Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

25
Jan09

BATATAS FRITAS - MEMÓRIAS DA GUERRA

samueldabo

Do regresso da cidade, a lancha aportou a um aquartelamento intermédio, porque viajar de noite não era aconselhável. Qualquer luz seria um alvo fácil, ou porque a tropa não estava disposta a horas extraordinárias.

Manuel António encontrou um amigo, um condiscipulo de escola de vila, de pescarias no juncal junto ás dunas. Há quanto tempo? Uma eternidade todo o curto tempo decorrido e ainda o fim não se pressentia, se é que havia fim ou tempo, ou apenas o verde das arvores frondosas palmeira que respiravam do alto de onde talvez se visse o mundo, o outro mundo de onde viera e deixara uma parte importante da alma.

Partiriam de manhã ás 6. Passou o dia em volta do rio, as crianças brincavam com canas, pequenos pedaços de madeira que serviam de barcos, corriam sem sentido em volta de si, em volta dum tempo que tardava. As barrigas inchadas sobressaindo do corpo esquelético. Os olhos de um escuro de abismos recônditos. As carapinhas sem brilho, cobertas de poeira, de terra amarela .

Comeu ostras, bebeu vinho, conversou até tarde e adormeceu na cama que lhe destinaram.

Acordou já o dia ia alto, o coração palpitante, tivera pesadelos, mortes, a sua própria morte e a aflição para sair da morte,  o debater do corpo, ou não, seria a alma, porque ele via o corpo envolto na mortalha, um pano imenso, branco,  manchas de sangue e vultos que se guerreavam na disputa do corpo dele e algo, uma força que se colava ao corpo, que se pressentia nele e de repente um dos vultos desvia-se da alma e corre para o corpo, para o cortar, o dividir...foi quando acordou, se mexeu, se procurou ainda imerso na névoa do sono e viu que  era dia de sol nascido, correu à porta e já não viu a lancha da Marinha que o levaria a casa, à sua casa de ali, de estar longe.

O coração bateu com mais força, suou, temeu-se de ser castigado, dado como desertor, julgado em conselho de guerra, condenado.

Lembrava-se dum camarada que abateu um jagudi. Os jagudis eram abutres preservados como reserva animal natural e preciosa. Eram uma aves de porte altivo, insensível, que espreitavam na copa das árvores uma oportunidade de corpo apodrecido. Evitavam a decomposição dos corpos  a céu aberto. As cabeças enormes, depenadas, os bicos curvos, poderosos. Os olhos sobressaídos, sanguinários. Constituíam uma visão tétrica do ambiente. Dera-lhe um tiro, um só tiro e a ave enorme abateu-se no solo.

Foi condenado a um mês de prisão e aumento do tempo de permanência. Vi o choro dele, convulsivo, quando recolhia à cela.

Manuel António, fez um gesto largo com os braços e apresentou-se ao capitão, que adormecera, se esqueceu de pedir a alguém que o acordasse, a quem?

O Capitão mandou informação para o outro quartel e ficou resolvido que iria na próxima lancha, mas só havia outra dentro de seis dias. Sem castigos...

Os dias passados sem nada para fazer, ás voltas em volta do quartel , as brincadeiras dos miúdos sempre iguais, monótonas, apenas os ritmos do pilão o distraíam um pouco. O batuque e a cantoria. O amigo convidava-o para comer ostras. os dias iam compridos dilaceravam-lhe a saudade. Alexandra. Podia apenas mandar-lhe os aerogramas, cartas oficiais oferecidas, mas curtas para o tanto que queria escrever. Estava doente com paludismo. Febre, enjoos, alucinações..

 

"Meu amor, minha vida.

Fiquei retido neste aquartelamento porque adormeci. O meu cérebro, a minha alma, não param de me recriminar por este deslize. Estar lá, no local onde estão as minhas coisas, as nossas coisa, e os amigos que são uma família que já não dispenso. As tuas fotos estão lá, não vou receber as tuas cartas de uma semana inteira, eu escrevo-te daqui e vais sabendo noticias, eu lerei todas juntas quando regressar.

