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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

22
Set08

MOVIMENTO PIJAMINHA (PARA O IPO)

samueldabo

Do espaço Astrológico

http://espelhodevida.blogspot.com

Causas de todos

 




Movimento Pijaminha (para o IPO)

São necessários (principalmente) pijamas para as crianças que estão no
Instituto Português de Oncologia a fazer tratamentos de quimioterapia.
Após os tratamentos, os pijamas ficam muito sujos e gastam-se
rapidamente.
Esta ideia surgiu há dois anos e hoje já é apelidada de *Movimento
Pijaminha* pelo sucesso que têm tido os esforços conseguidos!
As necessidades existentes passam pela falta de pijamas, pantufas,
chinelos, meias, robes e fatos de treino.
Para todos a vida não está fácil, mas dentro das possibilidades de
cada um há sempre espaço para participar, comprando ou obtendo junto
de amigos e familiares agasalhos que já não sirvam.
No ano passado foram entregues 76 pijamas e o IPO ficou muito
satisfeito com esta dádiva.
Este ano vamos repetir a façanha, e se possível ultrapassar este número.
Se divulgarem já estão a ajudar!!!

 

             -------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

Correspondendo ao apelo veículado pela minha amiga Ana Cristina Corrêa Mendes em

http://espelhodevida.blogspot.com.

As minhas felicitações, a minha solidariedade, a minha partilha de espaço na divulgação.

Um apelo especial ao Clube Mammy onde por certo muitos pijaminhas farão a diferença

 

16
Set08

MORREU O FERNANDO DO CALDEIRADAS

samueldabo

Era um homem bem humorado. Cozinheiro exímio, que tinha a paixão de cantar o fado.

Cultivava o dom da simpatia. Morreu durante o sono para que o corpo não sofresse. Boa alma.

Relembro conversas sobre adversidades da vida. A alegria de viver. A fama efémera ao participar num programa televisivo. Relembro a figura pitoresca do cozinheiro aprumado, de branco e com o barrete da classe extrapolado da sua figura baixa e cheia . As gargalhadas e a postura preocupada em alguns momentos menos felizes.

Relembro as festas que organizou com os Karaoke em plena rua, ou passeio público.

E relembro, sobretudo, o espaço do restaurante, O Caldeiradas, que ele comprou e restaurou e que servira de posto da G.N.R.

E relembro, sobretudo, porque foi neste espaço, onde hoje funciona a cozinha, que se situavam as celas de prisão, onde eu fui preso com 10 anos apenas, porque, com outro amigo, atirei pedras ás lâmpadas dos candeeiros públicos. Não sei se parti alguma, ou se foi o outro, mas atirei e foram-me buscar a casa.

A minha mãe não estava, levaram-me e deixaram recado para que fosse ao posto resgatar-me.

Na cela escura chorei como se estivesse possesso e deram-me uma bofetada para que me calasse. Tinha medo do escuro. E isso, nesse tempo, era motivo de chacota.

Morreu um homem bom e de bem de um momento para outro, entre a noite e o dia e isso faz-me sempre reflectir que não somos donos de nada, nem de nós. Inexoravelmente, o fim acontece, como se estivesse programado, por mais que nos esquivemos.

Ser dono do Caldeiradas ou ser dono de nada. Ser o homem mais rico do mundo ou nada.

Ser o mais possessivo ou o mais liberal. Ser o mais feliz hoje ou o mais pessimista. Ser o mais avaro ou o mais odiado dos mortais. Só o amor engrandece, só o amor torna possivel a felicidade de ser pessoa.

