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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

26
Mai08

PLANETA AÇORES

samueldabo

Ontem tive uma noticia que me deu um momento grande de felicidade: o blog foi adicionado no site do Planeta Açores.

E felicidade porquê, se não foi por amor de uma mulher. Se não escreveste um livro nem te nasceu uma criança?

Porque me plantaram como árvore enverdecente em mais um tom de verde entre a majestade de verdes exaltantes.

Porque amo a terra e as gentes numa simbiose do belo que lá achei, e me envolveu num conceito novo de humanidade.

Porque amo a carne das rêses  e o sabor doce do ananás que alimentam o corpo.

Porque amo o mar que é a parte maior deste Planeta único que são as nove entre tantas pequenas partículas da matéria fundida que o constituem.

Porque amo a cultura, de cultivo antigo, do ser e do haver que me alimenta o espírito.

Obrigado

 

22
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - O DESFECHO

samueldabo

No quarto, Carla deitada na cama estreita do hospital. O rosto sereno. O coração palpitante a fazer o regresso, minuto após minuto. Os olhos cerrados sobre as pálpebras. Os braços caídos sobre o lençol, as mãos abertas. Carla, meu amor.

Sentou-se na cadeira que chegou para mais perto da cama e segurou-lhe a mão a recuperar do frio, já morna.

-Carla, grande amor da minha vida. Acorda. Esqueceste? Vamos casar. E os convidados estão à nossa espera. D.Rosa Silva já fez os poemas e mandou fazer a música. Vai ser uma marcha nupcial de Heroísmo a imacular a nossa festa. D. Chica , poeta embora, e amuada por não ser dela a poesia, acedeu a fazer os confeitos . Lala, a tua amiga Lala organizou as carnes e o peixe, vai haver cracas , tchiu , para que não se saiba, é um mimo para os forasteiros. Haverá vinho das lajes do pico, e o aperitivo dos Biscoitos.

Convidámos a Ilha inteira.

 As mesas na praça Velha , e dispostas, também ,nas transversais da rua da Sé, na vereda que rodeia a baía. E longas tiras de passadeira vermelha que percorreremos enlevados na áurea celestial do nosso amor. As flores, as mais belas, de todas as cores e perfumadas de aromas únicos.

Nós a sairmos da majestosa Igreja da sé, os vivas, as flores e outros enfeites atirados sobre  a nossa felicidade. São nove, as pétalas do sonho , que se esbatem levemente no teu rosto lindo. Tão Graciosa vais, no Pico das Flores, percorrendo a via de Santa Maria, esbelta no teu vestido branco e a grinalda , A Terceira que escolheste, sobre o cabelo negro como o Corvo. Abençoados que fomos pelo Senhor Santo Cristo dos Milagres de S.Miguel , esfusiantes de alegria, mais querendo esconder-nos no Faial da tua infância. E ali em frente, do outro lado do altivo Monte Brasil, a despontar da bruma, S. Jorge, irmã quase gémea deste Olimpo que nos acolheu.

Saudámos as pessoas, uma a uma em apoteose humilde e o mar em fundo, imenso, com salpicos de luz. No ar, o estalar dos foguetes em miríades de cor e sons estonteantes.

A terminar uma garraiada de touros à corda. Foi o delírio , meu amor e aí, nós fugimos.

E depois ,meu amor, quando à porta de nossa casa, te tomar nos meus braços, abrir a porta e deixar cair suavemente o teu corpo esbelto na cama que nos irá absorver e te beijar a sós, tu e eu.

E ver-te surgir resplandecente na suavidade da cor da camisa de noite que escolheste para a nossa noite, rosa leve, doce transparência a deixar antever as formas sensuais do teu corpo, meu corpo, como um só

O teu corpo, a pele macia, seda, veludo, e os meu lábios ferventes de tanta paixão, mas contendo-se, percorrendo, poro por poro, os pés delicados as pernas tão bonitas, o sexo rosado e húmido de tanta emoção, o aroma, o teu aroma que me excita, o umbigo, os seios já recuperados da tormenta, os mamilos, pequeninos, os braços, o teu pescoço e ouvir-te arfar, pequenos ais de volúpia, os lábios ansiosos a língua , e penetrar suavemente dentro de ti, e tu em mim, numa plenitude de vontades, aprofundando-nos, em busca dum prazer único e comum, a simbiose plena do amor.

Alberto levantou a cabeça e viu os olhos de Carla luzindo como estrelas, e um sorriso de esperança nos lábios róseos e entreabertos.

-Gostei tanto que não quis interromper, meu amor.

