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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

13
Abr08

O ACTO DE CUSPIR

samueldabo

Cuspir, em Portugal, hoje, como ontem, é um acto de cidadania.

As pessoas cospem na sopa. Cospem nas ruas por onde passam. Cospem para o ar, mesmo avisados que o cuspo lhes pode cair em cima. Cospem da janela dos carros em andamento e atingem outros que ás vezes, até nem têm o hábito de cuspir. Cospem nos cinzeiros em recintos públicos. Cospem da janela de suas casas e atingem passantes incautos que se incomodam, barafustam, mesmo sendo, eles próprios, activos cuspidores por onde passam. Cospem com raiva.

E eu questiono-me das razões invocadas, os lenços de papel são caros e nem sempre há receptáculos, guardá-los no bolso das calças, na mala de mão, que nojo!

E atento nos ídolos da bola, futebol, por cá e por esse mundo fora, cuspindo com personalidade no relvado,  onde, por vezes, se rebolam em quedas aparatosas, envolvendo-se em cuspo com voluptuosa ansiedade. Cuspindo no adversário que lhe deu uma cotovelada . E tudo isto colocado em evidência, pelos média, duma forma seráfica, apaixonada.

Nas salas, públicas ou privadas, onde a televisão transmite o sórdido  espectáculo, adultos, jovens e crianças que absorvem as imagens e as imitam, excitados.

Os atletas cospem as frustrações e limpam os lábios à camisola. Os cidadãos cospem a inteligência e limpam os lábios ao lenço.

Cuspir é pois uma instituição social Nacional.

E eu digo,  que é tempo de cada um engolir  o seu cuspo, porque a saliva não é um bem perecível, é nosso, ajuda a hidratar , tem sabores e tem cheiros, além de germes que podem prejudicar os outros.

11
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.8

samueldabo

Carla, arrancada de repente, com violência, sufocada pelo susto, num primeiro momento, logo ripostando com gritos e pancadas desferidas a esmo e sem um sentido definido, debatendo-se com quanta força possuía e era tão pouca, perante a força bruta da irracionalidade.

Deitaram-lhe um jacto frio de algo que não sabia o quê e quedou-se, inerte, o corpo oscilando nos solavancos do carro, desfigurada.

Acordou, sem saber onde estava, confusa, um ar fresco a entranhar-se na pele fina, a enroscar-se à procura de um agasalho, a boca seca, com um sabor acre a provocar-lhe agonias. O chão duro, basáltico, húmido e o ruído do mar batendo com fragor.

Lentamente foi recuperando a memória. Uma dor incómoda nas faces, no corpo e sobretudo nos pulsos. Sim estava atada com fios, ou nylon, ou corda. Tentou libertar-se, mas doía-lhe .

Decidiu gritar. Talvez alguém a ouvisse.

- AAAAAAAHHHHHH ..... AAAAAAAHHHHHHH .. AAAAAAAHHHHHHH ...

Uma pausa. Nada. Apenas o ruído do mar.

Tentou erguer-se. De onde estava via-se uma claridade difusa. Arrastou-se até à abertura daquele espaço exíguo . Mar e terra à vista. Em baixo a corrente forte fazia parecer que navegava num paquete enorme.

Voltou a sentar-se e tentou recuperar o sucedido.

Estava com Alberto, tão enlevados na descoberta dum grande amor, dizendo palavras ternas, aninhados um no outro, confiantes, entregues. Quis mudar para o lado do passeio e ele ,que não era próprio, que uma senhora quando acompanhada por um homem deveria ir protegida , do lado de dentro do passeio. E ela a esquivar-se, brincando e Zás .

Imaginava-o desesperado. Mas que sitio é este onde me encontro?

A luz difusa era o nascer da aurora que despontava, afastando as brumas para que o sol brilhasse. Carla voltou à abertura a avaliar o lugar. Sim era isso, estava no Ilhéu das Cabras.

Podia atirar-se à água, deixar que a corrente a arrastasse até terra, por milagre ou força oculta da natureza. Mas para isso teria de libertar-se da atadura. Como estava, seria uma morte certa.

Tentou arranjar uma saliência que servisse de fio cortante, mas só consegui ferir-se ainda mais. Os pulsos, ambos os pulsos, um ardor a arrancar-lhe gemidos.

