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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

22
Abr09

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - A RECTAGUARDA

samueldabo

 

 

 

 

 

 

Alexandra...o cabelo negro, forte e curto, os olhos grandes, verdes avelãs, cara oval, lábios carnudos, expressivos de sensualidade, o corpo em harmonia com a alma pura de menina apaixonada. As maminhas redondas, nem grandes nem pequenas, suficientes, botões de rosas perfumadas, como ele dizia. Sorria, os dentes alvos, certinhos, caprichosos nos arrufos, dentadinhas nas orelhas, no sexo dele quando nas noites de namoro na escuridão da rua, sentados no patamar da porta, se deleitavam de amor, excitantes de paixão de amor.

Manuel António era para ela toda a realidade de um sonho belo que a acompanhava desde a puberdade, de quando os sonhos tinham um toque de fadas míticas. Amava-o de uma forma estranha, como não amara ninguém, de dentro, de um de dentro de si que desconhecia até ele surgir na sua vida, como se fora impossível ter sido de outra forma.

É verdade que, por mais de uma vez, ardendo de um desejo voraz que ele provocava quando a acariciava nos mamilos, a vulva, os beijos aglutinadores de posse, de entrega do todo, do desconhecido adivinhado, sugerido pelas emoções que atravessavam, exaltantes, o seu sentir de mulher.

Era virgem porque era comum na época casar virgem, ser de um homem só, e ela acreditava na monogamia. Via-se de vestido branco, a grinalda sobre a cabeça, o ramo de laranjeira, a noite de núpcias com o sangue derramado sobre os lençóis.

Agora pensava que bem podia ter satisfeito os desejos de ambos, que se achava convencida pelos argumentos dele, que uma nova era estava prestes a irromper das mentalidades adormecidas por séculos de ostracismo da verdadeira dimensão do ser mulher. Sim, sentia que se operavam mudanças. Agitação em França, igualdade, fraternidade, amor livre, a libertação da mulher do jugo do homem e do lar.  A atenção que lhe davam os amigos de Manuel António, como uma igual, as amigas que ele lhe apresentara, desinibidas, libertas de  preconceitos religiosos ou de família. Por outro lado, tinha medo de engravidar, ter um filho do seu amor e ele longe, na guerra que ambos detestavam, mas que ela tinha esperança de o ter de volta. A esperança não é uma certeza, tudo pode acontecer, sabia que ambos sofriam, mas  decidiram que seria quando ele voltasse.

_Senhor Joaquim!...

Era o carteiro, um sorriso malandro, os olhos inquietos na procura do interior da mala postal.

Recebia quase sempre muitas cartas e volumosas. Manuel António escrevia todos os dias e às vezes mais de uma vez no mesmo dia. Contava pormenores da vida dos locais, falava da natureza, dos rios ou paisagens que se pareciam com as da terra, os animais e os sons misteriosos, da magia dos olhos negros das crianças, dos aromas, que a queria lá nas férias, estava a estudar uma possibilidade, uma semana que fosse.

Alexandra até gostava de estar com ele. Sentia que se tal acontecesse não resistiria aos apelos insistentes do corpo, o cheiro a mar do corpo de Manuel António, como o amava e como se sentia amada!... Mas  África não a seduzia, tinha medo, era um sentimento de abstracção absoluto. Tinha uma paranóia por Asiáticos e África.

Estávamos em Fevereiro, a noite escura, quente e soprava uma brisa forte dos lados de África, curioso, de onde soprava a brisa.

De repente, um rumor misterioso, como se falas pavorosas advindas do interior da terra se fizessem ouvir, rompendo silêncios ancestrais, as paredes da casa estremeceram, o candeeiro de petróleo sobre a mesa da sala oscilou, breves segundos, os gatos numa correria inquietante, o latir do cães, e vozes de pessoas assustadas que gritavam salmos e ave Marias. Clamavam a Deus por misericórdia. Alexandra e a família saíram para a rua. Estava apavorada e pensou que o terramoto seria pacífico. As casas tinham aguentado, talvez devido ao terreno ser de aluvião. Fazia calor e era madrugada...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

...