Apanhei paludismo. Isto é irritante e deixa-me carente de mimos, estares aqui e poder mexer nas tuas maminhas, cheirar tudo de ti, meu amor. tenho o cheiro do teu sexo nas minhas narinas, não suporto isto sem o teu cheiro. És toda e tudo na minha vida e eu amo-te e quero viver para ti, para o momento sublime do nosso reencontro...

Esteve três dias na cama, febre e vómitos, enjoos ao cheiro da comida, nem a sopa, apenas rodelas de ananás em calda e água. Água para tomar os comprimidos de quinino. A imagem de Alexandra, tão linda de dentro dele em delírio, o cabelo curto, negro o rosto redondo e os olhos grandes, belos e tão brilhantes de amor. O corpo dela , corpo miúdo, airoso, o andar dela. Tudo nela o encantava, mas o cheiro, o aroma do sexo excitado pelas carícias dos seus dedos.

A lancha partia no dia seguinte, ás seis da manhã. Pediu a vários, aos sentinelas que seriam rendidos a essa hora, que o acordassem.

A lancha de cor cinzenta tinha uma tripulação de seis homens, com o comandante. Uma metralhadora pesada de balas  tracejantes. Tudo era cinzento, um cinza azulado. Chegariam a meio da tarde.

Manuel António estava mais magro, os três dias sem comer praticamente nada, por fim até enjoara as rodelas de ananás em calda, apenas a água. Sentia fome, uma fome sem sustentação e foi comendo da ração de combate que lhe haviam distribuído.

Era ele e outro, da tropa geral, tropa macaca, encostados à proa chata da lancha. Em frente os marinheiros sob uma espécie de coberta  a prepararem o almoço.

Manuel António, os olhos fixos nos preparos, no tipo de comida, o fogão com uma frigideira onde colocaram batatas a fritar.

Á medida que iam fritando as batatas exalavam um aroma conhecido há muito refundido na memória. Batatas fritas!...

Os marinheiros olhavam na direcção deles, os dois da macaca que mastigavam o sem sabor da ração de concentrados. Os olhos fixos na distância que os separava 6 a 7 metros, talvez, olhos que não se liam. O cheiro a batatas fritas intenso.

_Talvez eles nos ofereçam de comer, somos só dois...

_Talvez...disse Manuel António.

Os outros foram comendo o delicioso repasto. A lancha navegava pelo meio do rio por entre a luxuriosa vegetação de ambas as margens. Ás vezes soltavam gargalhadas. O sol a pique queimava. Os olhos amorteciam a ilusão de comer algo que não comiam há muitos meses. Batatas fritas...mas não comeram

 

 

16
Set08

MORREU O FERNANDO DO CALDEIRADAS

samueldabo

Era um homem bem humorado. Cozinheiro exímio, que tinha a paixão de cantar o fado.

Cultivava o dom da simpatia. Morreu durante o sono para que o corpo não sofresse. Boa alma.

Relembro conversas sobre adversidades da vida. A alegria de viver. A fama efémera ao participar num programa televisivo. Relembro a figura pitoresca do cozinheiro aprumado, de branco e com o barrete da classe extrapolado da sua figura baixa e cheia . As gargalhadas e a postura preocupada em alguns momentos menos felizes.

Relembro as festas que organizou com os Karaoke em plena rua, ou passeio público.

E relembro, sobretudo, o espaço do restaurante, O Caldeiradas, que ele comprou e restaurou e que servira de posto da G.N.R.

E relembro, sobretudo, porque foi neste espaço, onde hoje funciona a cozinha, que se situavam as celas de prisão, onde eu fui preso com 10 anos apenas, porque, com outro amigo, atirei pedras ás lâmpadas dos candeeiros públicos. Não sei se parti alguma, ou se foi o outro, mas atirei e foram-me buscar a casa.

A minha mãe não estava, levaram-me e deixaram recado para que fosse ao posto resgatar-me.

Na cela escura chorei como se estivesse possesso e deram-me uma bofetada para que me calasse. Tinha medo do escuro. E isso, nesse tempo, era motivo de chacota.

Morreu um homem bom e de bem de um momento para outro, entre a noite e o dia e isso faz-me sempre reflectir que não somos donos de nada, nem de nós. Inexoravelmente, o fim acontece, como se estivesse programado, por mais que nos esquivemos.