Gostei de te conhecer Fernando

06
Set08

SER TIO AVÕ E SER AVÔ - TRÊS MOMENTOS DE MIM

samueldabo

A terceira geração de mim, começou com o Tiago, há 29 meses, e foi uma emoção, a festa  comemorativa do evento reuniu a segunda e a primeira gerações, num ambiente em que se esqueceram quezílias antigas e se progonosticaram bons ventos ao bebé que nos olhava de olhos semi  fechados, como se adivinhasse que os vultos à volta o saudavam na alegria  da criação. O Tiago desenvolveu-se em harmonia do corpo com a alma e é hoje um bonito menino, falador, traquina e na senda do saber sustentado. Ao Tiago de quem sou Tio-Avô, a minha saudação muito especial para que a vida lhe sorria e ele seja um homem do futuro.

Ao meu sobrinho Rodolfo, pai do Tiago, a quem a vida pregou rasteiras de rondar a tragédia,  a minha saudação amiga e fraterna e o desejo que consiga inverter a vontade do corpo e do submundo da mente, para benefício da alma. E estendo os meus desejos de felicidade à Carla, a mãe que tudo gera e à volta de quem tudo gira

Dois meses depois nasceu a Leonor. Não sendo uma bebé modelo, era a minha bebé, a primeira menina de mim. Esperada há anos e sempre adiada por problemas do pai e ou da mãe, ou de não ser o tempo, o seu tempo. Nasceu em berço de ouro e foi uma explosão de carinhos e dedicação absoluta para que crescesse feliz e saudável.

Foi com uma enorme felicidade que acompanhei o seu crescimento. Que lhe soletrei as primeiras letras e a via , atenta, olhando os meus lábios e calando.matreira , a interiorizar o conhecimento. Gatinhando pela casa em movimentos de aprendizagem.

Os passeios pelas ruas da cidade, o parque infantil, os primeiros passos, as primeiras palavras, tantas  vezes soletradas por mim e agora da boca dela, confiante, com clareza e prontidão. Cresceu, e tornou-se numa menina muito bonita. É de uma beleza que me dói. E desenvolve o raciocínio de uma forma precoce que chega a assustar. Esmerei-me demais, penso ás vezes, mas não fui só eu. É um encanto de menina e talvez por ser uma menina, eu fale dela com uma outra emoção. Porque me fascina o ser mulher. Amo-a, como só eu sei amar.

À  Leonor. de quem sou avó pelo lado paterno, o meu desejo que cresça em harmonia do corpo com a alma, que seja amante do belo no seu pleno absoluto e que seja uma mulher do futuro. Cantá-la-ei até ao infinito.

Ao meu filho, pai da Leonor, desejo que faça da justiça uma balança equilibrada e que persista na senda da alma para que a felicidade de momentos seja uma constante na sua vida. Para a Ana Cristina, mãe da Leonor, a alegria de ser mãe, os sacrifícios sobre o seu corpo, para ser mãe. Uma saudação muito especial. Foi, é, uma mulher maior, de grande coragem e amor.

Voltei de novo a ser bafejado pela maravilhosa história da criação no passado dia 4 deste mês. Nasceu o Isaac, um menino de uma beleza expectante, por não ser muito natural que logo no primeiro dia, quando o corpo se faz ainda à realidade do exterior agreste, que os traços do belo se manifestem e se evidenciem, como no Isaac. Longa vida ao Isaac. De quem sou tio avô.  Que tudo lhe abra o sorriso da confiança na sua alma. Que seja um homem do futuro.

A minha sobrinha Raquel é uma das mais belas mulheres que conheço, sedutora, alegre, frontal, decidida, inteligente e linda, linda, linda. Sou o tio velho dela, mas fui sempre, desde menina.. Amo-a como só eu sei amar e desejo-lhe força no corpo e ventura na alma para levar por diante a dura tarefa que a espera. Ser mãe do Isaac até ao fim.  Saúdo o pai do Isaac, o Paulo Chora, pela determinação que impulsionou à sua vida e pela dedicação à mulher que é a minha sobrinha dilecta.

Espero, muito em breve, Outubro ou Novembro, poder saudar com a alegria a vinda de um outro neto, o Pedro. Mas até lá, que os meus olhos se alegrem com estas crianças lindas que me aconteceram e que fazem de mim um ser feliz.