Procurou uma posição mais ao jeito do corpo. Sentia-se fraca e desalentada. Num momento, a hipótese que iria morrer ali sem que ninguém desse por isso, assaltou-a. Desfaleceu, não sabe bem. Nem comer, nem água. O corpo dorido também por dentro, como se abrissem veios para a expurgarem do melhor que tinha. A vida. Sim amava a vida.

Quando voltou a si, o ponto luminoso tinha desaparecido. Voltou a gritar com quanta força ainda tinha. Nada.

Sentia os braços dormentes. Fome. Sede. Há quanto tempo estaria ali? Moveu-se, mudou de posição tacteando uma aresta, e outra. Tentou mais uma vez romper as amarras que se envolviam na sua carne. Insistiu, insistiu, insistiu. Fez um último esforço a ver o efeito e pronto, já está. Esfregou lentamente os braços e os pulsos. Tinha golpes com alguma profundidade, o sangue ainda vivo. Alberto, meu amor.

Levantou-se e mirou o seu corpo, sujo, nojento. Defecara, urinara enquanto amarrada, o pó, o suor. Evocou o Senhor Santo Cristo, O Divino Espírito Santo, Maria Vieira a mártir Virgem, canonizada pelo povo. a Arranjar forças, sem compreender ainda qual o objectivo de estar ali. Quem poderia querer-lhe tanto mal.

Relembrou a história duma amiga do Continente que tinha ido à praia com a irmã, em Carcavelos. E de como caíram nuns remoinhos de água que as arrastava sem que ninguém desse por nada. Lutaram contra as correntes. Lutaram. A irmã dizendo que a deixasse e se salvasse ela. Mas não, foi-lhe alimentando a esperança.

-Nada, nada que vamos conseguir.

E conseguiram. Desfalecidas e sós. Ninguém dera por nada.

Carla foi-se deixando escorregar pelas rochas do Ilhéu e mergulhou parte do corpo na água fria. Uma tábua grande, errante, aportara com a corrente. Podia sentir o fluxo da água arrastando as pernas. Tentou chegar à tábua  que batia na rocha e fugia no ímpeto da ondulação. Os olhos na tábua. A mão que se apoiava na pedra a deslizar. Num último esforço, soerguendo-se e num impulso, conseguiu agarrar a tábua. Depois, fincou os pés na rocha e impulsionou-se a tentar sair do raio de atracção do Ilhéu. Fez várias tentativas e nada. Começou a sentir frio, a roupa colada ao corpo. O Sol no pino da trajectória. Um último esforço, a conjugação com um momento de acalmia e viu-se arrastada em zigue zagues vertiginosos. A Ilha e o Ilhéu, o Sol. num rodopio enlouquecedor . Alberto, meu amor. Alberto, meu amor.

 

 

Registed by: Samuel Dabó

02
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.5

samueldabo

Ao jantar, falaram de factos passados, acidentes escolhidos em momentos de procura. O embuste das palavras, a teatralização  estudada que nos leva a sentir, a acreditar.

Alberto falou da sua relação com Mariana. Da paixão violenta. Era bom fazer sexo com ela e no fim, sentir o bem estar das coisas conseguidas. Não ter reparado em como era possessiva. Apenas fazer sexo com ela. E acorrer a todas as chamadas. Até ao dia em que, confrontados com uma situação difícil , tudo se desmoronou. Era frágil o elo de ligação. O que eu queria era o absoluto, no amor. Conciliar o ser e o haver, numa absorção total das duas mentes, como uma só. Que se digladiam , se confrontam, se violentam, por vezes, como nós em nós, mas que se amam acima de tudo, tudo mesmo. Porque se confiam e esperançam a cada momento de vida, se respiram. Não fingir. Não há seres perfeitos. Saber gostar, amar as imperfeições do outro.

Carla deixara de comer, embevecida, com a ternura das palavras. A mão pousada sobre a mão dele como que a estabelecer um elo. E não se conteve.

- E que situação foi essa? Queres falar sobre isso? Meu amor! Como eu me sinto ir, liar-me no menino triste que ainda há em ti. Como eu te amo!

Alberto estremeceu. Em milésimos de segundo permitiu-se pensar que naquelas palavras não havia teatro. O ar doce de Carla. Os olhos a espelhar lealdade.