13
Abr09

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - SEXO E PERCEVEJOS

samueldabo

Dolorosa era a noite no silêncio da caserna repleta de cheiros e de mosquitos, acordara sob um pesadelo em que se via a ser comido por bichos e insectos em euforia de carne fresca, suculenta. Sentiu mesmo o deslizar de patas sobre o corpo e instintivamente defendeu-se com palmadas ás cegas, por onde os sentia. No escuro levou a mão ao nariz e deu um salto da cama, cheirava a morte...

Acendeu um isqueiro e viu as patas em movimentos loucos no lençol de pano cru, eram percevejos. Que merda!!!...

Despertou, já não havia sono que o deitasse na tarimba infesta. Pensou em Alexandra e embrenhou-se no sono dela, à procura de ser sonho, de algum modo estar nela, ser ela.

Foi ás latrinas em frente da caserna, o cheiro a creolina já não o incomodava tanto e ao pensar em Alexandra, nos aromas que trazia na memória, aromas do sexo, da pele macia, da boca fresca e quente,  ia-se masturbando deleitosamente, como se fora ela a sua mão fechada sobre o sexo dele.  Manuel António...os movimentos da mão, as contracções do corpo, a mente contraída num desejo de voar, que contornasse a mentira que era estar ali.

O aperto final, o jacto de esperma se soltava enérgico, como se fora um seu filho que ele abortava de uma forma inglória,  numa cópula sem fêmea, sem troca de afectos, para ele só na sua solidão por um momento.

Permaneceu na latrina mais alguns minutos, o corpo dormente mas liberto de novas energias, o esperma nas mãos, elástico, cheiroso de si, podia ser um seu filho....

Voltou para a entrada da caserna, havia alguns que ressonavam, outros falavam alto, ou murmúrios das almas despertas, algures alguém se masturbava, sentia pelo arfar entrecortado da emoção do desejo.

Acedeu um cigarro e sentou-se no patamar da entrada. À noite havia uma aragem mais fresca ainda que densa e tensa. A Magia da noite e em África, onde tudo era mistério, desde os olhos luzidios e doces das crianças. Apenas o motor do gerador, agora gritante, numa evidência de estar ali, de ser um estorvo ao livre desenrolar dos seus pensamentos.

O Francês, chamavam-lhe assim porque estava emigrado em França, viera voluntariamente para não ser considerado desertor, também ele incomodado pelos percevejos, ensonado, discreto, aprendera em França que esta guerra era suja, uma mentira da história.

Ambos a percorrer memórias recentes e mais antigas de antes deles, de outras guerras, a imaginar em que condições viviam os combatentes, as grandes caminhadas, a alimentação frugal, alistados à força como eles próprios, seduzidos pelo saque numa eventual vitória, condenados à morte quando perdiam...abandonados se feridos com gravidade.

Que merda, esta e qualquer outra guerra.

De manhã, logo após o toque de alvorada, o sol nascente ainda morno, mavioso de cor e luz sobre os telhados de colmo da tabanca, a mata luxuriante em fundo, tirou o colchão e colocou-o ao sol encostado à parede da camarata. Afinal, era uma infestação total, os colchões regados com creolina, uma limpeza mais acentuada na caserna.

Faltava uma semana para ir à cidade tratar dos dentes. Voltar a ver um pouco do mundo de onde viera...

 

25
Jan09

BATATAS FRITAS - MEMÓRIAS DA GUERRA

samueldabo

Do regresso da cidade, a lancha aportou a um aquartelamento intermédio, porque viajar de noite não era aconselhável. Qualquer luz seria um alvo fácil, ou porque a tropa não estava disposta a horas extraordinárias.

Manuel António encontrou um amigo, um condiscipulo de escola de vila, de pescarias no juncal junto ás dunas. Há quanto tempo? Uma eternidade todo o curto tempo decorrido e ainda o fim não se pressentia, se é que havia fim ou tempo, ou apenas o verde das arvores frondosas palmeira que respiravam do alto de onde talvez se visse o mundo, o outro mundo de onde viera e deixara uma parte importante da alma.

Partiriam de manhã ás 6. Passou o dia em volta do rio, as crianças brincavam com canas, pequenos pedaços de madeira que serviam de barcos, corriam sem sentido em volta de si, em volta dum tempo que tardava. As barrigas inchadas sobressaindo do corpo esquelético. Os olhos de um escuro de abismos recônditos. As carapinhas sem brilho, cobertas de poeira, de terra amarela .

Comeu ostras, bebeu vinho, conversou até tarde e adormeceu na cama que lhe destinaram.

