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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

13
Abr09

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - SEXO E PERCEVEJOS

samueldabo

Dolorosa era a noite no silêncio da caserna repleta de cheiros e de mosquitos, acordara sob um pesadelo em que se via a ser comido por bichos e insectos em euforia de carne fresca, suculenta. Sentiu mesmo o deslizar de patas sobre o corpo e instintivamente defendeu-se com palmadas ás cegas, por onde os sentia. No escuro levou a mão ao nariz e deu um salto da cama, cheirava a morte...

Acendeu um isqueiro e viu as patas em movimentos loucos no lençol de pano cru, eram percevejos. Que merda!!!...

Despertou, já não havia sono que o deitasse na tarimba infesta. Pensou em Alexandra e embrenhou-se no sono dela, à procura de ser sonho, de algum modo estar nela, ser ela.

Foi ás latrinas em frente da caserna, o cheiro a creolina já não o incomodava tanto e ao pensar em Alexandra, nos aromas que trazia na memória, aromas do sexo, da pele macia, da boca fresca e quente,  ia-se masturbando deleitosamente, como se fora ela a sua mão fechada sobre o sexo dele.  Manuel António...os movimentos da mão, as contracções do corpo, a mente contraída num desejo de voar, que contornasse a mentira que era estar ali.

O aperto final, o jacto de esperma se soltava enérgico, como se fora um seu filho que ele abortava de uma forma inglória,  numa cópula sem fêmea, sem troca de afectos, para ele só na sua solidão por um momento.

Permaneceu na latrina mais alguns minutos, o corpo dormente mas liberto de novas energias, o esperma nas mãos, elástico, cheiroso de si, podia ser um seu filho....

Voltou para a entrada da caserna, havia alguns que ressonavam, outros falavam alto, ou murmúrios das almas despertas, algures alguém se masturbava, sentia pelo arfar entrecortado da emoção do desejo.

Acedeu um cigarro e sentou-se no patamar da entrada. À noite havia uma aragem mais fresca ainda que densa e tensa. A Magia da noite e em África, onde tudo era mistério, desde os olhos luzidios e doces das crianças. Apenas o motor do gerador, agora gritante, numa evidência de estar ali, de ser um estorvo ao livre desenrolar dos seus pensamentos.

O Francês, chamavam-lhe assim porque estava emigrado em França, viera voluntariamente para não ser considerado desertor, também ele incomodado pelos percevejos, ensonado, discreto, aprendera em França que esta guerra era suja, uma mentira da história.

Ambos a percorrer memórias recentes e mais antigas de antes deles, de outras guerras, a imaginar em que condições viviam os combatentes, as grandes caminhadas, a alimentação frugal, alistados à força como eles próprios, seduzidos pelo saque numa eventual vitória, condenados à morte quando perdiam...abandonados se feridos com gravidade.

Que merda, esta e qualquer outra guerra.

De manhã, logo após o toque de alvorada, o sol nascente ainda morno, mavioso de cor e luz sobre os telhados de colmo da tabanca, a mata luxuriante em fundo, tirou o colchão e colocou-o ao sol encostado à parede da camarata. Afinal, era uma infestação total, os colchões regados com creolina, uma limpeza mais acentuada na caserna.

Faltava uma semana para ir à cidade tratar dos dentes. Voltar a ver um pouco do mundo de onde viera...

 

04
Abr09

POEMA INDÓMITO!...

samueldabo

vislumbro o teu corpo no cume da montanha sublime

os teus lábios unidos não sorriem choram nostalgias

regurgito da memória os momentos vividos e afligi-me

de ver tanta beleza desvanecer-se em amargas agonias

 

De onde te olho e vejo nítida de alma adejante sobre ti

enquadrada na alvura das nuvens que cobrem o azul celeste

uma nesga de sol  que rompe a densidade e te sorri

te banha de luz  te ilumina aquece da temperatura agreste

 

Grito o teu nome deixando que ecoe  da voz o som pungente

é grande a distância entre o cume e a base onde me encontro

amar-te-ei sempre disse-te e tu olhaste-me vaga indulgente

incrédula do meu sentir o futuro  já frio em ti  e eu um monstro

 

jrg

 

25
Mar09

SE FOSSE EU O TEU ELEITO!...