-Mulher linda da minha vida. Vamos viver o absoluto do amor! Amo-te tanto. É tal o prazer de estar aqui e ver a tua imagem, desde há dias, a tua imagem. Deslumbrante que me esqueci de te dizer quem sou, o que faço.

Alberto levantou-se da cadeira e deu-lhe um beijo sobre os olhos, quente e húmido e voltou a sentar-se sem deixar de a fitar e ela nele, como serpente e presa cada qual, o ser e o não ser.

-Sou livreiro. O meu pai deixou-me uma loja que vende sonhos. Mariana era jurista, fria, calculista. Sei-o hoje. Eu tenho um irmão que foi arrastado pelo sórdido lado da vida. Drogas pesadas. Roubou. Foi preso. O que eu esperava de Mariana era que o defendesse em tribunal. Que usasse todos os trunfos. Que afrontasse o sistema. Que fosse um eu nela e ela em mim. E ela recusou. Não queria manchar a sua reputação. Podia entregar o caso a um colega. Foi o fim. Acabei de deitar o que quer que restasse.

Nos olhos de Carla a luz, sem lamechas. Um sorriso doce de esperança. O belo e diáfano som da sua voz.

-E salvaste-o?

-Sim, está num centro de recuperação . Há já um ano.

Pagaram, levantaram-se e seguiram enlaçados, os corpos embatendo-se a cada passada,

um último olhar à Lua e ao reflexo sobre as águas calmas da baía, beijando-se, arrulhando e sentindo-se, como um só, o pulsar apreçado do coração.

Subiam a rua da Sé envoltos no quase silêncio pelo adiantar da hora. E Alberto, ao ouvido, num sussurro.

-Não tens medo?

-Oh! Não. isto não é Lisboa. É uma cidade pacata. Nunca acontece nada. E agora tenho-te, querido, para me proteger .

A noite a refrescar e uma ténue neblina a emprestar um ar soturno aos candeeiros de luz mortiça, emblemática duma cidade quase museu.

Alberto olhou em volta, a rua deserta. Vindos da Praça velha, dois carros em andamento lento. De cima nada.

Um dos carros parou, no preciso momento em que Carla mudou de posição e se colocou do lado esquerdo de Alberto. Da janela entretanto aberta, uma mão forte arrancou a mala de mão de Carla e arrancou na direcção das Covas.

Alberto, num impulso, deus alguns passos em perseguição do carro que, um pouco à frente, deitou pela mesma janela a mala , a mesma mala.

 Apanhou-a e voltou-se, com um ar triunfante, mas?...Nada. O vulto de Carla, debatendo-se, os olhos de pânico, no interior do outro carro que seguiu a alta velocidade, o chiar dos pneus na pedra polida da rua da Sé. O ar desesperado de Alberto, sem compreender, sem aceitar, sem querer acreditar, olhando ainda em volta, no espaço interior  do recanto exterior   da loja.

Tinha visto um policia junto à Caixa, correu em desvario. O policia também tinha seguido o desenlace do rapto.  Vinha a subir na direcção de Alberto. Tirou as matriculas porque lhe tinham parecido suspeitos. Iria tratar de tudo, fechar portos de saída. Aeroporto. Que tivesse calma. é uma questão de tempo. Estamos numa ilha.

continua

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

31
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.4

samueldabo

A mão segurando o meu braço, caminhámos pelas veredas do jardim. A chuva tinha cessado desde o almoço e o Sol de tons amarelados, em declínio rumo a outros horizontes.

-Carla, sempre pensei que as pessoas sofrem por impulsos.  Não sei se aquilo que está a surgir de nós, em nós, é uma Paixão efémera, se amor profundo, se um simples desejo de sexo. Mas sei, sinto que é muito intenso, maravilhosamente intenso.

Senti a pressão da mão dela, delicada, os dedos finos, longos, as unhas acertadas e em tons claros.

-Tu não sabes e eu, que me pergunto desde pouco depois do instante em que te levei ao meu segredo de adolescente. Que força é esta que me impele a querer estar junto de ti. Que paz. Não faças nada. Não digas nada. Meu Deus!.

Sem se darem conta, tinham saído do jardim e caminhavam agora por uma das ruas transversais à rua da Sé, e que leva à baía. Alberto escutando, mais sereno. O sabor a frutos, ainda daquele beijo, fortuito , inesperado e disse, com a voz tremida, temeroso de não corresponder ao que Carla esperava.