Acordou já o dia ia alto, o coração palpitante, tivera pesadelos, mortes, a sua própria morte e a aflição para sair da morte,  o debater do corpo, ou não, seria a alma, porque ele via o corpo envolto na mortalha, um pano imenso, branco,  manchas de sangue e vultos que se guerreavam na disputa do corpo dele e algo, uma força que se colava ao corpo, que se pressentia nele e de repente um dos vultos desvia-se da alma e corre para o corpo, para o cortar, o dividir...foi quando acordou, se mexeu, se procurou ainda imerso na névoa do sono e viu que  era dia de sol nascido, correu à porta e já não viu a lancha da Marinha que o levaria a casa, à sua casa de ali, de estar longe.

O coração bateu com mais força, suou, temeu-se de ser castigado, dado como desertor, julgado em conselho de guerra, condenado.

Lembrava-se dum camarada que abateu um jagudi. Os jagudis eram abutres preservados como reserva animal natural e preciosa. Eram uma aves de porte altivo, insensível, que espreitavam na copa das árvores uma oportunidade de corpo apodrecido. Evitavam a decomposição dos corpos  a céu aberto. As cabeças enormes, depenadas, os bicos curvos, poderosos. Os olhos sobressaídos, sanguinários. Constituíam uma visão tétrica do ambiente. Dera-lhe um tiro, um só tiro e a ave enorme abateu-se no solo.

Foi condenado a um mês de prisão e aumento do tempo de permanência. Vi o choro dele, convulsivo, quando recolhia à cela.

Manuel António, fez um gesto largo com os braços e apresentou-se ao capitão, que adormecera, se esqueceu de pedir a alguém que o acordasse, a quem?

O Capitão mandou informação para o outro quartel e ficou resolvido que iria na próxima lancha, mas só havia outra dentro de seis dias. Sem castigos...

Os dias passados sem nada para fazer, ás voltas em volta do quartel , as brincadeiras dos miúdos sempre iguais, monótonas, apenas os ritmos do pilão o distraíam um pouco. O batuque e a cantoria. O amigo convidava-o para comer ostras. os dias iam compridos dilaceravam-lhe a saudade. Alexandra. Podia apenas mandar-lhe os aerogramas, cartas oficiais oferecidas, mas curtas para o tanto que queria escrever. Estava doente com paludismo. Febre, enjoos, alucinações..

 

"Meu amor, minha vida.

Fiquei retido neste aquartelamento porque adormeci. O meu cérebro, a minha alma, não param de me recriminar por este deslize. Estar lá, no local onde estão as minhas coisas, as nossas coisa, e os amigos que são uma família que já não dispenso. As tuas fotos estão lá, não vou receber as tuas cartas de uma semana inteira, eu escrevo-te daqui e vais sabendo noticias, eu lerei todas juntas quando regressar.

Apanhei paludismo. Isto é irritante e deixa-me carente de mimos, estares aqui e poder mexer nas tuas maminhas, cheirar tudo de ti, meu amor. tenho o cheiro do teu sexo nas minhas narinas, não suporto isto sem o teu cheiro. És toda e tudo na minha vida e eu amo-te e quero viver para ti, para o momento sublime do nosso reencontro...

Esteve três dias na cama, febre e vómitos, enjoos ao cheiro da comida, nem a sopa, apenas rodelas de ananás em calda e água. Água para tomar os comprimidos de quinino. A imagem de Alexandra, tão linda de dentro dele em delírio, o cabelo curto, negro o rosto redondo e os olhos grandes, belos e tão brilhantes de amor. O corpo dela , corpo miúdo, airoso, o andar dela. Tudo nela o encantava, mas o cheiro, o aroma do sexo excitado pelas carícias dos seus dedos.

A lancha partia no dia seguinte, ás seis da manhã. Pediu a vários, aos sentinelas que seriam rendidos a essa hora, que o acordassem.

A lancha de cor cinzenta tinha uma tripulação de seis homens, com o comandante. Uma metralhadora pesada de balas  tracejantes. Tudo era cinzento, um cinza azulado. Chegariam a meio da tarde.

Manuel António estava mais magro, os três dias sem comer praticamente nada, por fim até enjoara as rodelas de ananás em calda, apenas a água. Sentia fome, uma fome sem sustentação e foi comendo da ração de combate que lhe haviam distribuído.