Ser dono do Caldeiradas ou ser dono de nada. Ser o homem mais rico do mundo ou nada.

Ser o mais possessivo ou o mais liberal. Ser o mais feliz hoje ou o mais pessimista. Ser o mais avaro ou o mais odiado dos mortais. Só o amor engrandece, só o amor torna possivel a felicidade de ser pessoa.

Gostei de te conhecer Fernando

06
Ago08

POESIA ERRADIA II

samueldabo

 

 

 

 

                        

 

  a um filho morto  

 

Ontem a comoção foi da espessura dum susto

duma árvore correndo

vertiginosamente para dentro do desastre

 

E já não choramos. Passamos

sem que o mais acurado apelo

nos decida

 

Nas camisas

teu monograma desanlaça-se.

Tua mão vê-o nos céus nocturnos

sabe que há uma ígnea

chave algures

 

Minha tristeza não tem expressão visível

como quando a chuva cessa

sobre a dádiva fugaz do nosso sangue

que hoje embebe a terra

 

É tal a ordem em nós

que um odor a bafio sai de nossas bocas

e uma teia de aranha interrompe o olhar

que te envolveu

 

 

 

 

de Sebastião alba


 

25
Jul08

CÃO DE NÓS

samueldabo

Enterrei o Médor, o velho cão que foi um de nós, sob a copa frondosa do Pinheiro manso em frente das últimas casas da Vila, na pequena mata que a semi circunda.

Atravessei as ruas com ele à costas, pesado. Numa das mãos a pá com que revolveria a terra, cavando o buraco suficientemente fundo para que os outros animais não lhe descobrissem o corpo.

A Vila tem pouca gente, já. Foram partindo aos poucos da inacção ao desenvolvimento. Da pobreza dos espíritos, cadáveres adiados que assomam ás portas a ver-me passar, o saco negro às costa. Médor, o cão de nós. E eles, velhos. Quem os levará? Quando?

E enquanto caminho relembro,

Médor, arrancado ás tetas da mãe, sugando o biberão que lhe arranjámos com carinho, os ganidos de bebé, como um bebé, a aconchegar-se onde sentia o quente, os olhos vivos. Cheirando-nos, absorvendo-nos para não mais esquecer. Para ser um de nós, para sempre.

Quando cresceu, atrevido, ladrava e dava ao rabo quando sentia que fizera algo que não devia, como roer sapatos, escavar sofás, ou rasgar uma qualquer peça de roupa esquecida ao seu alcance

.As idas ao médico. Curioso, como gostava do médico. Zangava-se era comigo que o segurava enquanto o outro lhe espetava a agulha.

Pesa que nem chumbo, digo para comigo, e ainda falta um tanto de caminho. Saúdo os mortos à porta das casas, que me olham . Não sei se me vêm, mas olham-me. Assustados.

As correrias loucas na areia da praia, os buracos que abrias e cheiravas e escavavas mais, até desapareceres  sobre o monte de areia.

-Médor!... chamava-te e vinhas louco, em zig zags alucinantes e quase me derrubavas.

Estou a lembrar-me da tua primeira queca. A cadela com o cio tinha um namorado cioso. Mas tu eras destemido, era a tua primeira vez e o cheiro alucinou-te, correste para ela, montaste-a e introduziste de imediato o teu membro erecto, sem preparação. O outro cão furioso, não fora eu a afugentá-lo com um pau, tinha-te desfeito.

Fizeste o teu papel de macho. Nem sei se tiveste o teu orgasmo. Nem sei se os cães têm orgasmos. Porque a cadela assustada com o alarido do namorado forçou a descolagem, e fugiu espavorida. Tu ganias desalmadamente. Pudera, ia-te arrancando o sexo. As entranhas.

Já vejo as árvores que se perfilam ao longo da estrada. São Pinheiros e Eucaliptos, algum  mato rasteiro, pequenas plantas amarelas, azedas, que chupávamos em crianças, descuidados, travessos.

A tua queca saiu-nos cara. Atingiu-te a próstata, médico, medicamentos. O teu sofrimento, os teus olhos doces clamando protecção. A minha mão sobre a tua cabeça .