-Se aceitares, gostava de namorar, à antiga, fruir dos teus encantos. Falarmos de projectos comuns, dissecarmos o que nos tramou anteriormente, quais os nossos ideais de parceiro, o que estamos dispostos a partilhar, a ceder.

Pararam junto a uma esplanada que havia no passeio, assente num tablado de madeira, as mesas cobertas por toalhas vermelhas, a lobrigar o azul do mar em frente, por uma nesga entre esquinas.

-Lanchamos?  A nossa primeira refeição juntos?

Carla olhou-o nos olhos, embevecida, reparou que Alberto era um homem diferente dos que conhecera até então. Um rosto moreno de olhos castanhos, o cabelo com laivos de branco a despontar, um charme. A voz quente e segura. Palavras sensatas. Falando apenas o necessário e para dizer coisas bonitas que ela gostava de ouvir. O perfume do corpo. Inteligente.

-Seria fácil, aproveitar o momento de clímax emocional e enrodilharmo-nos num qualquer local. Uma queca efémera  sem virtude e cada um seguia o seu caminho saboreando prazeres ou frustrações que o outro nunca viria a saber. Estou disposta a aceitar.

Alberto, segurou na mão dela com afecto e ,chegando o rosto ao rosto de Carla, olhos nos olhos, os lábios húmidos de um e do outro numa suave e voluptuosa troca de odores.

Alberto sentiu-se inundar da felicidade emergente daquela mulher, levantou-se, derrubou uma cadeira e rodopiou em passo de valsa , curvando-se no convite para que a sua dama o seguisse até ao mar, que era o selo ideal, para um tratado de compromisso na procura de ideais comuns.

Seguiram pela estradinha que circunda a baía, junto ao forte de S.João Baptista. E quase junto ao bar, no limite, desceram a escada, o mar sereno, padrinho, deram as mãos, os olhos verdes dela, pregados nos castanhos dele, disseram as palavras em uníssono :

-Prometo lealdade

-prometo dar-me a conhecer, não mentir.

-prometo não te abandonar nas horas difíceis .

-prometo respeitar-te

-prometo ajudar-te a construir um projecto de vida.

-prometo amar-te

-prometo ser um bom pai - uma boa mãe

Uma onda atrevida lançou salpicos de espuma, enquanto, alheios a tudo, ao pescador que perto lançava isco aos peixes, à chuva que voltara a cair, os lábios sequiosos, numa ânsia de absolutos, as línguas num alvoroço de sucções, os braços em volta e as mãos de Alberto , irrequietas que afagam docemente os seios endurecidos.

-É noite. Jantamos juntos?

E Carla, o olhar esfusiante de felicidade.

-Agora não te quero deixar mais.

continua...

 

 

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30
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . cont.3

samueldabo

Sentia a humidade do ar quente a aproximar-se e o corpo dela junto ao meu em pequenas convulsões.

Era um ponto aberto entre a folhagem que  se estendia  densa e perturbante, ao longo do caminho, o cais da Silveira, a baía em baixo, as pedras de lava e o mar a perder de vista.

- Deste ponto, ás vezes, quando as noites são escuras e o céu está limpo, vê-se um ponto luminoso, longe, S.Jorge , e eu vinha, adolescente, sentir que não estava só, que ali havia mundo, gente. E era um momento de doce magia.

Uma chuva miúda, como pétalas de hortênsias fenecidas, a adocicar o enlevo de estarmos aqui, as tuas pernas um pouco mais expostas, a pele lisa, aveludada a pedir afagos. Os meus olhos.

-É uma imagem bucólica. O sonho construído através dum ponto.

-Oh! As horas! Os meus pais são intransigentes com o almoço de Domingo, tenho de ir.

Vemo-nos mais logo, no café.

Era como uma ordem sem autoridade.

Fiquei a ver o seu corpo de gazela feliz, saltitando as saliências do caminho, espalhando o momento de felicidade, a contagiar o maior número possível , para que não estivesse só.

Na Adega Lusitana, os cheiros, afrodisíacos da comida, a espevitar odores. A terrina da sopa, o queijo branco, o molho vermelho.

A imagem reflectida no caldo, o sabor a beijos que não demos, as horas , digo, minutos que não passam.