Era ele e outro, da tropa geral, tropa macaca, encostados à proa chata da lancha. Em frente os marinheiros sob uma espécie de coberta  a prepararem o almoço.

Manuel António, os olhos fixos nos preparos, no tipo de comida, o fogão com uma frigideira onde colocaram batatas a fritar.

Á medida que iam fritando as batatas exalavam um aroma conhecido há muito refundido na memória. Batatas fritas!...

Os marinheiros olhavam na direcção deles, os dois da macaca que mastigavam o sem sabor da ração de concentrados. Os olhos fixos na distância que os separava 6 a 7 metros, talvez, olhos que não se liam. O cheiro a batatas fritas intenso.

_Talvez eles nos ofereçam de comer, somos só dois...

_Talvez...disse Manuel António.

Os outros foram comendo o delicioso repasto. A lancha navegava pelo meio do rio por entre a luxuriosa vegetação de ambas as margens. Ás vezes soltavam gargalhadas. O sol a pique queimava. Os olhos amorteciam a ilusão de comer algo que não comiam há muitos meses. Batatas fritas...mas não comeram

 

 

28
Set08

U Í G E - A TOCA DOS RATOS

samueldabo

O Sol ainda a meio da trajectória do eixo da Terra, trémulo das nuvens que passavam por ele impelidas pelo vento e tu, meu amor, pequenino o teu vulto visto de cima, da amurada do navio, paquete de luxo, adaptado a transporte de tropas, onde de olhos húmidos e voz embargada pela emoção de te deixar, eu te fixava entre a multidão de gente que se movia numa inquietação de ver.

Tinha trazido o possivel de ti para te ter e já tinha saudades quando o navio ultrapassou a linha de visibilidade da cidade. Os saquinhos de plástico onde guardava as relíquias, os teus cabelos negros e fortes, uma madeixa que cortámos um dia antes para que o aroma se mantivesse activo por mais tempo. Os pelos do púbis, ainda humedecidos do último orgasmo quando te afagava o sexo docemente com as mãos quentes de desejos. O teu cheiro inebriante de todos os meus sentidos. O retrato onde toda a beleza do teu ser me doía de belo, de falta.

O navio tinha três classes de camarotes e agora tinha mais o porão, onde se amontoavam a maioria dos jovens feitos combatentes. A 1ª classe destinava-se aos oficiais, a 2ª aos sargentos e furriéis, a 3ª mais furriéis a alguns cabos.

O porão era para o resto da maralha. Antiga toca dos ratos, adaptada a camarata gigantesca, os beliches triplos, ficando o último rente ao tecto do porão do navio.

Subi ao meu lugar e deitei-me sobre o colchão de espuma macia. A um palmo a madeira pintada de branco que ainda cheirava a desinfectante. Fechei os olhos. O cheiro, os solavancos do navio. abrir de novo e sentir todo o peso duma pressão física omnipresente, que me comprime de encontro ao colchão, que me tolhe qualquer pensamento.  Os primeiros vómitos de quem nunca tinha visto o mar, a maioria vinha do interior profundo, da raia, poucos nesta leva vinham do litoral. O cheiro a penetrar nas narinas a sufocar a alma entaipada, desinfectante com o azedo dos ácidos do estômago, e mais o suor dos corpos e ainda havia os que só tomavam banho ao Domingo. E era uma alucinação de imagens que se instalavam na superfície da mente, empurradas de dentro, de onde toda  a revolta se fixara, atenta, aos movimentos da alma. Alexandra!... Névoa. Cheiros. O tecto branco, branco sujo quase creme. A ondulação, acima ,abaixo, para um e outro lado, chocalhando o que restava de alimentos no estômago que se insurgiam e teimavam em subir de lá, do fundo do saco, de mim obliquo, azedo, entontecido pelo marasmo agitante da toca dos ratos.

Haveria ratos algures entre a bagagem. Escondidos em alguma fresta do convés, ou nos esconsos do fundo. Dizem que o porão é a alma do navio. Imagino-os à espreita que tudo se acalme, atentos ao movimento dos corpos, aos silêncios que em absoluto cairão pela noite. Virão cheirar-me, penso, e acordarei com o roçar dos bigodes no meu rosto, ou o quente do mijo derramado na aflição da fuga. E instala-se-me  uma outra fobia. Os ratos...