 

25
Ago08

A N A B E L A ( III ) DIÁLOGOS DA ALMA

samueldabo

 

Hoje o dia sabe a amoras silvestres. Tenho o cheiro impregnado nas minhas narinas e sabe-me bem aspirar esse aroma idílico, símbolo da nossa ruralidade em vias de extinção.

Vem-me à memória os vagabundos que amamos. A sensação de liberdade absoluta que lhes achámos no olhar profundo em abstração de momentos quando olhavam para lá de nós, para o infinito de nós.

Vejo o teu vulto ao longe que se aproxima. Vens bela como de costume no teu passo encantador que mal poisa os pés no chão do passeio que imagino, como se dançasses sobre nuvens. Trazes um sorriso malicioso e terno, consigo ver a simbiose dos contrários.

E dizes-me com os olhos muito abertos.

 

Tell me a desire

 autor:: Daniel Oliveira

 

 Queres desarmar-me com elogios, é? Não é assim tão fácil... :) - Eu sorrio também. Os meus olhos nos teus olhos que brilham de sentimentos nobres

Anabela.
Tão doce. E o sorriso radiante por me saberes ferido das palavras que usaste.
Achas mesmo que os elogios que te teço a achar-te, são meras loas de adulador barato?
Fazes-me descrer do que eu pensava ter de melhor em mim, o cheiro do carácter impresso nas palavras.
Queres que desista de ti?
Não. Sou mesmo louco e tenciono levar até ao fim esta paixão de te ter como amiga, de te merecer na grandeza dos propósitos.
Diz-me tu que queres que faça. Que me ajoelhe a teus pés, para que os outros que nos vêem façam de ti a ideia de déspota sem piedade?
Que corte um dedo, uma orelha, um pelo do nariz?
Diz-me, mulher de tão bela que se fez incrédula e que eu quero a todo o custo amar como amiga.
Mas tens que dizer já, se mereço a humildade de te olhar, sem que tenha de ouvir dizer sempre o mesmo mote, que te quero apenas enganar, adular, bajular e sei lá que mais...
E estás, desde já, convidada para a nova orgia das palavras e dos conceitos. Acabei de lançar o desafio aos quatro ventos. Podes desancar-me. reduzir-me a pó, pisar-me com os teus pé delicados ou mandar-me pisar para que não sujes nada de ti.
Mas permite que ame a amiga que vejo e sinto em ti.

 


Paraste a uma distância confortável para que não te deixasses seduzir do calor e ênfase das palavras.

O sorriso deu origem a uma gargalhada. Os teus cabelos livres de amarras soltando-se com o teu gesto de cabeça para trás. O teu riso cristalino. E eu Insisto.

Anabela.
Só há uma forma de desmistificar a relutância de me achares merecedor da tua amizade:
Olhos nos olhos, mesmo que à distância.
Fixaste-me de súbito, parando de rir, os olhos húmidos da alegria ou da emoção do riso, os teus lábios voluptuosamente abertos, a reter as palavras que já tinhas na linha de partida do pensamento.

Neo.

Eu falo sempre "olhos nos olhos", ainda que à distância. Se com "olhos nos olhos" quiseres dizer: com frontalidade, verdade, sentimento...Só assim concebo uma conversa.
Dorme bem. Amanhã comento o teu novo texto, hoje já não tenho energia... Dorme bem. E correste por entre áleas de begónias, palmeiras do Brasil, rosas e hortênsias. Numa nuvem de perfumes interligados

Anabela!... Gritei do fundo de mim.
Já me ia deitar. estou seco de palavras e ideias. Mas vieste e para ti, olhos nos olhos, até tivemos uma vitória histórica. E aquele golo do Tiui, o último. Viste?...

Tentei seduzir-te com o futebol. Sei que és fã. E para ti, dizia eu, voltei atrás por um momento para te saudar por teres vindo. Sei que mereces a minha amizade. Quero merecer a tua. Farei tudo para conquistar a tua. É uma questão de vida, para mim. Ter-te por, como, amiga.