Tinhamos marcado encontro no Jardim Duque da Terceira, depois do almoço, desci a rua da Sé, sonhador, eu, sem dar conta dos vultos que subiam ou desciam, e me saudavam.

A Praça Velha animada por grupos de crianças, festa, romaria. Um relance. Viro à esquerda. 

A esplanada está cheia de juventude, ditos, ironias, gargalhadas. É Domingo.

No jardim, o perfume. Não, espera. Este é o teu. O inconfundível aroma do cio que já me colaste, como marca e que se distingue por entre os aromas de flores tão variadas como magnólias, tulipas, rosas e hortênsias, araucárias , eucaliptos. Tu. O teu cheiro.

A saia cor de rosa, a blusa branca, insinuante, os óculos em jeito de bandolete , o rosto iluminado pelos olhos verdes irisados de veios escuros, acastanhados, e o sorriso aberto, confiante.

-Olá, Alberto! Adorava ter almoçado contigo.

-E eu! Se bem que me surpreenda ver-te.

-Então?!

Notei um breve tremor nos lábios dela  e apressei-me. Pela primeira vez a sentir-me desajeitado.

-Não. não tires  ilações . É que eu pensei que tinha devorado a tua imagem reflectida na sopa, ao almoço. Estás linda. És linda.

Soltou uma gargalhada, inclinando o corpo, leve e graciosamente para trás, o brilho dos olhos, as mãos quentes, trémulas, o abraço, vulcão, vácuo, os seios arfantes e os lábios nos meus lábios, num toque suave, sussurrante, pequenos ais, de sabores, de essências.

continua

 

 

 

 registed by: Samuel Dabó

29
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - Cont.2

samueldabo

Angra sempre tinha exercido sobre mim um fascínio de sedução. A agitação dos automóveis subindo e descendo a rua da Sé, o edifício da própria Sé, esplendoroso na traça arquitectónica , na majestosa religiosidade que o envolvia. o belo jardim ao fundo, à esquerda depois de passar a livraria Adriano, Jardim Duque da Terceira, em socalcos , exótico  na variedade botânica, túlipas, camélias e magnólias de aromas, fluidos de amor e bem decorado por mãos hábeis e amantes do que fazem.

Carla tinha-me sugerido que saíssemos, respirar o ar na sua pureza,

 Acendi um cigarro, junto à porta, enquanto aguardava que saísse da casa de banho, e os meus olhos vagueavam pelas alturas verdejantes do Monte Brasil, em frente, sonhadores, enquanto pensamentos desordenados, em apoteose, provocavam um latejar intenso nas frontes, o coração palpitante, a senti-lo bater nos pulsos, a ouvi-lo  bate em batidas compassadas, acelera, ao ouvido.

Vejo o corpo de Carla que já lá vem, graciosa de andar leve, altura mediana, uns pés pequenos em sapatos de cor vermelha, salto raso, e as pernas a sobressaírem da saia de ramagens, flores da ilha, esbeltas, sobre o joelho., e a blusa de uma só cor, verde cintilante, ou são os meus olhos, entreaberta a deixar ver a forma dos seios, pequenos, firmes, palpitantes.

-Alberto, gostava de lhe mostrar um segredo meu, um local que me ficou da adolescência, aceita?

- Claro. Mas tem que me prometer.

-O quê?

O sorriso dela, a abater-se superior, em desafios de avanços e recuos, sobre o meu ser, num todo, quase absurdo, a apoderar-se, como dona efectiva já, da minha vontade.

-Que não me raptas.

-Prometo.

O diálogo ingénuo, quase infantil, e os dedos dela entre os meus lábios, em cruz, primeiro nos lábios dela, húmidos, os dedos, sabor a frutos.

-Juro!

E o cérebro: abraço, não abraço, beijo não beijo, o caos num turbilhão libidinoso de vontades, carências. Não

-Pergunto a mim próprio como uma mulher bonita, vistosa, atraente, não tem  um príncipe e não sei quantos mais pretendentes. Presumo que sejas uma mulher difícil .

Digo as palavras enquanto caminhamos, lado a lado, me agarras o braço numa saliência de terreno e encostas o seio do teu lado esquerdo, provocando-me calafrios de cálida felicidade.

-Quem te disse que não tenho um marido? Um namorado? Que não sou uma infiel, à procura de  uma aventura continental?