samueldabo

porque choras meu amor
se fosse eu o teu eleito
entrariamos ambos em teu peito
para que não tivesses dor

a tua mágoa seria a minha
teus olhos doces sem medo
humidos de alegria um segredo
a alma exuberante que ia e vinha

chorar não não te deixaria
levava-te a ver o mar ouvir o vento
os teus lábios a lingua morderia
na ânsia de te unir a mim por um momento

momento longo na tua infinitude
e tão profundo como o mar imenso
estrelas adensam a tua virtude
o teu aroma chega-me intenso

acredita confia não te deixo chorar
se for eu o teu eleito meu tesouro
fundir-me-ei em ti como o puro ouro
e não me cansarei pleno de te amar

cessou de ti o choro voltou a alegria
teus olhos azuis cascatas de luz
o teu ser airoso que sendo seduz
tua sensualidade diáfana fantasia

 

 

autor: j.r.g.

15
Out08

SONHOS NO OCASO DA VIDA

samueldabo

A imagem dela sedutora, os olhos intensos de um brilho estranho que raiava o limiar da felicidade. Olhos castanhos, profundos, o cabelo solto ao vento de uma noite livre de outras sombras. Noite clara, como se fora dia.

Podia ouvir um sussurro, voz, ou arfar ,ou respiração afogueada por tremores do corpo em êxtase, ou pelo silêncio que induzia magias assombrosas.

O rosto belo. Como era linda!...a blusa branca descaindo sobre o ombro, deixando um ou outro a descoberto, a pele morena, canela adocicada com o açúcar do sorriso.

Sobressaindo do decote sóbrio da blusa, as maminhas, harmoniosas, dois botões de rosas cor de carne enamorada.

Levantou-se de onde me olhava, troçando de mim ,abismado pela imagem que não fazia ali, mas longe, num longe impossível, porque de fora de mim,da minha alma ainda a suturar-se das quimeras antigas.

E veio voando, ondulando no éter em movimentos lentos, os braços abrindo espaço no vácuo da memória e quando perto de mim, aspiro o teu perfume exótico e as minhas mãos procuram tocar-te, afastas-te um pouco, por sobre mim que te olho de espanto.

Reparo, só agora, que não tens pernas, nem ancas, és um semi corpo sobressaindo de um êxtase invisível na noite clara. A parte mais apurada da tua totalidade.

O teu sorrio sempre me impressionou e hoje,mais do que qualquer outra vez. É como se quisesses dizer-me: vês, estou aqui, mais pura, confiante de mim, não me fizeste nem fazes qualquer falta. Simplesmente não exististes em mim...nunca...foi tudo um devaneio.

Voltaste a aproximar-te do meu rosto e as minhas mãos, os meus braços, todo o meu corpo num impulso. Estou pesado. Não levito. Exausto de angústia. O teu perfume, os teus olhos, o teu sorriso...A sobranceria  da tua alma que me olha de cima de ti, do teu corpo semi corpo, onde a blusa branca sobressai na transparência do tecido. E digo não!, rouco, envolto em bruma, mas, não!  É mentira! Fomo-nos num simultâneo da alma. Não sabes nada da alma!

De repente, a luz reforça o seu fulgor, cega-me por um momento e quando volto a ver a imagem de ti , já não é um corpo, como o conheço. mas um interior de corpo ainda sem alma, onde tudo se mexe numa azáfama Titânica. O coração bate normalmente, as vísceras, acondicionadas no espaço que lhes compete, num aglomerado de milhões de minúsculos pontos que se interligam, as veias como turbinas que conduzem o sangue depurado, vermelho vivo. Posso ver os alimentos que comeste serem triturados pelo teu estômago. Espera, um ponto negro que se agita de um lado para o outro,como uma bola que alguém do interior de ti atirasse ás paredes finas do teu estômago, fixo-me bem, surpreendido.  E vejo que engoliste um caroço de azeitona que a máquina se prepara para expelir para outro departamento visceral. Detenho-me no coração e nas batidas compassadas, como se não tivesse existido nada entre nós, como se fosse apenas fumo sem substância, e julgo ver algo que lhe retém o pulsar constante, o acalma e impede que parta desordenado. É uma substância indecifrável que se aglomera em volta dele como uma fortaleza. Tomaste um calmante... Não te consigo chegar. Estás longe. Longe!...