Comias desalmadamente e vinhas ainda reclamar do meu prato quando te agradava. Ganias. Adoravas raia cosida.

Meu cão de nós. Médor.

Depositei o saco negro na areia junto ao Pinheiro e, com a pá, fui retirando areia, depois terra, raízes, alargando o espaço, a medir-te, morto, a ver os teus olhos vivos como se rissem ,da alegria de me ver chegar. A cova. Olho o volume que se evidencia  dentro do saco.

Eras um cão bom. Lambias os gatos da casa quando eles se enroscavam no teu corpo à procura de quente. Quando se levantavam e te arranhavam, ganias e ainda levavas uma patada assanhada. Doce cão. Médor.

Pego no saco e coloco-o na cova, mas reparo que fica pouco espaço até à superfície. E cavo um pouco mais.

Entravas pelo mar quando nadávamos e vinhas até nós, contente e lambias as nossas caras. Nadavas a nosso lado para terra, como se competíssemos.

Os nossos passeios. E de como fazias as necessidades sempre de encontro a uma árvore. E de como dormias aos pés da cama e te incomodavas sempre que eu estendia os meus pés e te tocava.

Volto a colocar o saco. Sim, agora está perfeito. É suficiente. E volto a reencher a cova colocando terra sobre o teu corpo. Estás morto. E vives ainda, infinitamente em nós, até ao fim de nós.

05
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA - CORREIO

samueldabo

Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe,  te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.

As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.

O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.

Advinha destes condicionalismos  a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.

Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre  a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.

Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências

sem outros ouvidos.

Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.

Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se

amavam? Teria já nascido o meu filho?  Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas  passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.

Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.

Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.

- Quarenta e dois!

-Oi!  O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.

Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.

- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.

Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.

-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!

E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.

03
Jul08

MAMÃ PORQUE SOU PRETA SE TU ÉS BRANCA?

samueldabo

O pai de origem Indiana, estatura média, magro, o cabelo ondulado, negro e os olhos mistério dos longes deixados, escuros, cintilantes e sempre agitados, como se temessem o ar que circunda à volta de si, a pele escura, geneticamente negra.

É especialista em medicina molecular. Estava em Moçambique quando se deu a revolução que o levou a ter de escolher entre ficar e partir. Escolheu partir, por não acreditar nas novas classes dirigentes, por temer as convulsões inerentes à mudança, por um desejo de aventura. A Europa...

E veio e conheceu a mãe, uma mulher linda de cabelos castanhos e pele morena, olhos castanhos escuros, um sorriso encantador, o corpo de formas harmoniosas, afável.

É especialista em medicina familiar e enamorou-se deste homem belo, que conheceu num simpósio sobre: Novos Contributos da Genética Molecular para a Medicina.

Apaixonaram-se, misturaram culturas, casaram e tiveram uma menina exóticamente bela, saída deste amálgama de genes tão distantes, e tão geneticamente próximos.

A menina tinha a pele escura e uns olhos escuros desmedidos no rosto pequeno, mas belos, únicos. Cresceu e foi à escola. Era inteligente. Absorvia tudo o que ouvia, via e escutava, mas tinha um olhar triste. Sentia que não era igual aos outros meninos. Não era preta nem branca, era escura, mas de um escuro indefinido  e via nos olhos pasmados dos outros meninos uma interrogação muda, um olhar estranho sobre o seu corpo, como se fosse um bicho raro, ou tivesse uma doença exposta que a definisse como ser imprópria para brincar as mesmas brincadeiras dos outros meninos e meninas.

Um dia eles, os colegas da escola, riram-se espalhafatosamente quando chegou e chamaram-lhe um nome diferente:

-Monhé!  Preta Monhé!...

Ficou aterrada, petrificada de onde ouvira em tom jocoso, do lado de fora do outro mundo que era o deles. Baixou os olhos lindos e grandes que choravam em silêncio. Foi assim que a encontrou uma professora que passava, que repreendeu os meninos e meninas com uma voz suave, mas firme.

Na aula o tema foi as origens do tom da pele e o respeito pelas diferenças. Os meninos e meninas foram convidados, à saída, a dar um beijinho à menina e a pedirem desculpa pelo seu acto. E a menina acalmou. Acalmou, mas não esqueceu.