As palavras proferidas com uma ironia ternurenta. O cheiro a basalto, a mar, a cio numa mistura  luxuriante, a tomar-me de novo todos os sentidos.

-Tens? És?

Carla parou segurando-me a mão e colocando-se em frente, barrando o caminho, Que caminho? O olhar doce, nublado por emoções presentes e antigas, numa amalgama frenética de dor e alegria ,de se evadir, cavalgando a minha curiosidade.

-Sou divorciada. Apaixonei-me por um delegado de propaganda médica, de Ponta Delgada. Falador, loquaz, de aspecto simpático, inteligente na aparência, que prometeu amar-me eternamente.

Como eu sinto a tua dor! Uma lágrima sentida a bailar, no canto do olho.

-E então? O que falhou?

-Saiu -me um trapaceiro infame. Um amante abrutalhado, onde eu só pensava haver suavidade. Violência. E eu não sou de me ficar.

Ficaste ainda mais bela. Saiu o ódio acumulado há meses, anos, que importa, e a luz da pureza voltou a iluminar de serenidade o teu rosto mavioso

 

continua

 

 

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28
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - 1

samueldabo

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO I

 

Em Angra do Heroísmo, o Sol enrolado nas nuvens densas, como amante em relaxe após noite de intensos fervores. Envergonhado. Transpirando calor intenso no dealbar da manhã.

O movimento dos carros na rua da Sé era já intenso. Grupos de pessoas seguiam a pé, descendo do alto das covas para a missa das nove. É Domingo.

Estava sentado na mesa vermelha ,sob pano finamente decorado, passando os olhos pelo jornal do dia, o pensamento longe, a antever um amanhã recheado de emoções.

Levanto os olhos, por um raio de luz, instante fugaz, que o abrir da porta fez incidir sobre o teu rosto, ali sentada, em frente da mesa onde eu estava e não tinha dado pela tua presença luminosa.

Fizeste um gesto de surpresa, levando a mão que estava livre aos olhos incomodados, enquanto eu te fixava, agora, preso da beleza, da graciosidade do gesto, do enlevo que o ambiente da Ilha te envolvia, e sorriste ao dar  por mim, maliciosamente sorridente da tua surpresa.

Os teus olhos grandes, verdes mar, brilhantes de  encanto, o menear de ombros, como a pedir desculpa por teres interrompido a minha leitura, por estares ali e seres a causa da minha fixação.

-Bom dia. Digo que é professora.

A minha voz saiu , para surpresa minha, desimpedida, clara, sem conseguir deixar a prisão, doce prisão, daqueles olhos onde adivinhava sonhos, fluidos de mensagens, pedaços de afectos.

-Sim, sou. Tenho escrito em algum lado?

Um sorriso franco, atractivo, a alvura dos dentes com uma pequena quase ínfima , abertura entre os dois da frente, os lábios macios, húmidos do café e a tua língua a limpar resquícios do bolo, uma D. Amélia, rosada.

-Tinha um ar  Pedagógico.

Falávamos entre mesas, soltou uma gargalhada suave, franca, e os olhos reforçaram o brilho de entre o castanho do cabelo, liso, sobre os ombros, e a tez do rosto de um moreno claro, imagem sedutora e simples, sem pinturas de guerra.

-Não sabia que havia um ar pedagógico.

Uma lufada de ar consegue romper a barreira da porta quando se abre e deixa entrar um doce cheiro basáltico que se mistura com os aromas dos confeitos e da mulher que me cerca em novelos de sedução, e me atrai ao centro da ilha que ela é dentro da própria ilha, numa simbiose de convexos interesses, em que uma e outra se revezam na proeminência em que foco o meu olhar.

-Digamos que é um ar ausente. As mãos metódicas no manuseamento da chávena. A pensar em notas e avaliação de alunos, como se lhes soletrasse os nomes.

O teu riso a desfazer equívocos , transparente, cúmplice , a voz quente e terna de uma suavidade aveludada, entranhando-se em mim, ora tenso, ora descontraído, eu que fui sempre um menino triste e só e que venho aprendendo a emancipar-me dessa tristeza mórbida desde a infância.

-Sou Angrense. Os meus pais são donos de uma farmácia, Estive no Continente a estudar e consegui que me colocassem em Angra. Porque eu adoro Angra...