E subo ao cérebro a achar de ti um outro sintoma , um vislumbre que seja do teu pensar, estou mesmo quase a chegar. Impressiona-me o cérebro, o que lá dentro cogita, tece, enreda e se transforma em acção. A mioleira. O córtex dos sonhos...

Ouço um estalido como se um interruptor se movesse a toque de alguém e desvio os meus olhos por milésimos de segundo. O que é o tempo? O que és tu no tempo? E eu?...

Acordo suado e pleno de angústia, os olhos em volta e nada que me diga se foi verdade , a minha verdade ou a tua, mas verdade, inteira ainda que possessa do absurdo de ser verdade. Se foi apenas invenção minha, ou tua, ou de alguém pérfido que nos juntou, que nos acalentou o desejo de sermos um só, em alma e corpo, numa simbiose absoluta do ser. Nada...

Apenas uma sensação esquisita de frescura, como se o desvanecimento do sonho repusesse um novo andamento a esta sinfonia imensa que construo, do abismo de mim.

16
Set08

MORREU O FERNANDO DO CALDEIRADAS

samueldabo

Era um homem bem humorado. Cozinheiro exímio, que tinha a paixão de cantar o fado.

Cultivava o dom da simpatia. Morreu durante o sono para que o corpo não sofresse. Boa alma.

Relembro conversas sobre adversidades da vida. A alegria de viver. A fama efémera ao participar num programa televisivo. Relembro a figura pitoresca do cozinheiro aprumado, de branco e com o barrete da classe extrapolado da sua figura baixa e cheia . As gargalhadas e a postura preocupada em alguns momentos menos felizes.

Relembro as festas que organizou com os Karaoke em plena rua, ou passeio público.

E relembro, sobretudo, o espaço do restaurante, O Caldeiradas, que ele comprou e restaurou e que servira de posto da G.N.R.

E relembro, sobretudo, porque foi neste espaço, onde hoje funciona a cozinha, que se situavam as celas de prisão, onde eu fui preso com 10 anos apenas, porque, com outro amigo, atirei pedras ás lâmpadas dos candeeiros públicos. Não sei se parti alguma, ou se foi o outro, mas atirei e foram-me buscar a casa.

A minha mãe não estava, levaram-me e deixaram recado para que fosse ao posto resgatar-me.

Na cela escura chorei como se estivesse possesso e deram-me uma bofetada para que me calasse. Tinha medo do escuro. E isso, nesse tempo, era motivo de chacota.

Morreu um homem bom e de bem de um momento para outro, entre a noite e o dia e isso faz-me sempre reflectir que não somos donos de nada, nem de nós. Inexoravelmente, o fim acontece, como se estivesse programado, por mais que nos esquivemos.

Ser dono do Caldeiradas ou ser dono de nada. Ser o homem mais rico do mundo ou nada.

Ser o mais possessivo ou o mais liberal. Ser o mais feliz hoje ou o mais pessimista. Ser o mais avaro ou o mais odiado dos mortais. Só o amor engrandece, só o amor torna possivel a felicidade de ser pessoa.

Gostei de te conhecer Fernando

06
Ago08

POESIA ERRADIA II

samueldabo

 

 

 

 

                        

 

  a um filho morto  

 

Ontem a comoção foi da espessura dum susto

duma árvore correndo

vertiginosamente para dentro do desastre

 

E já não choramos. Passamos

sem que o mais acurado apelo

nos decida

 

Nas camisas

teu monograma desanlaça-se.

Tua mão vê-o nos céus nocturnos

sabe que há uma ígnea

chave algures

 

Minha tristeza não tem expressão visível

como quando a chuva cessa

sobre a dádiva fugaz do nosso sangue

que hoje embebe a terra

 

É tal a ordem em nós

que um odor a bafio sai de nossas bocas

e uma teia de aranha interrompe o olhar

que te envolveu

 

 

 

 

de Sebastião alba


 

30
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA-GANDEMBEL

samueldabo

 

Era manhã cedo como de costume e o sol ainda se ocultava nas brumas da aurora fresca e húmida que não tardaria em transformar-se numa fornalha irritante, tanto faz que houvesse sombra. O ar rarefeito. Os mosquitos sedentos volteando à volta do pescoço, à espera das primeiras gotículas de suor.