à noite, na sua casa, quando os pais e ela se sentaram à mesa para o jantar, a mãe já estranhara o misterioso silêncio dela, sempre tão alegre quando chegava da escola, como se entrasse num reino seguro onde se libertasse dos medos.

-Mamã, porque sou preta se tu és branca?

Os olhos grandes, muito abertos, fixando não a mãe mas o pai, um trejeito nervoso nos lábios carnudos de menina.

Olharam-se todos num silêncio de gritos assustados. Como se tivessem percebido agora, ele  e ela, o pai e a mãe, que falhara algo na comunicação deles com a menina. Mas então e o colégio, um modelo de educação e ensino em que confiaram?

-Minha querida, a cor não importa. O importante é o saber. Sermos diferentes...

-Não!, Disse a menina, não quero ouvir essa explicação. Já a ouvi hoje.  Queria apenas saber se era verdade ou se havia outra explicação. A culpa é dele!

Apontou o pai que assistia à cena com um ar apavorado e carente de amor, do amor daquela filha que amava e que esquecera na luta pelos outros.

-Não quero viver mais com ele!....

E correu para o quarto, chorando, a menina exóticamente bela de olhos grandes, escuros de mistérios de longe.

 

13
Jun08

DESAFIO

samueldabo

Desafiado por Estou_Estupefacta

Fui desafiado pela minha amiga Estupefacta a considerar em seis palavras, um conceito ou estado consumado de vida.  São-nos pedidas seis palavras para uma muito curta biografia ou conceito. Podemos até adicionar imagens. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e desafiar 5 novos blogs, avirem à valsa. E o que me apetece dizer é:

 

   Ter vivido em Absolutos do Amor

É o mais breve resumo de mim, da minha essência.

 

Os blogs desafiados, em concreto são:

 

http://juaninhalys.blogs.sapo.pt   http://chaparral.blogs.sapo.pt  Passiondance

 

                            Princess (^-^,)                                         Alzira Macedo

04
Jun08

QUANTOS SOMOS NA VERDADE?

samueldabo

Quantos somos, em nós e nos reconhecemos como um só quando enfrentamos as acções que nos vêm de fora e lhes respondemos com lascas do que somos ou inventamos ser ?

Todos os dias acordamos com a sensação de não sermos um monte de ossos provido de carne, com lianas de nervos e veias, rios de sangue e milhões de bactérias, umas nocivas e outras boas, que se encontram num limiar de si  a digladiar-se  entre si e fora de si, que nos consomem e renovam energia, num esforço quase inútil de nos fazerem aceitar a evidência mesquinha que somos tão frágeis e desprotegidos.

E a isto respondemos que temos a alma, que é um amalgama de vontade e de saber e que quanto maior o saber, maior a alma. Ou quanto maior a alma maior o saber.

A alma é então o cérebro que tudo comanda, de cima de nós e por dentro da pele e cartilagem óssea que se fecha e esconde esse centro de comando, aparentemente igual em cada corpo, mas de diferentes decisões e interpretação de conceitos, porque só aparentemente é igual na sua configuração externa.

Na sua essência, a matéria difere de ser para ser, por contaminação de outras almas ingénitas que subsistem e se transvasam de geração em geração.

Não basta dizer que sim- É preciso sentir.

Quantos somos em nós, afinal?

 

27
Mai08

A NETA

samueldabo

É linda. Direi que é bela no seu conjunto absoluto de genes. Porque além de linda tem um sorriso genuíno e expressivo do que é na sua essência de si. E a voz soa musicada de dentro em silabas concretas e afirmativas do seu querer.

Ter visto a eco onde aparece disforme, quase monstro, e adivinhar, sentir, a transcendência do que virá, porque a sentimos no bater apressado do coração. E senti mo-nos nós lá, na totalidade de nós porque já não temos outra utilidade.

Estamos no limite de ela ser, porque somos a última referência tendo sido a primeira, dela no pleno da vida que lhe surge em emoções de alegria.

Ainda não há a dor. É apenas um ser indefeso de per si, que se sabe e sente defensável. É um ser a apreender tudo que ouve sente, vê e mexe. E vê-la revolver o que interioriza, reflectir já em si as impressões que lhe chegam que absorve com ligeireza, a interrogar-se quando interroga, e a transmitir de si a imagem da inteligência evolutiva.