Sigo o movimento dos lábios, bem desenhados no rosto onde o nariz, pequeno, direito, se abre e fecha em movimentos compassados de inalação. Noto o rubor das faces.

-...não me está a ouvir. Agora deixa-me a falar para o boneco.

Agarraste-me, sabes que estou já demasiado envolvido para recuar e falas-me com um tom crescente de intimidade, como se fossemos conhecidos de sempre.

-Perdoe-me, eu sou Alberto e venho do Continente, em serviço.  E ouvi tudo: é dona da farmácia, estudou blá blá blá

Os nossos olhos encontraram-se sorridentes, pujantes de mensagens subliminares, e os lábios, os meus e os dela abrindo-se em sorrisos de nascente afeição. Empatia.

-De facto, somos o máximo, nem nos apresentámos. Se os meus alunos me vissem...Sou a Clara.

Estendi a minha mão e ao contacto com a mão dela, pequenina, indefesa, eléctrica , senti um choque repentino de grande intensidade e notei que ela teria sentido algo parecido, porque se levantou repentinamente, as nossas mãos presas por laços invisíveis, coladas, afins de não sei bem ainda o quê.

-Um beijinho.

Os lábios de um e outro nas faces, as dela rosadas, quentes, nas minhas a sensação de frescura dos lábios dela, como se os tivesse prematuramente molhado da sua seiva para me marcar.

 

continua

 

 

 

 

 registed by: Samuel Dabó

28
Mar08

A TOXICODEPENDÊNCIA NÂO È UMA FATALIDADE

samueldabo

A matemática, esse quebra cabeças dos Portugueses em geral, não é uma ciência mítica só ao alcance de alguns iluminados, mas porque é manipulada  ao sabor de interesses que ainda persistem e consideram que  "em terra de cegos quem tem olho é rei", continuamos a navegar em teorias de combate ao insucesso , condenadas a manter os níveis aceitáveis de cegueira colectiva.

Actualmente a proliferação do consumo de drogas por amplas camadas de juventude de todo o mundo, tornou-se num flagelo que nenhum governo tem conseguido estancar.

Desde sempre houve consumo de drogas, que não eram proibidas, nem atingiam os preços a que são vendidas nas ruas. Em consequência, quem sofria de stress por drogas comprava-as onde era possível ou optava pelo vinho. Era uma minoria, contestatária, talvez ,das regras de convivência que se iam alterando.

Eu penso que a partir da eclosão do Maio de 68, se espalha a ideia reivindicativa de que vale tudo. É proibido proibir tudo. Amor livre. Abaixo os poderes instituídos . A inalação de drogas pelo fumo avança em todas as direcções. As democracias tentam resistir, mas rapidamente os senhores da finança vêm ali um filão inesgotável, e são eles que financiam o estado e que o controlam. É para eles que as leis são manipuláveis, no esgrimir de interpretações por magistrados e advogados que as leis permitem.

Aqui, o consumo de drogas disparou com o advento da Democracia, não por culpa da Democracia, antes por uma coincidência de tempo, porque estamos sempre atrasados na ventura e na desgraça.

O consumo e o tráfico são proibidos e condenados com pena de prisão.

Milhares de famílias são assoladas por esta praga, Adolescente instigados ao consumo sobre os mais variados pretextos de afirmação pessoal, de desinibição. de ser mais forte. Jovens, meninas, lindas que foram, agora enrugadas, prostituídas, devassadas.

Os carteis de tráfico organizam-se. No interior   das prisões superlotadas continuam a traficar e a consumir. Nas ruas os chamados pequenos delitos. A saga da moedinha para o arrumador que surge, do nada quando já tínhamos quase arrumado o carro.

Roubam os pais, a família, os amigos. Vendem tudo o que tem comprador e há quem compre É um negócio de lucros fabulosos, onde se vende tudo até a dignidade.

O estado, nós todos, financiamos as medidas ditas profiláticas que o estado implementa de apoio financeiro às clínicas de reinserção. Aos tratamentos em ambulatório.com resultados deficitários de recuperação efectiva e duradora.

As policias investem na formação especializada no combate ao tráfico. Os criminosos detidos em resultado das investigações são postos em liberdade. Presos são os consumidores, por consumirem e por roubarem. A droga e dinheiro apreendido nas operações , desaparece

Os verdadeiros agiotas do tráfico continuam impunes. Participam, até, na discussão. Influenciam politicas. Corrompem influências. E seguem a matança intelectual e fisica do que melhor tem um povo, uma nação.