Hoje tocara-lhe a ele, Manuel António, picar a estrada de areia amarela e poeirenta. A estrada que tomava o nome de picada, não sei ser por ter sido tantas vezes perfurada pelas varas metálicas, pontiagudas que tremiam, por vezes, nas  mãos morenas de jovens de olhar estático e cortante.

O rumo, a rota, o destino, era em frente, seguindo a estrada sangrenta. Só o comandante da coluna sabia. Os guias negros da milícia, eram informados na hora da partida. A longa fila de camiões GMC, carregados de viveres. De armas e munições. Esperança e morte. De quê? De quem? O ruído dos motores, o cheiro do gasóleo, a suor, a fumo que vinha da Tabanka. Os olhares que escondiam mistérios dos meninos negros e de negro. Os dentes brancos, cuspindo no chão à nossa passagem.

Manuel António sente o coração bater desordenado. As têmporas já latejam e doem. Os olhos febris que olham em redor e não vêm. A alma inquieta. Uma perna, os testículos, o corpo a alma, ou só um dos pés. Tudo era possivel dependendo de ser uma mina anti-pessoal ou um fornilho anti carro. No caso do fornilho nem a alma escapava. Tudo feito em merda, como o Dabó, o grande comandante milícia que dera a vida por eles, por ele.

A coluna inicia a marcha a passo lesto até alcançar o ponto limite onde a segurança é feita com o coração.

O grupo da frente são uns dez soldados de varas de aço ás costas, como se foram enxadas. Conversam entre si, à procura de descontrair os nervos à flor da pele. Não tremer. Não pensar.

A picada tem curvas e grandes árvores ladeiam-na de um e outro lado. Em cada uma das bermas seguem em fila os homens de verde salpicados de castanho. No meio os camiões e os dez condenados da linha da frente. É uma linha silenciosa e cada um remete-se à sua solidão de si, para si. A vara espeta a terra, se está rija um pé no local da picada e pica mais à frente, e o outro pé avança.. São poucos mas longos os quilómetros a vencer.

Pica, pé, pica outro pé. Pica pé, pica outro pé. pica, pé, pica outro pé. Interminável.

Manuel António está tenso e pensa em Cristina, a bela Cristina que o espera inteiro. Não deve pensar , mas pensa. Não pode pensar, mas pensa. Pé ante pé. pensa.

Cristina dissera.lhe, lábios nos lábios que ele ia voltar. Cerejas, sim, eram cerejas os sabores dos lábios dela. Vermelhas. Mas vermelho é morte. E o outro de si, mas também é vida. A morte e a vida na consciência de um acto de picagem de terra batida ou remexida. Atenção. A dureza pode ser um embuste. Se houver um fornilho estou feito. Podem colocar a mina com antecedência, regá-la com mijo, deixar que endureça.

O sol já marcha e não corre aragem. Mosquitos. Cristina. Gritar a angústia, o medo. Dizer não, saltar o muro de silêncio. Os macacos riem-se? Ou gritam espavoridos? Ele, eles,  macacos domesticados por Deus, ou em nome de Deus. Os outros também têm Deus. Um mesmo Deus senhor da Terra e dos animais. Um Deus poderoso, omnipotente e justo. Como justo? Quer uns quer outros interrogam-se, sobre a justeza de se matarem uns aos outros, de se armadilharem ignominiosamente.

A guerra, qualquer guerra é uma humilhação do homem. Ele sempre fora pacifico, mas irritava-se, por vezes. Sentia a impunidade com que se cometiam fraudes e atentados à dignidade. Considerava-se um humanista. Herdeiro do humanismo subjacente à  Revolução Francesa. Ir a Paris, um sonho de anos. A Pátria da Liberdade. Paris em chamas de amor.

Pica, passo, pica, passo, pica, passo. Suor e sangue na sola dos pés e no calcanhar. Pés chatos, joanetes. Ainda pensara que se iria livrar. Pica, pé, pica, pé, pica, pé...

Chegaram ao perímetro de segurança, exaustos, os dez da frente. Psicologicamente exaustos.

Manuel António, os olhos em volta, desolação. E para dentro de si: Cristina, meu amor, mais uma etapa, dentro, onde a solidão se povoa e se transforma em alarido, contentamento.

Chegam ás portas do "quartel". Manuel António estaca, estarrecido, cambaleia, os olhos vidrados, comoção, medo, terror, incredibilidade do que vê.