 

 

 É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta.

 

J.R.G. 

 

 

  O texto ANABELA (II) encontra-se editado em http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt

O texto ANABELA (I)  encontra-se editado em http://romanesco.blogs.sapo.pt

22
Ago08

TER UM BLOG E O MSN

samueldabo

Ter um blog é um fascínio que que atormenta adolescentes, jovens e e adultos amadurecidos pelas vivências, que vêm uma oportunidade de comunicação, como se estivessem a coberto duma massa enorme de gente que tudo  lhes permite dizer, deixando-os permanecer no anonimato.

Ter um blog é poder expressar-se de dentro de si, autênticos, apaixonados pelas palavras que soltam e se comportam anarquicamente nas mais díspares direcções e entram nas mentes que as lêem e as interpretam e fazem juízos de valor, de personalidade, de imagem.

Eu, por exemplo, procuro nas palavras ver imagens de almas inquietas. Não me preocupa se os corpos são formosos, se os rostos são lindos, se são jovens ou pessoas maduras. O que procuro é a simbiose do belo. O drama e a beleza. A procura e o achado. A incerteza e a convicção. A melancolia e a alegria. Procuro amor e ausência. Procuro a totalidade, a essência do homem. E é com paixão que escrevo as palavras que edito. Umas vezes românticas, para que se extasiem, outras acutilantes, bravias, para que se reflictam, outras ainda, afrontosas dos conceitos instituídos, para que se transformem.

Não procuro amantes, não procuro partir corações. Não provoco nem alimento paixões Procuro amizades puras na orgia singela das palavras. Procuro estender a minha mão de palavras a quem em desespero de si, as palavras possam constituir uma mola de se elevarem, um indicador de mudança do seu próprio sentir a vida.

A minha imagem, sem foto, consta da montra de perfil do meu blog. É autêntica. É o que eu sou.

Algumas pessoas que me lêem, julgo, deixaram-se inebriar pelas palavras que escrevo, sem lhes desmistificar o sentido e o tempo. Se eu escrevo memórias da guerra, é porque vivi a guerra. Deixam-me comentários de ternura que eu aprecio como amizade sã. Exulto, até, de alegria, porque as sinto, às pessoas, belas no todo de si. E comento os seus textos de igual modo, fervorosamente convicto do seu valor humano, das suas qualidades de escrita.

Tive amigas que quiseram experimentar outro tipo de comunicação, por ser mais no momento que se pergunta e obtém resposta. O MSN de facto, torna a escrita mais fluida, o pensamento  mais lesto. É como se estivéssemos a falar no silêncio das palavras. Quase as podemos ouvir, respirar. E levaram-me a aderir a esse modo de comunicação.

O MSN tornou-se, sem eu querer, num desmistificador de mim e dos outros, porque lhe adicionei uma fotografia minha. Eu mesmo.

Neste momento tenho quatro amigas convidadas no MSN e não falo com nenhuma, após uma primeira intervenção rápida. E não falo porque elas se foram, perdi-as sem uma palavra E dói-me tê-las perdido. porque lhes tinha amor de amigo.

 

11
Ago08

UM ABSOLUTO DE AMOR

samueldabo

- Porque me dizes que os meus olhos são tristes se os sinto altivos? Se são altivos que eu quero que os vejas, que os vejam!

Mas são tristes, porque te leio a alma que eles me permitem alcançar, penso, no silêncio que fizemos, que construímos na areia como castelo efémero das nossas brincadeiras de criança

A minha cabeça assenta sobre as tuas pernas e as minhas mãos percorrem-nas num gesto absortivo. Estou levemente inclinado de modo a absorver todo o teu cheiro. E é um sabor intenso a cheiro intenso, que me vem do interior de ti através do teu sexo que os meus olhos observam arfante, por entre as pernas que mantens abertas.