E os lábios uniram-se num prolongado beijo de plenitude absoluta.

19
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.10

samueldabo

Voltara a chover. As viaturas de socorro puseram-se em marcha acelerada rumo ao hospital.

A policia colheu elementos do que restava do vestido de Carla. Era preciso manter o silêncio sobre o achado.

A audição de Santiago estava marcada para daí a dois dias.

Mariana chegara a Ponta Delgada, despreocupada, um tom arrogante no andar e olhando as pessoas com sobranceria. Pela sua mente, a imagem de Alberto. Fixar o rosto. Penetrar nele através dos olhos, sentir a dor pelo desaparecimento de Carla. Calcá-lo com um sorriso.

Mariana sentada na esplanada da Avenida no Centro Sol mar . A pôr ordem nas diligências . Relendo os termos da detenção. A sopesar os argumentos que pretendia infalíveis e amanhã mesmo, rebolar-se-ia com Santiago, na cama macia do hotel, a festejar mais uma vitória.

Alberto abriu os olhos e  procurou em redor, a tentar situar-se, lembrar o que acontecera, onde estava.

Olhou a cama vazia a seu lado, as paredes brancas, asseadas e um aroma a elementos desinfectantes, álcool .

Levantou-se, saiu do quarto, um agente de policia guardava a entrada.

-Estão sob protecção. Isto é, a senhora.

-E onde está?

-Levaram-na, julgo que para uma intervenção.

Alberto dirigiu-se a uma enfermeira que passava inquirindo-a sobre Carla. Ela foi informar-se e voltou com a informação que a Senhora estava em coma, ainda, que fizeram uma intervenção para resolver o traumatismo craniano .

Alberto saiu para a rua, um ar fresco matinal, o aroma das flores de mistura com o basáltico das rochas, das pedras de calçada. Passou pela policia para levantar o carro que queria entregar na rentacar .

Viu o vulto de Mariana num dos lados da rua, no passeio. Do outro lado, um homem de porte

atlético, uma barba rala, lábios finos e olhos pequenos, vivos , vigilantes. Era Santiago, pensou, tinha visto uma fotografia no jornal. Era ele. Mariana acenando-lhe para que viesse e ele a atravessar a rua por detrás de um carro que vinha descendente. A cheirar-lhe o cio.

O outro começa a atravessar a avenida e deixa cair algo que trazia na mão, abaixa-se rapidamente para apanhar o objecto. Alberto, os olhos  raiados de sangue fixos no personagem, acelera num impulso imparável, de todo irracional, para além de si próprio, como uma força superior contrária ás sua convicções de pacifista, de homem bom.

Fecha os olhos no momento do impacto, o estilhaçar do vidro da frente, e a imagem horrenda, surreal, de Santiago, a cabeça enfiada no pára-brisas em frente da sua própria cabeça. Os olhos dele, pequeninos como se tivessem dilatado. O sangue.

Mariana soltou um grito de pânico, e tapou os olhos, encolhendo-se. A multidão que se juntou, a policia.

Alberto saiu do carro combalido, teatralizando a surpresa, a casualidade do acidente. O tipo tinha parado a meio da travessia . E, para cumulo, saíra detrás dum carro que passava . Não tivera tempo de nada. Ficou sem reacção.

Olhou Mariana, que se recompusera, nos olhos. Sorrindo sem sorrir e dizendo no silêncio:

-vais ter que arranjar outro macho que te tire o cio.

Foi à policia declarar o acidente, entregou o carro na agência, a participação ao seguro. Livre.

Entrou na pastelaria e comeu uma Dona Amélia, tomou outro café, outra Dona Amélia. Já na rua, acendeu um cigarro e foi seguindo na direcção do Hospital.

 

 

Registed by: Samuel Dabó

13
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.9

samueldabo

Alberto como louco, percorrendo a Ilha, ainda na esperança de encontrar Carla com vida, em cada recanto da costa, no interior das grutas do Algar do Carvão, indiferente já, à beleza que tudo em volta exibia.

 A humidade, o sol intenso, ansiedade descontrolada, o tempo a fugir a inviabilizar o reencontro com a mulher que amava tão intensamente. Linda.

 O suor deslizava pelas faces emagrecidas. Sentia dores por todo o corpo. Dores que vinham do interior de si, da memória. Os seus passos entorpecidos pelo cansaço. O desalento a apoderar-se da razão mas a vontade, o eu ser, a comandar ainda os movimentos, a direcção.

Voltou a descer para o litoral. Algo lhe dizia, uma fixação, que era no mar que tudo podia acontecer ou ter acontecido.