Decido levantar-me e procurar refúgio em algum outro lugar mais aberto, respirável. Pelo caminho , cambaleando dos movimentos das ondas, encontro corpos agoniados que se desfazem de parte de si, até ao amarelo da bílis. Um cheiro nauseabundo, pestilento que me provoca náuseas. Desvio-me duma mancha de vómito. São orgasmos do estômago, dizem. Orgasmos dolorosos, desafiantes da nossa integridade física e espiritual.

E Deus aqui, onde paira? A quem abençoa? Alexandra!... O meu Deus é uma mulher. É dela que trago as relíquias que guardo religiosamente e que defenderei com a vida. É por ela que vou vencer, que quero vencer e esta é só a primeira provação.

Na coberta do navio há rostos serenos que aspiram a brisa do mar e colhem do Sol a luz ofuscada de nuvens, mas luz. Há gente encostada à sombra das balsas de salvação. Vejo um espaço vazio e um amigo que fuma um cigarro, junto a uma destas embarcações brancas cobertas de lona.

_Alberto!...Que lugar de coube, amigo?

_O porão!... Mas já me pirei, quero que eles se fodam, vou fazer a viagem aqui mesmo.

Ri do seu ar desvairado e decidido. Ao relento do dia e da noite, acordar orvalhado como flores dum jardim surreal que imaginamos.

_Boa, amigo, vou já buscar as minhas coisas à toca dos ratos. Guarda-me um pouco de espaço.

Corri, como se houvesse pressa,  e lembrei-me dos condenados sem o saber que corriam ao trabalho nas câmaras de gás dos campos nazis. Pasta para sabão... Voltei à toca e ao cheiro impossível, sustendo a respiração por momentos e respirando pela boca,  para evitar os vómitos. Porque amo tudo de mim.

Na coberta o ar é puro. Só mar e Céu. Há noite divirto-me na descoberta das Estrelas conhecidas, as Constelações, a Ursa Maior a Ursa Menor, a Cassiopeia, a Estrela Polar, Marte, a Lua. As fixas são os Planetas. As que piscam são Estrelas e há-as cadentes. Marte avermelhado. O fumo do cigarro quase azul  no ar que rareia. Brisa leve. Há corpos espalhados em redor da amurada. E penso no homem que em breve poisará na Lua e eu não estarei lá para ver.

As refeições são tomadas com a ligeireza possivel. Uma das mãos segura o prato e o copo do vinho. A outra faz o resto. O comandante avisara que o mar estava encapelado, tormentoso e haveria balanços frequentes do navio.

O Sol esta manhã nasceu do lado contrário do navio de onde nascera ontem, de onde nos acompanhara desde a saída. Alguma confusão no meu cérebro. O raciocínio lento. E pensar que andamos ás voltas, como num rapto em que os bandidos não quisessem que apreendêssemos o caminho de regresso..

Os Golfinhos acompanham a rota dos navio com movimentos graciosos e risos estridentes.

Sinto que talvez nos queiram transmitir confiança. Saltam e mergulham ,incessantes, durante horas, ou nos alertem para a imensidão da vida que ainda há para viver, ou nos cantem das suas canções de amor.

 

 

30
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA-GANDEMBEL

samueldabo

 

Era manhã cedo como de costume e o sol ainda se ocultava nas brumas da aurora fresca e húmida que não tardaria em transformar-se numa fornalha irritante, tanto faz que houvesse sombra. O ar rarefeito. Os mosquitos sedentos volteando à volta do pescoço, à espera das primeiras gotículas de suor.

Hoje tocara-lhe a ele, Manuel António, picar a estrada de areia amarela e poeirenta. A estrada que tomava o nome de picada, não sei ser por ter sido tantas vezes perfurada pelas varas metálicas, pontiagudas que tremiam, por vezes, nas  mãos morenas de jovens de olhar estático e cortante.

O rumo, a rota, o destino, era em frente, seguindo a estrada sangrenta. Só o comandante da coluna sabia. Os guias negros da milícia, eram informados na hora da partida. A longa fila de camiões GMC, carregados de viveres. De armas e munições. Esperança e morte. De quê? De quem? O ruído dos motores, o cheiro do gasóleo, a suor, a fumo que vinha da Tabanka. Os olhares que escondiam mistérios dos meninos negros e de negro. Os dentes brancos, cuspindo no chão à nossa passagem.