É uma noite quente de Agosto e a praia arde da azáfama dos pescadores, em lances sobre lances, porque o'peixe é escasso.

-Mas se sou tão alegre. Não me sentes alegre, o meu sorriso permanente.  E amo-te, como podes ver tristeza nos meus olhos. Insistes e sorris.

Agitas-te e o cheiro recrudesce de intensidade. És tão bonita. Doentiamente bonita. muito bela, meu amor.

Sim o teu sorriso inquieta-me porque te acompanha desde que nasceste, ou desde o primeiro momento em que sorriste. E é estranhamente igual nas três outras gerações que te complementam. O teu sorriso que seduz quem ousa fixar-se nos teus lábios. Quando beijo os teus lábios, é um sabor a cheiros imprevistos, como quando beijo o teu sexo e sorvo de ti os fluídos libertos do prazer.

Mas os olhos, meu amor, refulgem da alegria dum momento e mergulham na tristeza da dúvida, quando de ti, vindo de dentro de ti, esbatem na incerteza do amor, de saber o que amas, a quem amas e como consubstanciar esse amor que sentes, que por vezes te sufoca de ardores imensos, na tríade de almas que te disputam.

- És louco! - dizes, e os teus olhos brilham no escuro. Há muito que decidi essa dúvida de que te falei em tempos. É a ti que eu amo. É contigo que quero viver a eternidade do que me resta. Realizar-me como mulher, a teu lado, sob o teu olhar apaixonado.

As tuas mãos alisam-me o cabelo húmido do cacimbo que cai, ou é do mar que a aragem traz a humidade que nos penetra docemente, porque é fresca, suavemente fresca.

Deitaste-te para traz e a minha boca procura de ti a fonte de tais cheiros e sabores que me inebriam e elevam-me ao ponto zero do pensar. Afasto a queca do teu sexo e beijo-te. O sabor a cheiro e o cheiro a sabor, trocados mas como um só, íntimos de mim, de nós,beijo e lambo e sorvo e tu, meu amor, irresistível, absorves de mim a seiva que se vai libertando a cada chupadela, fazes que mordes, divertes-te. Imagino que sorris, que cheiras igualmente de mim os cheiros e os sabores, que serão de teor diferente, mas que se compatibilizam em ti.

E estamos como um só ser, poderosos em nós, etéreos na paixão que nos absorve em fluidos de amor. Vens-te e eu venho-me em êxtase e num súbito movimento de amor, os nossos lábios voltam a encontrar-se e os beijos sôfregos que trocamos e em que se misturam os sabores do esperma e dos fluídos que libertámos, sabores que cheiram a amor de nós e em nós. Num absoluto de amor.

06
Ago08

POESIA ERRADIA II

samueldabo

 

 

 

 

                        

 

  a um filho morto  

 

Ontem a comoção foi da espessura dum susto

duma árvore correndo

vertiginosamente para dentro do desastre

 

E já não choramos. Passamos

sem que o mais acurado apelo

nos decida

 

Nas camisas

teu monograma desanlaça-se.

Tua mão vê-o nos céus nocturnos

sabe que há uma ígnea

chave algures

 

Minha tristeza não tem expressão visível

como quando a chuva cessa

sobre a dádiva fugaz do nosso sangue

que hoje embebe a terra

 

É tal a ordem em nós

que um odor a bafio sai de nossas bocas

e uma teia de aranha interrompe o olhar

que te envolveu

 

 

 

 

de Sebastião alba


 

30
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA-GANDEMBEL

samueldabo

 

Era manhã cedo como de costume e o sol ainda se ocultava nas brumas da aurora fresca e húmida que não tardaria em transformar-se numa fornalha irritante, tanto faz que houvesse sombra. O ar rarefeito. Os mosquitos sedentos volteando à volta do pescoço, à espera das primeiras gotículas de suor.