Nos últimos dias, o telemóvel tocara de novo algumas vezes. Do outro lado só o silêncio, mas   pareceu-lhe ouvir o som das ondas na rebentação, um som que tão bem conhecia. O mar que tanto amava.

Alberto conduzia o carro como um autómato e mal via os outros automóveis. Fixado no lado direito da estrada. As vacas pachorrentas nos pastos, levantando a cabeça, acenando.

Mariana acabara de levantar voo, para S.Miguel , convocada por Santiago. Revia as últimas peripécias da aventura macabra em que se tinha metido. De qualquer modo não tinha nada a perder. Sorria na perspectiva de encontrar Alberto, olhar de frente , olhos nos olhos, aquele homem com quem se casara um dia. Depois, era urgente livrar-se de Santiago. Um traficante é sempre perigoso, importava-se mesmo  muito pouco pelo dinheiro envolvido.

Estes tipos das Ilhas são uns ingénuos. Pensam que têm o rei na barriga e não contam com as máfias instituídas. Os direitos arduamente instituídos.

Santiago aguardava com serenidade a chegada de Mariana, confiante que em breve sairia em liberdade. Não podiam provar nada sobre o tráfico, nem sobre o rapto. Em última instância daria os comparsas como únicos responsáveis. Apresentar-se-iam como consumidores desesperados . E quanto ao rapto, sim foram eles, queriam pedir um resgate, mas a mulher tinha fugido e não sabiam o seu paradeiro. Santiago a reconstituir os passos dos capangas. A enredar a história para que Mariana não tivesse dificuldade em transmitir as instruções aos capangas.

Alberto. Em frente o Ilhéu das Cabras. A policia marítima tinha vistoriado de perto, com os binóculos. Não viram sinais que os convencessem a subir. Era arriscado. Hoje o mar até parecia sereno, junto ao Ilhéu. A dor de cabeça. O coração arritmado . Implorando a Deus.

Parou o carro a esmo junto à freguesia de Porto Judeu. Fixou os olhos doridos no Ilhéu em frente. Aves esvoaçavam em redor, desciam ás águas, mergulhavam e voltavam a subir, Garças, Gaivotas que nidificavam por ali. O mar batendo em pedras dispersas. Alucinações acudiam ao cérebro . Imagens desconexas. O corpo esventrado de Carla. Ora uma imagem com asas, vestido branco e cânticos melodiosos. O corpo de Carla, esbelto, macio e perfumado, levitando. E viu algo que empurrado pelas ondas batia nas pedras com um ruído seco, a intervalos. Levantou-se com vigor renovado. O brilho do olhos avivado pela miragem.

Esfrega os olhos enquanto desce o declive. Não acredita. Acredita. É uma visão distorcida, mas parece um corpo apoiado numa tábua. Geme baixinho. Reclama de Deus. Sim, é um corpo. Entra pela água a tempo de evitar que uma onda mais forte atire a tábua com violência contra as pedras, ou que a afaste de vez.

Agarra a tábua, o corpo. Levanta a cabeça do corpo tombada sobre a água. É Carla, meu Deus. Grita, abraça o corpo inerte, dizendo baixinho:

-Meu amor. Meu amor. Meu amor.

O corpo está frio. Alberto não sabe nada de primeiros socorros. Deposita o corpo de Carla no chão seco e procura atabalhoadamente o telemóvel. Marca a emergência e dás a localização, com vós trémula, exaltada aos pedidos de pormenores.

O corpo de Carla na sua frente. Alberto chora convulsivamente enquanto lhe tira as roupas rotas e sujas. Golpes nos braços e pernas. O sexo, a púbis , sem fulgor, os seios, os dedos compridos a pele porosa, engelhada. fria. Veste-lhe a  roupa que trouxera. As cuecas, uma bata ou roupão, ou robe.

Os bombeiros foram os primeiros a chegar. Fizeram os exercícios aprendidos para os afogados. Tentaram reanima-la e disseram a palavra mágica, suprema felicidade.

-Está viva. Muito fraca, mas viva. É urgente levá-la para o hospital.

Alberto ouviu as palavras e tombou inanimado, vencido pela emoção e o cansaço. O carro da emergência chegou entretanto, e a policia, e alguns curiosos.

A tábua batia nas pedras e seguia a força da corrente

 

 

Registed by Samuel Dabó

11
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.8

samueldabo

Carla, arrancada de repente, com violência, sufocada pelo susto, num primeiro momento, logo ripostando com gritos e pancadas desferidas a esmo e sem um sentido definido, debatendo-se com quanta força possuía e era tão pouca, perante a força bruta da irracionalidade.