Primeiro as letras, uma a uma, os números a que foi juntando afirmações. O dó, ré, mi em  entoação musical que te arrancava sorrisos, o tá tá  té té ti ti...O b  a   ba e por diante até ao hoje que contróis as palavras já em pré-conceitos do ser que cresce no teu corpo mimado de menina..

Lembro o esbracejar dos braços como se quisesses voar e as mãos batendo no tampo da mesa a chamar a atenção para a evidência de ti. As tentativas de gatinhar, mas movendo na direcção da retaguarda, as mãos a empurrar o corpo e não os joelhos e os teus gestos pela frustração de  não seguires o rumo que te indicávamos, ou seria porque era a ti que competia traçar o rumo e não a nós tão sábios a aprender-te de nós.

E naquele dia em que nos reencontrámos, na praia, e ensaiaste os primeiros passos e nós pensámos que o fizeras pela emoção da nossa visita e batemos palmas, todos e tu, exultante da alegria de seres capaz.

Minha querida menina, meu amor, meu milésimo de gene, de mim. O afã de te preparar para o mundo que vais ter que enfrentar. Tornar-te poderosa na tua essência para que o corpo, o invólucro que te acoberta a alma não te traia nas emoções do caminho

Agora já andas, corres e fazes tropelias. Mas tens a dimensão da humanidade que vais ser e preocupas-te comigo, com o que eu não sei de ti.

Queres mandar nas brincadeiras  e experimentar de tudo o que vês aos grandes. Tens pressa de ser grande, como eu tive e não sabia como sei que ser grande não é ser maior

se não se souber o que se é.

Meu amor de menina, quero que saibas que és a segunda mulher da minha vida, e ainda és só uma menina.

Espero por ti. Sempre

 

25
Mai08

AMOR ABSOLUTO

samueldabo

Estar encurralado entre as quatro paredes e o tecto obscuro do sotão da casa. Estou só no meu silêncio de mim. Por vezes vejo os fantasmas especados nas paredes sujas de branco, porque deveriam ser negras, as paredes do sotão.

Em baixo, no outro pleno da casa, a mulher mexe e remexe no que resta na tentativa de lhe dar uma harmonia impossivel, na lembrança dos tempos que ainda a habitam

Também ela está só na sua solidão de si. E ainda somos como um só na solidão de nós ambos.

Fora, na quietude do tempo, a sugadora de cereais mata o doce muralhar das águas  que, vindas de Espanha, aqui se espraiam, comprimindo-se contra o mar, adocicando-o.

Estar na penumbra do homem, sem saída consistente E sentir que tudo o que posso é remediar, nada de definitivo, de absoluto.

-"Vamos tentar o absoluto. Viver o absoluto.

Diziamos entre nós, tu e eu, no pleno daqueles anos que nos arrebataram. E foi assim que, apaixonados de nós e por nós, deixámos que o sistema nos envolvesse na sua teia pretensamente irreversível e nos fosse quebrando.

Quebrando sem partir. Cacos que fomos consolidando numa ânsia de nos termos, encurralados mas livres e possuídos de nós.

Ganhámos na essência da vida, porque ninguém amou como nós amámos e sobreviveu.

Tristão e Isolda...Romeu e Julieta...Pedro e Inês....Nós, em absoluto de amor.

E veio a guerra. A sério. Com tiros e rebentamentos de minas, com crianças mortas e mães destroçadas. E macacos desesperados em gritos aflitos. Mas isso foi antes de nos fundirmos como um só. Ainda nos prometiamos na ilusão do amor e da cabana. Virgens de nós em absoluto.

Amámo-nos num desvario de loucura arrebatadora. Amámo-nos para além de nós, porque já era algo que nos ultrapassava em sentir.

O teu sorriso, o teu olhar refulgindo de esperança.

Meu amor absoluto.

Agora, no momento em que te penso e sentindo que te mexes em baixo de mim de onde eu estou e te sinto, compreendo que posso amar o infinito de ti.

Porque eu e tu somos um só, em nós.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D