Hoje tocara-lhe a ele, Manuel António, picar a estrada de areia amarela e poeirenta. A estrada que tomava o nome de picada, não sei ser por ter sido tantas vezes perfurada pelas varas metálicas, pontiagudas que tremiam, por vezes, nas  mãos morenas de jovens de olhar estático e cortante.

O rumo, a rota, o destino, era em frente, seguindo a estrada sangrenta. Só o comandante da coluna sabia. Os guias negros da milícia, eram informados na hora da partida. A longa fila de camiões GMC, carregados de viveres. De armas e munições. Esperança e morte. De quê? De quem? O ruído dos motores, o cheiro do gasóleo, a suor, a fumo que vinha da Tabanka. Os olhares que escondiam mistérios dos meninos negros e de negro. Os dentes brancos, cuspindo no chão à nossa passagem.

Manuel António sente o coração bater desordenado. As têmporas já latejam e doem. Os olhos febris que olham em redor e não vêm. A alma inquieta. Uma perna, os testículos, o corpo a alma, ou só um dos pés. Tudo era possivel dependendo de ser uma mina anti-pessoal ou um fornilho anti carro. No caso do fornilho nem a alma escapava. Tudo feito em merda, como o Dabó, o grande comandante milícia que dera a vida por eles, por ele.

A coluna inicia a marcha a passo lesto até alcançar o ponto limite onde a segurança é feita com o coração.

O grupo da frente são uns dez soldados de varas de aço ás costas, como se foram enxadas. Conversam entre si, à procura de descontrair os nervos à flor da pele. Não tremer. Não pensar.

A picada tem curvas e grandes árvores ladeiam-na de um e outro lado. Em cada uma das bermas seguem em fila os homens de verde salpicados de castanho. No meio os camiões e os dez condenados da linha da frente. É uma linha silenciosa e cada um remete-se à sua solidão de si, para si. A vara espeta a terra, se está rija um pé no local da picada e pica mais à frente, e o outro pé avança.. São poucos mas longos os quilómetros a vencer.

Pica, pé, pica outro pé. Pica pé, pica outro pé. pica, pé, pica outro pé. Interminável.

Manuel António está tenso e pensa em Cristina, a bela Cristina que o espera inteiro. Não deve pensar , mas pensa. Não pode pensar, mas pensa. Pé ante pé. pensa.

Cristina dissera.lhe, lábios nos lábios que ele ia voltar. Cerejas, sim, eram cerejas os sabores dos lábios dela. Vermelhas. Mas vermelho é morte. E o outro de si, mas também é vida. A morte e a vida na consciência de um acto de picagem de terra batida ou remexida. Atenção. A dureza pode ser um embuste. Se houver um fornilho estou feito. Podem colocar a mina com antecedência, regá-la com mijo, deixar que endureça.

O sol já marcha e não corre aragem. Mosquitos. Cristina. Gritar a angústia, o medo. Dizer não, saltar o muro de silêncio. Os macacos riem-se? Ou gritam espavoridos? Ele, eles,  macacos domesticados por Deus, ou em nome de Deus. Os outros também têm Deus. Um mesmo Deus senhor da Terra e dos animais. Um Deus poderoso, omnipotente e justo. Como justo? Quer uns quer outros interrogam-se, sobre a justeza de se matarem uns aos outros, de se armadilharem ignominiosamente.

A guerra, qualquer guerra é uma humilhação do homem. Ele sempre fora pacifico, mas irritava-se, por vezes. Sentia a impunidade com que se cometiam fraudes e atentados à dignidade. Considerava-se um humanista. Herdeiro do humanismo subjacente à  Revolução Francesa. Ir a Paris, um sonho de anos. A Pátria da Liberdade. Paris em chamas de amor.

Pica, passo, pica, passo, pica, passo. Suor e sangue na sola dos pés e no calcanhar. Pés chatos, joanetes. Ainda pensara que se iria livrar. Pica, pé, pica, pé, pica, pé...

Chegaram ao perímetro de segurança, exaustos, os dez da frente. Psicologicamente exaustos.