Deitaram-lhe um jacto frio de algo que não sabia o quê e quedou-se, inerte, o corpo oscilando nos solavancos do carro, desfigurada.

Acordou, sem saber onde estava, confusa, um ar fresco a entranhar-se na pele fina, a enroscar-se à procura de um agasalho, a boca seca, com um sabor acre a provocar-lhe agonias. O chão duro, basáltico, húmido e o ruído do mar batendo com fragor.

Lentamente foi recuperando a memória. Uma dor incómoda nas faces, no corpo e sobretudo nos pulsos. Sim estava atada com fios, ou nylon, ou corda. Tentou libertar-se, mas doía-lhe .

Decidiu gritar. Talvez alguém a ouvisse.

- AAAAAAAHHHHHH ..... AAAAAAAHHHHHHH .. AAAAAAAHHHHHHH ...

Uma pausa. Nada. Apenas o ruído do mar.

Tentou erguer-se. De onde estava via-se uma claridade difusa. Arrastou-se até à abertura daquele espaço exíguo . Mar e terra à vista. Em baixo a corrente forte fazia parecer que navegava num paquete enorme.

Voltou a sentar-se e tentou recuperar o sucedido.

Estava com Alberto, tão enlevados na descoberta dum grande amor, dizendo palavras ternas, aninhados um no outro, confiantes, entregues. Quis mudar para o lado do passeio e ele ,que não era próprio, que uma senhora quando acompanhada por um homem deveria ir protegida , do lado de dentro do passeio. E ela a esquivar-se, brincando e Zás .

Imaginava-o desesperado. Mas que sitio é este onde me encontro?

A luz difusa era o nascer da aurora que despontava, afastando as brumas para que o sol brilhasse. Carla voltou à abertura a avaliar o lugar. Sim era isso, estava no Ilhéu das Cabras.

Podia atirar-se à água, deixar que a corrente a arrastasse até terra, por milagre ou força oculta da natureza. Mas para isso teria de libertar-se da atadura. Como estava, seria uma morte certa.

Tentou arranjar uma saliência que servisse de fio cortante, mas só consegui ferir-se ainda mais. Os pulsos, ambos os pulsos, um ardor a arrancar-lhe gemidos.

Procurou uma posição mais ao jeito do corpo. Sentia-se fraca e desalentada. Num momento, a hipótese que iria morrer ali sem que ninguém desse por isso, assaltou-a. Desfaleceu, não sabe bem. Nem comer, nem água. O corpo dorido também por dentro, como se abrissem veios para a expurgarem do melhor que tinha. A vida. Sim amava a vida.

Quando voltou a si, o ponto luminoso tinha desaparecido. Voltou a gritar com quanta força ainda tinha. Nada.

Sentia os braços dormentes. Fome. Sede. Há quanto tempo estaria ali? Moveu-se, mudou de posição tacteando uma aresta, e outra. Tentou mais uma vez romper as amarras que se envolviam na sua carne. Insistiu, insistiu, insistiu. Fez um último esforço a ver o efeito e pronto, já está. Esfregou lentamente os braços e os pulsos. Tinha golpes com alguma profundidade, o sangue ainda vivo. Alberto, meu amor.

Levantou-se e mirou o seu corpo, sujo, nojento. Defecara, urinara enquanto amarrada, o pó, o suor. Evocou o Senhor Santo Cristo, O Divino Espírito Santo, Maria Vieira a mártir Virgem, canonizada pelo povo. a Arranjar forças, sem compreender ainda qual o objectivo de estar ali. Quem poderia querer-lhe tanto mal.

Relembrou a história duma amiga do Continente que tinha ido à praia com a irmã, em Carcavelos. E de como caíram nuns remoinhos de água que as arrastava sem que ninguém desse por nada. Lutaram contra as correntes. Lutaram. A irmã dizendo que a deixasse e se salvasse ela. Mas não, foi-lhe alimentando a esperança.

-Nada, nada que vamos conseguir.

E conseguiram. Desfalecidas e sós. Ninguém dera por nada.

Carla foi-se deixando escorregar pelas rochas do Ilhéu e mergulhou parte do corpo na água fria. Uma tábua grande, errante, aportara com a corrente. Podia sentir o fluxo da água arrastando as pernas. Tentou chegar à tábua  que batia na rocha e fugia no ímpeto da ondulação. Os olhos na tábua. A mão que se apoiava na pedra a deslizar. Num último esforço, soerguendo-se e num impulso, conseguiu agarrar a tábua. Depois, fincou os pés na rocha e impulsionou-se a tentar sair do raio de atracção do Ilhéu. Fez várias tentativas e nada. Começou a sentir frio, a roupa colada ao corpo. O Sol no pino da trajectória. Um último esforço, a conjugação com um momento de acalmia e viu-se arrastada em zigue zagues vertiginosos. A Ilha e o Ilhéu, o Sol. num rodopio enlouquecedor . Alberto, meu amor. Alberto, meu amor.