Manuel António sente o coração bater desordenado. As têmporas já latejam e doem. Os olhos febris que olham em redor e não vêm. A alma inquieta. Uma perna, os testículos, o corpo a alma, ou só um dos pés. Tudo era possivel dependendo de ser uma mina anti-pessoal ou um fornilho anti carro. No caso do fornilho nem a alma escapava. Tudo feito em merda, como o Dabó, o grande comandante milícia que dera a vida por eles, por ele.

A coluna inicia a marcha a passo lesto até alcançar o ponto limite onde a segurança é feita com o coração.

O grupo da frente são uns dez soldados de varas de aço ás costas, como se foram enxadas. Conversam entre si, à procura de descontrair os nervos à flor da pele. Não tremer. Não pensar.

A picada tem curvas e grandes árvores ladeiam-na de um e outro lado. Em cada uma das bermas seguem em fila os homens de verde salpicados de castanho. No meio os camiões e os dez condenados da linha da frente. É uma linha silenciosa e cada um remete-se à sua solidão de si, para si. A vara espeta a terra, se está rija um pé no local da picada e pica mais à frente, e o outro pé avança.. São poucos mas longos os quilómetros a vencer.

Pica, pé, pica outro pé. Pica pé, pica outro pé. pica, pé, pica outro pé. Interminável.

Manuel António está tenso e pensa em Cristina, a bela Cristina que o espera inteiro. Não deve pensar , mas pensa. Não pode pensar, mas pensa. Pé ante pé. pensa.

Cristina dissera.lhe, lábios nos lábios que ele ia voltar. Cerejas, sim, eram cerejas os sabores dos lábios dela. Vermelhas. Mas vermelho é morte. E o outro de si, mas também é vida. A morte e a vida na consciência de um acto de picagem de terra batida ou remexida. Atenção. A dureza pode ser um embuste. Se houver um fornilho estou feito. Podem colocar a mina com antecedência, regá-la com mijo, deixar que endureça.

O sol já marcha e não corre aragem. Mosquitos. Cristina. Gritar a angústia, o medo. Dizer não, saltar o muro de silêncio. Os macacos riem-se? Ou gritam espavoridos? Ele, eles,  macacos domesticados por Deus, ou em nome de Deus. Os outros também têm Deus. Um mesmo Deus senhor da Terra e dos animais. Um Deus poderoso, omnipotente e justo. Como justo? Quer uns quer outros interrogam-se, sobre a justeza de se matarem uns aos outros, de se armadilharem ignominiosamente.

A guerra, qualquer guerra é uma humilhação do homem. Ele sempre fora pacifico, mas irritava-se, por vezes. Sentia a impunidade com que se cometiam fraudes e atentados à dignidade. Considerava-se um humanista. Herdeiro do humanismo subjacente à  Revolução Francesa. Ir a Paris, um sonho de anos. A Pátria da Liberdade. Paris em chamas de amor.

Pica, passo, pica, passo, pica, passo. Suor e sangue na sola dos pés e no calcanhar. Pés chatos, joanetes. Ainda pensara que se iria livrar. Pica, pé, pica, pé, pica, pé...

Chegaram ao perímetro de segurança, exaustos, os dez da frente. Psicologicamente exaustos.

Manuel António, os olhos em volta, desolação. E para dentro de si: Cristina, meu amor, mais uma etapa, dentro, onde a solidão se povoa e se transforma em alarido, contentamento.

Chegam ás portas do "quartel". Manuel António estaca, estarrecido, cambaleia, os olhos vidrados, comoção, medo, terror, incredibilidade do que vê.

Como toupeiras, nus, apenas uns calções esfarrapados. Os corpos escuros do sol, da poeira, suor, lama. As barbas negras e os cabelos crescidos, pré-históricos, urrando selvaticamente, possessos de humanidade, assaltam os camiões. sem ordem, sem protocolo, em busca de cerveja, ainda que quente, saltitam enquanto uns outros, incrédulos assomem dos buracos cavados no chão que lhes servem de caserna, de quarto, de abrigo. Coçam-se, esbracejam. Gritam e dizem palavras inteligíveis. Trocam abraços. Um grupo, perto, de olhos parados, sem tempo, sem luz. Olhos mortos. almas agarradas a um fio de memória que se recusa morrer.