Manuel António, os olhos em volta, desolação. E para dentro de si: Cristina, meu amor, mais uma etapa, dentro, onde a solidão se povoa e se transforma em alarido, contentamento.

Chegam ás portas do "quartel". Manuel António estaca, estarrecido, cambaleia, os olhos vidrados, comoção, medo, terror, incredibilidade do que vê.

Como toupeiras, nus, apenas uns calções esfarrapados. Os corpos escuros do sol, da poeira, suor, lama. As barbas negras e os cabelos crescidos, pré-históricos, urrando selvaticamente, possessos de humanidade, assaltam os camiões. sem ordem, sem protocolo, em busca de cerveja, ainda que quente, saltitam enquanto uns outros, incrédulos assomem dos buracos cavados no chão que lhes servem de caserna, de quarto, de abrigo. Coçam-se, esbracejam. Gritam e dizem palavras inteligíveis. Trocam abraços. Um grupo, perto, de olhos parados, sem tempo, sem luz. Olhos mortos. almas agarradas a um fio de memória que se recusa morrer.

Ninguém se conhece e são como irmãos. Mais que irmãos. Amam-se e não sabem que é amor o que sentem, porque se abraçam, se beijam. Dizem que sofrem ataques diários. Abalar psicológicamente. Ouvem-nos gritar por entre o som da metralha. Vêm pela calada da noite. Chamam-lhes nomes ofensivos. Espalham ódio. Não os querm destruir fisicamente, só abalar a psique, a altivez da cor da pele. Correr com eles, os nossos soldados. Nossos. De quem?

 

 

                                                                  

 

Hino a Gandembel

Gandembel das morteiradas,
Dos abrigos de madeira
Onde nós, pobres soldados,
Imitamos a toupeira.

- Meu Alferes, uma saída!
Tudo começa a correr.
- Não é pr’aqui, é pr’ponte!,
Logo se ouve dizer.

Oh!, Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (1) e morteiradas.
Oh!, Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se ligam os rádios
Ao som de estrondos e tiros.

A comida principal
É arroz, massa e feijão.
P’ra se ir ao dabliucê (2)
É preciso protecção.

Gandembel, encantador,
És um campo de nudismo,
Onde o fogo de artifício
É feito p’lo terrorismo.

Temos por v’zinhos Balana (3),
Do outro lado o Guileje,
E ao som das canhoadas
Só a Gê-Três (4) te protege.

Bebida, diz que nem pó,
Só chocolate ou leitinho;
Patacão, diz que não há,
Acontece o mesmo ao vinho!

Recolha: José Teixeira / Revisão de texto: L.G.
____

(1) Verylights
(2) WC
(3) A famosa ponte Balana
(4) A espingarda automática G-3

25
Jul08

CÃO DE NÓS

samueldabo

Enterrei o Médor, o velho cão que foi um de nós, sob a copa frondosa do Pinheiro manso em frente das últimas casas da Vila, na pequena mata que a semi circunda.

Atravessei as ruas com ele à costas, pesado. Numa das mãos a pá com que revolveria a terra, cavando o buraco suficientemente fundo para que os outros animais não lhe descobrissem o corpo.

A Vila tem pouca gente, já. Foram partindo aos poucos da inacção ao desenvolvimento. Da pobreza dos espíritos, cadáveres adiados que assomam ás portas a ver-me passar, o saco negro às costa. Médor, o cão de nós. E eles, velhos. Quem os levará? Quando?

E enquanto caminho relembro,

Médor, arrancado ás tetas da mãe, sugando o biberão que lhe arranjámos com carinho, os ganidos de bebé, como um bebé, a aconchegar-se onde sentia o quente, os olhos vivos. Cheirando-nos, absorvendo-nos para não mais esquecer. Para ser um de nós, para sempre.

Quando cresceu, atrevido, ladrava e dava ao rabo quando sentia que fizera algo que não devia, como roer sapatos, escavar sofás, ou rasgar uma qualquer peça de roupa esquecida ao seu alcance

.As idas ao médico. Curioso, como gostava do médico. Zangava-se era comigo que o segurava enquanto o outro lhe espetava a agulha.