 

 

Registed by: Samuel Dabó

10
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.7

samueldabo

Alberto ficou em estado de choque. Seguia  o policia e ouvia como que vindo de muito longe, a voz que procurava dar-lhe algum conforto. Tinha presente, uma fixação, a imagem de Carla debatendo-se, a angústia nos seus olhos lindos, o terror. E ele, impotente, sem meios de a proteger como prometera e a fizera acreditar.

Pronunciava baixinho o nome de Carla. Lado a lado, o policia esbaforido pela corrida e chegados à esquadra, os telefonemas a alertar as entidades em todos os pontos, a equipa que o queria interrogar. Se vira os raptores. O pormenor do carro, matricula, cor, marca. Algum indicio que pudesse ajudar. Nada.

Deixou a identificação, o hotel onde se hospedava, e saiu como louco. Voltou à baía. Em passos rápidos, tropeçando nas saliências, foi até ao bar e voltou, subindo a rua da Sé até ao alto das covas, desceu na direcção do mar. Ergueu as mãos ao céu . Procurar, encontrar, Carla meu amor. Porquê tu,

Não dormiu e o seu aspecto não ajudava a que lhe dessem a devida atenção. Foi à esquadra ver se havia noticias. Nada. Foi à policia marítima . Nada. Alugou um carro para percorrer a Ilha, junto ao mar. Toda a Ilha.

Alberto encontra Paula, colega e grande amiga de Carla que lhe fora apresentada dias antes.

-Alberto, que tragédia! Carla era a minha melhor amiga. Estudámos juntas e leccionamos na mesma escola. Temos até um mesmo método pessoal de ensino que aprofundamos em conjunto, em que o aluno é o fim único, como pessoa. Eu bem a avisei que o tipo era um mafioso. Não sei o que ela viu nele. Como se deixou envolver.

Alberto estava em outro lugar. As palavras de Paula.  Longe, em surdina. Envoltas de sons desconcertados , mas percebeu mafioso e questionou-se: A que propósito?

-Paula, desculpa, não ouvi tudo o que disseste. Por ventura era importante, mas estou exausto e preciso de algo que me alimente a esperança. Quem é o mafioso?

-O Santiago , o tipo com quem ela casou. Felizmente que por pouco tempo. Para mim foi ele que planeou tudo.

-Paula!...Então temos de dizer isso à policia.

Pegou na mão de Paula e arrastou-a para a esquadra. Informaram os agentes das suas suspeitas para que fizessem diligências. O tipo era de Ponta Delgada.

-O tempo urge, senhor agente. Disse Alberto com exaltação.

Agora foi Paula que pegou na mão dele e o levou a tomar um café. Tentando animá-lo. Chamá-lo à vida. Que quando Carla voltar não vai gostar de o ver assim.

O pensamento de Alberto está em Santiago , que nem sequer conhece . Toca o telemóvel . Alberto olha o visor com esperança. A chamada é privada.

-Está? Alô, quem fala? Está? Está lá?

O silêncio a regurgitar a angústia em espasmos doloridos nas frontes suadas. Os olhos alucinados.

-Quem era? Perguntou Paula.

-Não sei. Não falaram.

O telemóvel volta a tocar. Alberto deixou que tocasse por um momento. Clicou para atender.

-Está lá? Sim, por favor? Está a ouvir-me? Está? Desligaram.

Pensativo, Alberto, enquanto caminhavam sem rumo definido , entraram na nave da Sé. O silêncio de recato religioso. Olhou os Santos  e a imagem de Cristo.

-Meu Deus trazei-ma de volta.

Alberto, num repente, dirigiu-se para a saída  dizendo:

-Já sei! Mariana.

Paula, estupefacta, sem perceber o que se estava a passar, acompanhando-o a custo.

-Que se passa ,Alberto? Quem é Mariana.

-Mariana é a minha ex-mulher. Há precisamente um ano que não sei nada dela. Estes telefonemas só podem ser dela. Era um hábito ardiloso dela para me provocar.