Como toupeiras, nus, apenas uns calções esfarrapados. Os corpos escuros do sol, da poeira, suor, lama. As barbas negras e os cabelos crescidos, pré-históricos, urrando selvaticamente, possessos de humanidade, assaltam os camiões. sem ordem, sem protocolo, em busca de cerveja, ainda que quente, saltitam enquanto uns outros, incrédulos assomem dos buracos cavados no chão que lhes servem de caserna, de quarto, de abrigo. Coçam-se, esbracejam. Gritam e dizem palavras inteligíveis. Trocam abraços. Um grupo, perto, de olhos parados, sem tempo, sem luz. Olhos mortos. almas agarradas a um fio de memória que se recusa morrer.

Ninguém se conhece e são como irmãos. Mais que irmãos. Amam-se e não sabem que é amor o que sentem, porque se abraçam, se beijam. Dizem que sofrem ataques diários. Abalar psicológicamente. Ouvem-nos gritar por entre o som da metralha. Vêm pela calada da noite. Chamam-lhes nomes ofensivos. Espalham ódio. Não os querm destruir fisicamente, só abalar a psique, a altivez da cor da pele. Correr com eles, os nossos soldados. Nossos. De quem?

 

 

                                                                  

 

Hino a Gandembel

Gandembel das morteiradas,
Dos abrigos de madeira
Onde nós, pobres soldados,
Imitamos a toupeira.

- Meu Alferes, uma saída!
Tudo começa a correr.
- Não é pr’aqui, é pr’ponte!,
Logo se ouve dizer.

Oh!, Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (1) e morteiradas.
Oh!, Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se ligam os rádios
Ao som de estrondos e tiros.

A comida principal
É arroz, massa e feijão.
P’ra se ir ao dabliucê (2)
É preciso protecção.

Gandembel, encantador,
És um campo de nudismo,
Onde o fogo de artifício
É feito p’lo terrorismo.

Temos por v’zinhos Balana (3),
Do outro lado o Guileje,
E ao som das canhoadas
Só a Gê-Três (4) te protege.

Bebida, diz que nem pó,
Só chocolate ou leitinho;
Patacão, diz que não há,
Acontece o mesmo ao vinho!

Recolha: José Teixeira / Revisão de texto: L.G.
____

(1) Verylights
(2) WC
(3) A famosa ponte Balana
(4) A espingarda automática G-3

14
Jul08

O DELFIM NÃO ERA UM ASSASSINO!...

samueldabo

O Delfim era um jovem. como todos os que compunham a Companhia, arrancado compulsivamente à terra, à família, aos amores. Um jovem alegre, mas intranquilo, emocionalmente frágil, questionante do porquê ele, ali, algures África.

Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas  e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...

O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.

O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa,  nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede  e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.

Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.

-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.

A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.

Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..

- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?

-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?

Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .

-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.

Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel  António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.

-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.

Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.

-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.

Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma  aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.

-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.

Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.

Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.

Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.

Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.

Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?

Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.

O básico a correr.

-É básico, o que foi?

-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.

O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:

 

                  Esta noite

        quando todos dormirem

               pego no vento

                       e fujo...

 

05
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA - CORREIO

samueldabo

Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe,  te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.

As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.

O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.

Advinha destes condicionalismos  a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.

Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre  a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.

Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências

sem outros ouvidos.

Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.

Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se

amavam? Teria já nascido o meu filho?  Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas  passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.

Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.

Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.

- Quarenta e dois!

-Oi!  O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.

Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.

- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.

Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.

-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!

E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.

13
Jun08

DESAFIO

samueldabo

Desafiado por Estou_Estupefacta

Fui desafiado pela minha amiga Estupefacta a considerar em seis palavras, um conceito ou estado consumado de vida.  São-nos pedidas seis palavras para uma muito curta biografia ou conceito. Podemos até adicionar imagens. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e desafiar 5 novos blogs, avirem à valsa. E o que me apetece dizer é:

 

   Ter vivido em Absolutos do Amor

É o mais breve resumo de mim, da minha essência.

 

Os blogs desafiados, em concreto são:

 

http://juaninhalys.blogs.sapo.pt   http://chaparral.blogs.sapo.pt  Passiondance

 

                            Princess (^-^,)                                         Alzira Macedo

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