaixonada.

Nas salas, públicas ou privadas, onde a televisão transmite o sórdido  espectáculo, adultos, jovens e crianças que absorvem as imagens e as imitam, excitados.

Os atletas cospem as frustrações e limpam os lábios à camisola. Os cidadãos cospem a inteligência e limpam os lábios ao lenço.

Cuspir é pois uma instituição social Nacional.

E eu digo,  que é tempo de cada um engolir  o seu cuspo, porque a saliva não é um bem perecível, é nosso, ajuda a hidratar , tem sabores e tem cheiros, além de germes que podem prejudicar os outros.

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