Repetia palavras sem nexo, a procurar conjugar implicações. A conexão entre os mafiosos e a justiça. Um turbilhão de hipóteses. Voltou à policia. Aditou os indícios . E partiu para procurar Carla junto à costa, nas praias, por toda a Ilha.

 

 

Registed by Samuel Dabó

 

05
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.6

samueldabo

Mariana, jovem advogada, filha única de uma família de classe média, sabia-se possessiva e com desejos inexplicáveis de posse. O que era seu. Partilhar nada. Só o que fosse possível colher quando ela própria se expandia em acessos de verdadeira loucura apaixonada.

Sabia-se bonita e cultivava a aparência , ultrapassando qualquer que fosse o obstáculo, por mais difícil .

Na barra do tribunal, não se coibia de humilhar colegas e arguidos com um sorriso arguto, por vezes sarcástica, senhora que era de influências importantes no meio judicial e da investigação.

Olhos castanhos claros, rasgados num rosto moreno, bem maquilhada, os lábios de um rosa exuberante, cabelos castanhos em revolução, caracóis , farripas ao vento.

Gostava de sessões exaltantes e prolongadas de sexo.

Alguém lhe dissera um dia que era hipersensível , ninfomaníaca ...

Tinha conhecido Alberto nas idas à livraria. A forma apaixonada como ele falava de livros e autores A presença afável, atenciosa, os olhos que a hipnotizavam . O corpo , másculo. Mas sobretudo a voz. O espírito inocente quando lhe dizia que só casava com uma mulher virgem. Quanto muito, semi -virgem. E ela rira-se divertida.

-O que é isso de semi --virgem?

Perguntara maliciosamente, na iminência de o encurralar .

E ele, Alberto, a voz trémula, quente, indiciando vergonha.

-Uma pessoa que não tenha tido relações sexuais há pelo menos doze meses, é, para mim, semi virgem. É como se fora a primeira vez. Pode até ser considerado um fetiche.

E de como ela lhe mentia, porque a entusiasmava mentir-lhe, quando ele falava na teoria do amor absoluto. Amarem-se como um só.

Mariana. A sala vazia. A passar em memória lenta, os curtos meses de casamento com Alberto, que desaparecera.  O empregado da livraria disse que ele fora para a Ilha. Qual Ilha?

Os momentos de grande excitação sexual. Não podia queixar-se. Aí ele cumprira. As discussões quase diárias e ela sem vontade de se esforçar, como ele queria, para alcançarem um traço de união, uma consubstanciação de valores comuns.

E, por fim, esse caso absurdo do irmão dele. Meteu-se na droga? Que se safe. Não era ela que iria manchar a sua reputação, por um caso perdido

Agora trocara-a por uma ilhoa , soubera ontem, e isso não lhe perdoava.

Assinara o divórcio, sem complicar, porque também ela queria sentir-se livre, desimpedida.

Conhecera Santiago, um jovem elegante, físico poderoso, másculo, a respirar sensualidade, num julgamento por tráfico de droga. Conseguira a absolvição graças aos seus argumentos dilatórios e a outros atributos.

Festejaram, no quarto do hotel onde ele se hospedara. Foi uma noite de exaustão a raiar um sadomasoquismo mutuo. Exaltante.

Ficou a saber que Santiago era de S. Miguel, divorciado e que alimentava vingar-se do que ele dizia ser uma traição pós traumática. A ex mulher andava de amores com um tal Alberto do Continente.

Mariana ficou estupefacta. Também ela, agora, com um ilhéu, para si era suficiente, como amor próprio, como vingança.

- Se nós aparecêssemos por lá, ligados, em apoteose.

Santiago olhou-a fixamente, avaliando a recepção dela. O até onde estaria disposta a ir.

-Não, eu tenho um plano que vou pôr em prática quando regressar, mas preciso de apoio jurídico , um apoio interessado, engajado.

E foi descrevendo, com minúcia, como pensava raptá-la, Carla. A ele não importava Alberto. Mas a morte de Carla, uma morte acidental que não o comprometesse, instalara-se na sua mente.

Para Mariana ficou claro que a morte de Carla afectaria profundamente Alberto. Senti-lo a sofrer. Vivo. Visitá-lo na livraria. Fixa-lo  na sua solidão. Provocá-lo.

-Está bem. Dou o meu acordo, isto é, podes contar com a minha colaboração jurídica . Também eu não quero saber dessa vaca para nada, não me aquece nem arrefece a sua morte, mas quanto ao que restar de Alberto, pago para assistir.