Ninguém se conhece e são como irmãos. Mais que irmãos. Amam-se e não sabem que é amor o que sentem, porque se abraçam, se beijam. Dizem que sofrem ataques diários. Abalar psicológicamente. Ouvem-nos gritar por entre o som da metralha. Vêm pela calada da noite. Chamam-lhes nomes ofensivos. Espalham ódio. Não os querm destruir fisicamente, só abalar a psique, a altivez da cor da pele. Correr com eles, os nossos soldados. Nossos. De quem?

 

 

                                                                  

 

Hino a Gandembel

Gandembel das morteiradas,
Dos abrigos de madeira
Onde nós, pobres soldados,
Imitamos a toupeira.

- Meu Alferes, uma saída!
Tudo começa a correr.
- Não é pr’aqui, é pr’ponte!,
Logo se ouve dizer.

Oh!, Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (1) e morteiradas.
Oh!, Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se ligam os rádios
Ao som de estrondos e tiros.

A comida principal
É arroz, massa e feijão.
P’ra se ir ao dabliucê (2)
É preciso protecção.

Gandembel, encantador,
És um campo de nudismo,
Onde o fogo de artifício
É feito p’lo terrorismo.

Temos por v’zinhos Balana (3),
Do outro lado o Guileje,
E ao som das canhoadas
Só a Gê-Três (4) te protege.

Bebida, diz que nem pó,
Só chocolate ou leitinho;
Patacão, diz que não há,
Acontece o mesmo ao vinho!

Recolha: José Teixeira / Revisão de texto: L.G.
____

(1) Verylights
(2) WC
(3) A famosa ponte Balana
(4) A espingarda automática G-3

05
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA - CORREIO

samueldabo

Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe,  te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.

As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.

O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.

Advinha destes condicionalismos  a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.

Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre  a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.

Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências

sem outros ouvidos.

Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.

Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se

amavam? Teria já nascido o meu filho?  Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas  passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.

Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.

Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.

- Quarenta e dois!

-Oi!  O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.

Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.

- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.

Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.

-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!

E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.

29
Abr08

O MEU AVÔ ERA DO MAR

samueldabo
Respondendo ao desafio da minha amiga TiBéu . Aqui vai

A sua figura imponente, levemente dobrado dos esforços de puxa rede, puxa barco, arriba acima, corre, corre ao saco do peixe que se debatia em angústias de sede súbita e sem remédio.

Na cabeça prateada dos oitenta, o tradicional barrete, faça chuva ou sol. Na orelha, encaixada entre a patilha, à laia de lápis de merceeiro antigo, a agulha de madeira própria para coser as redes. Os pés descalços. Somente no pino do Inverno calçava meia de lã grossa e uns tamancos de sola de madeira.

A camisa de quadrados berrantes, a calça de cotim arregaçada a meia canela, deixando ver o branco das ceroulas e a fita caída que servia para prender quando se metesse na água do mar.

Fui seu companheiro nas pescarias nocturnas, para lhe fazer companhia. Eu que tinha medo do escuro e que, no regresso, o onerava com o meu peso ás cavalitas porque tinha os pés chatos e doíam-me da caminhada de quilómetros na areia leve das arribas.

Por fim cegou e foi a primeira morte da minha vida. O estranho ritual da despedida fúnebre, da maior e mais importante referência do meu ser. Relembro sempre as suas palavras:

COM ESTE TEMPO NÃO ANDES  DESCARAPUÇADO RAPAZ!

E OS NOMEADOS SÃO

Azoriana Azoriana / Açoriana

Pincess-mrt Princess (^-^,)

Cigana CIGANA

Juaninha http://juaninha_pires.blogs.sapo.pt

My thoughts http://my_own_space.blogs.sapo.pt

Lala Passiondance

10
Mar08

MEMÓRIAS DA GUERRA ( I ) - O PRISIONEIRO

samueldabo

O tronco nu, musculado, cabeça levantada, deambulando no exíguo espaço cercado de ripas de madeira em jeito de fortaleza, a corda grossa amarrada ao tornozelo, as mãos unidas  por atilhos impossíveis de desfiar.  O sol abrasador e nem uma sombra. O prisioneiro. Os soldados passam e dizem:

- Turra! Filho da puta !

Arranham a garganta à cata de saliva que atiram ao prisioneiro, indefeso, sem direitos. Os olhos escuros e brilhantes, assustados mas altivos. O mistério oculto nos olhos sem expressão.

