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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

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10
Mar08

MEMÓRIAS DA GUERRA ( I ) - O PRISIONEIRO

samueldabo

O tronco nu, musculado, cabeça levantada, deambulando no exíguo espaço cercado de ripas de madeira em jeito de fortaleza, a corda grossa amarrada ao tornozelo, as mãos unidas  por atilhos impossíveis de desfiar.  O sol abrasador e nem uma sombra. O prisioneiro. Os soldados passam e dizem:

- Turra! Filho da puta !

Arranham a garganta à cata de saliva que atiram ao prisioneiro, indefeso, sem direitos. Os olhos escuros e brilhantes, assustados mas altivos. O mistério oculto nos olhos sem expressão.

Manuel António olha o homem e antevê que ele tenha uma família , um ideal pelo qual lutou, luta ainda, e recorda os gritos de dor dos supliciados pela tortura da policia secreta. O cuspo dos soldados, sendo uma humilhação, não causa dor física , nem as palavras ofensivas da honra.

Atira-lhe um gesto solidário que o outro não compreende e desvia os olhos.

Manuel António  recorda, por um momento, os sonhos pesadelos de infância, em que ele era o salvador dos aflitos, dos injustiçados e chora a sua impotência na realidade da guerra.

 

 

registed by: Samuel Dabó

10
Fev08

MEMÓRIAS DA GUERRA (B)

samueldabo

O manel era básico, e não queria. Eu básico, pá Eu sou padeiro!

Baixo e gordo. Menino feio, desdentado. Comia tudo e de tudo. Básico.

Para os restantes era um motivo de corte com a monotonia. Uma evasão ao mundo da fantasia que a figura grotesca do Manel induzia .

O calor vinha e instalava-se logo pela manhã. Um sol de cor amarela, quente e húmido.

Todos tinham acordado bem cedo, era dia de partida da região interior, para a cidade e de aí, o lar há tanto esperado.

Manuel António fora talvez dos primeiros. Arrumara tudo na véspera, o rosto da morena de olhos grandes, verdes azeitona, que o esperava, ansiosa, martelava-lhe a cabeça. Dormira pouco. Nada. Partir.

Sózinho no meio da parada, silêncio e odores das árvores de manga. O ruído surdo do motor da geradora. Gritos dos macaco cão,a despedida. Os olhos grandes e interrogadores de Calibo , a menina de 2 anos que o enfeitiçara. África.

Aos poucos, os homens vão-se chegando para a partida. Carregam-se as camionetas com os pertences. Formam fila para a distribuição do pão e café. Há uma alegria renovada nos rostos macerados pela desordem emocional dos meses no interior da guerra.

Era uma guerra diferente do que haviam imaginado enquanto cresciam. Aqui não se viam os opositores.

Lentamente, como se não houvesse pressa, a coluna põe-se em movimento pela estrada de terra batida, amarelo avermelhado. Densamente empoeirada. E já se vêem os primeiros alvores que sobressaem da escuridão, como fantasmas assustados na tentativa de impedir a partida.

Ao longo da estrada que atravessa a povoação de colmo, figuras estáticas de rostos indizíveis, túnicas brancas, rostos velhos e gastos. Olhos misteriosos. E um aceno de mão.

Na frente seguem os grupos que procedem à picagem da estrada, na tentativa de prevenir as minas anti-carro . Avanço lento, cauteloso.

Manuel António decidiu que faria os 28 quilómetros a pé. " Saber .para prever a fim de prover", tinha lido algures. Seguia atrás da ultima Berliet , ele e mais alguns.

A estrada longa e seca onde de quando em quando largas crateras, de minas antigas, retardava o avanço já lento das viaturas.

O sol ardente e húmido atraia milhões de mosquitos sequiosos de suor e sangue. Pó e pensamentos desavindos. Chegar !

De um lado e outro a floresta silenciosa , onde a voz dos macacos anunciava a passagem dos homens "famintos", escondia perigos anunciados.

Durante as quatro horas já decorridas, os pensamentos em turbilhão, impediam a lucidez da razão. Alguém dizia para que subissem. A coluna tinha chegado ao ponto de encontro com os do outro lado. A partir de agora o caminho era seguro.

Os homens subiram para as camionetas. Rostos desfigurados pelo cansaço. A casa é já ali.

Para Manuel António, o seguro morreu de velho. Temia os fornilhos comandados à distância. Uma forte dor de cabeça e os olhos cobertos pelo suor e pó. Lama. pensamento único: chegar! Mais uma hora, talvez menos. Chegar!

Cambaleante, Manuel António segue atrás da última berliet . É já o único. A água esgotou no cantil. Segue a viatura como um cão. Chegar!!

A coluna entra no quartel de chegada e os homens vão saltando e confraternizam entre si. Laivos de lucidez. Gritos de alegria. Comer.  Beber. Dormir.

Manuel António é o último, passa a berliet que estacionou e segue em passos dolentes até à beira do rio e num desejo antigo de ser homem, mergulha a cabeça dorida na água fria. Chegar! Chegar! Chegar!

 

 

 

registed by: Samuel Dabó

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