E Santiago a explicar o plano, de como tinham cavado uma gruta no Ilhéu das cabras, lugar ermo e frio, a poucos metros da costa, As correntes fortes. O rapto a acontecer em Angra, aproveitando o hábito que eles tinham de se passear à noite, sozinhos , distraídos, confiantes. E  transportá-la para o Ilhéu onde, sem comer e beber, nem os ossos ficarão por vestígio . Os olhos brilhantes com laivos de sangue. Um sorriso malandro nos lábios cerrados, finos, mas belo, no seu conjunto. E voltaram a envolver-se demoníacamente, sedentos de alcançar o inacessivel. Mentes perturbadas.

 

 

02
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.5

samueldabo

Ao jantar, falaram de factos passados, acidentes escolhidos em momentos de procura. O embuste das palavras, a teatralização  estudada que nos leva a sentir, a acreditar.

Alberto falou da sua relação com Mariana. Da paixão violenta. Era bom fazer sexo com ela e no fim, sentir o bem estar das coisas conseguidas. Não ter reparado em como era possessiva. Apenas fazer sexo com ela. E acorrer a todas as chamadas. Até ao dia em que, confrontados com uma situação difícil , tudo se desmoronou. Era frágil o elo de ligação. O que eu queria era o absoluto, no amor. Conciliar o ser e o haver, numa absorção total das duas mentes, como uma só. Que se digladiam , se confrontam, se violentam, por vezes, como nós em nós, mas que se amam acima de tudo, tudo mesmo. Porque se confiam e esperançam a cada momento de vida, se respiram. Não fingir. Não há seres perfeitos. Saber gostar, amar as imperfeições do outro.

Carla deixara de comer, embevecida, com a ternura das palavras. A mão pousada sobre a mão dele como que a estabelecer um elo. E não se conteve.

- E que situação foi essa? Queres falar sobre isso? Meu amor! Como eu me sinto ir, liar-me no menino triste que ainda há em ti. Como eu te amo!

Alberto estremeceu. Em milésimos de segundo permitiu-se pensar que naquelas palavras não havia teatro. O ar doce de Carla. Os olhos a espelhar lealdade.

-Mulher linda da minha vida. Vamos viver o absoluto do amor! Amo-te tanto. É tal o prazer de estar aqui e ver a tua imagem, desde há dias, a tua imagem. Deslumbrante que me esqueci de te dizer quem sou, o que faço.

Alberto levantou-se da cadeira e deu-lhe um beijo sobre os olhos, quente e húmido e voltou a sentar-se sem deixar de a fitar e ela nele, como serpente e presa cada qual, o ser e o não ser.

-Sou livreiro. O meu pai deixou-me uma loja que vende sonhos. Mariana era jurista, fria, calculista. Sei-o hoje. Eu tenho um irmão que foi arrastado pelo sórdido lado da vida. Drogas pesadas. Roubou. Foi preso. O que eu esperava de Mariana era que o defendesse em tribunal. Que usasse todos os trunfos. Que afrontasse o sistema. Que fosse um eu nela e ela em mim. E ela recusou. Não queria manchar a sua reputação. Podia entregar o caso a um colega. Foi o fim. Acabei de deitar o que quer que restasse.

Nos olhos de Carla a luz, sem lamechas. Um sorriso doce de esperança. O belo e diáfano som da sua voz.

-E salvaste-o?

-Sim, está num centro de recuperação . Há já um ano.

Pagaram, levantaram-se e seguiram enlaçados, os corpos embatendo-se a cada passada,

um último olhar à Lua e ao reflexo sobre as águas calmas da baía, beijando-se, arrulhando e sentindo-se, como um só, o pulsar apreçado do coração.

Subiam a rua da Sé envoltos no quase silêncio pelo adiantar da hora. E Alberto, ao ouvido, num sussurro.

-Não tens medo?

-Oh! Não. isto não é Lisboa. É uma cidade pacata. Nunca acontece nada. E agora tenho-te, querido, para me proteger .

A noite a refrescar e uma ténue neblina a emprestar um ar soturno aos candeeiros de luz mortiça, emblemática duma cidade quase museu.

Alberto olhou em volta, a rua deserta. Vindos da Praça velha, dois carros em andamento lento. De cima nada.

Um dos carros parou, no preciso momento em que Carla mudou de posição e se colocou do lado esquerdo de Alberto. Da janela entretanto aberta, uma mão forte arrancou a mala de mão de Carla e arrancou na direcção das Covas.

Alberto, num impulso, deus alguns passos em perseguição do carro que, um pouco à frente, deitou pela mesma janela a mala , a mesma mala.