Pesa que nem chumbo, digo para comigo, e ainda falta um tanto de caminho. Saúdo os mortos à porta das casas, que me olham . Não sei se me vêm, mas olham-me. Assustados.

As correrias loucas na areia da praia, os buracos que abrias e cheiravas e escavavas mais, até desapareceres  sobre o monte de areia.

-Médor!... chamava-te e vinhas louco, em zig zags alucinantes e quase me derrubavas.

Estou a lembrar-me da tua primeira queca. A cadela com o cio tinha um namorado cioso. Mas tu eras destemido, era a tua primeira vez e o cheiro alucinou-te, correste para ela, montaste-a e introduziste de imediato o teu membro erecto, sem preparação. O outro cão furioso, não fora eu a afugentá-lo com um pau, tinha-te desfeito.

Fizeste o teu papel de macho. Nem sei se tiveste o teu orgasmo. Nem sei se os cães têm orgasmos. Porque a cadela assustada com o alarido do namorado forçou a descolagem, e fugiu espavorida. Tu ganias desalmadamente. Pudera, ia-te arrancando o sexo. As entranhas.

Já vejo as árvores que se perfilam ao longo da estrada. São Pinheiros e Eucaliptos, algum  mato rasteiro, pequenas plantas amarelas, azedas, que chupávamos em crianças, descuidados, travessos.

A tua queca saiu-nos cara. Atingiu-te a próstata, médico, medicamentos. O teu sofrimento, os teus olhos doces clamando protecção. A minha mão sobre a tua cabeça .

Comias desalmadamente e vinhas ainda reclamar do meu prato quando te agradava. Ganias. Adoravas raia cosida.

Meu cão de nós. Médor.

Depositei o saco negro na areia junto ao Pinheiro e, com a pá, fui retirando areia, depois terra, raízes, alargando o espaço, a medir-te, morto, a ver os teus olhos vivos como se rissem ,da alegria de me ver chegar. A cova. Olho o volume que se evidencia  dentro do saco.

Eras um cão bom. Lambias os gatos da casa quando eles se enroscavam no teu corpo à procura de quente. Quando se levantavam e te arranhavam, ganias e ainda levavas uma patada assanhada. Doce cão. Médor.

Pego no saco e coloco-o na cova, mas reparo que fica pouco espaço até à superfície. E cavo um pouco mais.

Entravas pelo mar quando nadávamos e vinhas até nós, contente e lambias as nossas caras. Nadavas a nosso lado para terra, como se competíssemos.

Os nossos passeios. E de como fazias as necessidades sempre de encontro a uma árvore. E de como dormias aos pés da cama e te incomodavas sempre que eu estendia os meus pés e te tocava.

Volto a colocar o saco. Sim, agora está perfeito. É suficiente. E volto a reencher a cova colocando terra sobre o teu corpo. Estás morto. E vives ainda, infinitamente em nós, até ao fim de nós.

18
Jul08

É A HORA DE LIBERTARES AS PALAVRAS!

samueldabo

 

                               Para ti

É a hora de libertares as palavras

meu amor

que de angústia se tornem

 alegres viçosas

que te afirmem como a vontade

de ser diferente

e de saberes que és um sonho

que queres realizar

ainda que contra toda a gente

porque é tempo de libertares as palavras

meu amor

há tanto contidas sofridas amargas

que te desesperam

nos silêncios da razão

que te impedem de andar e de viver

a vida feliz que procuraste

e de ser livre como as aves

que batem as asas

da tua imaginação

Chegou o momento de libertares as palavras

meu amor

de reconstruíres os cacos

que se partiram de ti e jazem intactos

de criares novos alicerces

mais sólidos

de amares o amor eterno

ainda em ti latente e perene

dos sonhos que povoam

a tua mente.

 

 

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