Manuel António olha o homem e antevê que ele tenha uma família , um ideal pelo qual lutou, luta ainda, e recorda os gritos de dor dos supliciados pela tortura da policia secreta. O cuspo dos soldados, sendo uma humilhação, não causa dor física , nem as palavras ofensivas da honra.

Atira-lhe um gesto solidário que o outro não compreende e desvia os olhos.

Manuel António  recorda, por um momento, os sonhos pesadelos de infância, em que ele era o salvador dos aflitos, dos injustiçados e chora a sua impotência na realidade da guerra.

 

 

registed by: Samuel Dabó

10
Fev08

MEMÓRIAS DA GUERRA (B)

samueldabo

O manel era básico, e não queria. Eu básico, pá Eu sou padeiro!

Baixo e gordo. Menino feio, desdentado. Comia tudo e de tudo. Básico.

Para os restantes era um motivo de corte com a monotonia. Uma evasão ao mundo da fantasia que a figura grotesca do Manel induzia .

O calor vinha e instalava-se logo pela manhã. Um sol de cor amarela, quente e húmido.

Todos tinham acordado bem cedo, era dia de partida da região interior, para a cidade e de aí, o lar há tanto esperado.

Manuel António fora talvez dos primeiros. Arrumara tudo na véspera, o rosto da morena de olhos grandes, verdes azeitona, que o esperava, ansiosa, martelava-lhe a cabeça. Dormira pouco. Nada. Partir.

Sózinho no meio da parada, silêncio e odores das árvores de manga. O ruído surdo do motor da geradora. Gritos dos macaco cão,a despedida. Os olhos grandes e interrogadores de Calibo , a menina de 2 anos que o enfeitiçara. África.

Aos poucos, os homens vão-se chegando para a partida. Carregam-se as camionetas com os pertences. Formam fila para a distribuição do pão e café. Há uma alegria renovada nos rostos macerados pela desordem emocional dos meses no interior da guerra.

Era uma guerra diferente do que haviam imaginado enquanto cresciam. Aqui não se viam os opositores.

Lentamente, como se não houvesse pressa, a coluna põe-se em movimento pela estrada de terra batida, amarelo avermelhado. Densamente empoeirada. E já se vêem os primeiros alvores que sobressaem da escuridão, como fantasmas assustados na tentativa de impedir a partida.

Ao longo da estrada que atravessa a povoação de colmo, figuras estáticas de rostos indizíveis, túnicas brancas, rostos velhos e gastos. Olhos misteriosos. E um aceno de mão.

Na frente seguem os grupos que procedem à picagem da estrada, na tentativa de prevenir as minas anti-carro . Avanço lento, cauteloso.

Manuel António decidiu que faria os 28 quilómetros a pé. " Saber .para prever a fim de prover", tinha lido algures. Seguia atrás da ultima Berliet , ele e mais alguns.

A estrada longa e seca onde de quando em quando largas crateras, de minas antigas, retardava o avanço já lento das viaturas.

O sol ardente e húmido atraia milhões de mosquitos sequiosos de suor e sangue. Pó e pensamentos desavindos. Chegar !

De um lado e outro a floresta silenciosa , onde a voz dos macacos anunciava a passagem dos homens "famintos", escondia perigos anunciados.

Durante as quatro horas já decorridas, os pensamentos em turbilhão, impediam a lucidez da razão. Alguém dizia para que subissem. A coluna tinha chegado ao ponto de encontro com os do outro lado. A partir de agora o caminho era seguro.

Os homens subiram para as camionetas. Rostos desfigurados pelo cansaço. A casa é já ali.

Para Manuel António, o seguro morreu de velho. Temia os fornilhos comandados à distância. Uma forte dor de cabeça e os olhos cobertos pelo suor e pó. Lama. pensamento único: chegar! Mais uma hora, talvez menos. Chegar!

Cambaleante, Manuel António segue atrás da última berliet . É já o único. A água esgotou no cantil. Segue a viatura como um cão. Chegar!!

A coluna entra no quartel de chegada e os homens vão saltando e confraternizam entre si. Laivos de lucidez. Gritos de alegria. Comer.  Beber. Dormir.

Manuel António é o último, passa a berliet que estacionou e segue em passos dolentes até à beira do rio e num desejo antigo de ser homem, mergulha a cabeça dorida na água fria. Chegar! Chegar! Chegar!

 

 

 

registed by: Samuel Dabó

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