 Apanhou-a e voltou-se, com um ar triunfante, mas?...Nada. O vulto de Carla, debatendo-se, os olhos de pânico, no interior do outro carro que seguiu a alta velocidade, o chiar dos pneus na pedra polida da rua da Sé. O ar desesperado de Alberto, sem compreender, sem aceitar, sem querer acreditar, olhando ainda em volta, no espaço interior  do recanto exterior   da loja.

Tinha visto um policia junto à Caixa, correu em desvario. O policia também tinha seguido o desenlace do rapto.  Vinha a subir na direcção de Alberto. Tirou as matriculas porque lhe tinham parecido suspeitos. Iria tratar de tudo, fechar portos de saída. Aeroporto. Que tivesse calma. é uma questão de tempo. Estamos numa ilha.

continua

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

31
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.4

samueldabo

A mão segurando o meu braço, caminhámos pelas veredas do jardim. A chuva tinha cessado desde o almoço e o Sol de tons amarelados, em declínio rumo a outros horizontes.

-Carla, sempre pensei que as pessoas sofrem por impulsos.  Não sei se aquilo que está a surgir de nós, em nós, é uma Paixão efémera, se amor profundo, se um simples desejo de sexo. Mas sei, sinto que é muito intenso, maravilhosamente intenso.

Senti a pressão da mão dela, delicada, os dedos finos, longos, as unhas acertadas e em tons claros.

-Tu não sabes e eu, que me pergunto desde pouco depois do instante em que te levei ao meu segredo de adolescente. Que força é esta que me impele a querer estar junto de ti. Que paz. Não faças nada. Não digas nada. Meu Deus!.

Sem se darem conta, tinham saído do jardim e caminhavam agora por uma das ruas transversais à rua da Sé, e que leva à baía. Alberto escutando, mais sereno. O sabor a frutos, ainda daquele beijo, fortuito , inesperado e disse, com a voz tremida, temeroso de não corresponder ao que Carla esperava.

-Se aceitares, gostava de namorar, à antiga, fruir dos teus encantos. Falarmos de projectos comuns, dissecarmos o que nos tramou anteriormente, quais os nossos ideais de parceiro, o que estamos dispostos a partilhar, a ceder.

Pararam junto a uma esplanada que havia no passeio, assente num tablado de madeira, as mesas cobertas por toalhas vermelhas, a lobrigar o azul do mar em frente, por uma nesga entre esquinas.

-Lanchamos?  A nossa primeira refeição juntos?

Carla olhou-o nos olhos, embevecida, reparou que Alberto era um homem diferente dos que conhecera até então. Um rosto moreno de olhos castanhos, o cabelo com laivos de branco a despontar, um charme. A voz quente e segura. Palavras sensatas. Falando apenas o necessário e para dizer coisas bonitas que ela gostava de ouvir. O perfume do corpo. Inteligente.

-Seria fácil, aproveitar o momento de clímax emocional e enrodilharmo-nos num qualquer local. Uma queca efémera  sem virtude e cada um seguia o seu caminho saboreando prazeres ou frustrações que o outro nunca viria a saber. Estou disposta a aceitar.

Alberto, segurou na mão dela com afecto e ,chegando o rosto ao rosto de Carla, olhos nos olhos, os lábios húmidos de um e do outro numa suave e voluptuosa troca de odores.

Alberto sentiu-se inundar da felicidade emergente daquela mulher, levantou-se, derrubou uma cadeira e rodopiou em passo de valsa , curvando-se no convite para que a sua dama o seguisse até ao mar, que era o selo ideal, para um tratado de compromisso na procura de ideais comuns.

Seguiram pela estradinha que circunda a baía, junto ao forte de S.João Baptista. E quase junto ao bar, no limite, desceram a escada, o mar sereno, padrinho, deram as mãos, os olhos verdes dela, pregados nos castanhos dele, disseram as palavras em uníssono :

-Prometo lealdade

-prometo dar-me a conhecer, não mentir.

-prometo não te abandonar nas horas difíceis .

-prometo respeitar-te

-prometo ajudar-te a construir um projecto de vida.

-prometo amar-te

-prometo ser um bom pai - uma boa mãe

Uma onda atrevida lançou salpicos de espuma, enquanto, alheios a tudo, ao pescador que perto lançava isco aos peixes, à chuva que voltara a cair, os lábios sequiosos, numa ânsia de absolutos, as línguas num alvoroço de sucções, os braços em volta e as mãos de Alberto , irrequietas que afagam docemente os seios endurecidos.

-É noite. Jantamos juntos?

E Carla, o olhar esfusiante de felicidade.

-Agora não te quero deixar mais.

continua...

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

 

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