Surgiu o HIV, as hepatites B eC proliferam.

As famílias a lutar contra a insolvência absoluta. Sem ajudas de ninguém. Condenadas, até, por não terem sido capazes de evitar a desgraça.

Alguns países adoptam medidas para liberalizar. o consumo, que passa a ser disponível em farmácias e locais apropriados criados para o efeito. As noticias sobre a eficácia, .

  aumentou-reduziu.estagnou , não são distribuídas na mesma dimensão.

Por cá, e não só, os arautos tentam explicar-nos em equações algébricas e outras engenharias matemáticas, que a liberalização não é possível . Iria criar mais dependências, facilitar a transacção entre estados!?...

E nós a percebermos que dois e dois são quatro em qualquer circunstância e que somados sucessivamente, chegamos aos milhões da ganância , que matam e morrem pela ganância de viverem na abastança erguida sobre o sofrimento, a dor e a desdita de quem vê um adolescente primoroso ser arrastado impunemente nas águas sórdidas da mentira.

25
Mar08

O CHIADO, O NOIVO, AS VIOLETAS IMPERIAIS

samueldabo

No Chiado, tarde amena, fervilhando de juventude aguerrida em passo apressado. Pessoa fotografado pela décima milionésima vez, um pedinte desconexo à porta da Bertrand e tocadores de flauta de Bisel , saracoteando-se na frente de pessoas indiferentes solicitando o cachet.

Há porta da Brasileira não está Zé Gomes Ferreira, o cabelo prata luzidia, poetando , nem Fernando Namora questionando-se sobre a veracidade dos números da editora.

No lugar do pedinte, Aquilino, Ferreira de Castro , Nemésio, questionando a politica que lhes sonegava o mundo, são uma efeméride esquecida.

Cosmopolita, o Chiado perdeu a envolvência mítica da intelectualidade e o pitoresco Primaveril das vendedeiras de violetas, acossando os casais da média burguesia a caminho dos teatros, da ópera, de encontros libidicos, ou o absurdo do noivo desiludido, impecável de fraque e flor na lapela, andar marcial, decidido, O corpo alto, esguio , em crescendo, de voz audível a cem metros, a subir a rua do Carmo e vociferando palavras agressivas e epítetos obscenos contra a expectante turba que sempre parava para distrair os pecados errantes e a estulta acomodação ao marasmo instituído .

 

 

21
Mar08

AS PALAVRAS QUE SEMPRE TE DIREI

samueldabo

As palavras foram sendo armazenadas a esmo, sem critérios, do que ouvimos e nos foram dizendo, do que lemos.

As palavras tomaram significado, importância na formação da nossa personalidade, à medida que as fomos codificando, armazenando, cada uma em lotes de muitas, na prateleira apropriada, e ali ficaram à espera de serem usadas.

Fomos aprendendo, ardilosamente, a utilizá-las em cada momento e estado de alma e segundo os objectivos que nos propusemos .

Temos palavras para todos os gostos, de circunstância, de amor, de ódio. Até quando dizemos: - Não tenho palavras para.... É porque não nos convém, no momento, dizer as palavras, ou porque tememos as consequências adstringentes.

As mais usadas são o sim e o não, tendência da infância. E nem sempre as assumimos na sua plenitude. Ás vezes trocamos o sentido da nossa própria vontade de as dizer. Dizemos uma quando queríamos era dizer a outra e vice-versa.

As palavras substituíram sons e desenhos que não expressavam adequadamente as nossas emoções. São mais práticas. E podem ter  vários significados  que criamos e que nos permitem sempre recuar perante uma qualquer reacção adversa.

As palavras podem ser absurdas, inapropriadas, indecorosas, obscenas, velhacas, irritantes, doces e melodiosas. Podem ser retumbantes, tímidas , medrosas , humilhantes. Mas são, apenas, palavras.

A patologia que as transforma em arma de destruição maciça, é a mesma que  induz a que se tornem paladinas de sublimes tratados pacifistas.

As palavras são temidas e amadas. São amigas. São desertos, florestas de enganos, são amor e paixão, são derrota e vitória, são traição.

São meras palavras que inventámos, algures no tempo e cujos significados fomos alterando aqui e ali de acordo com o efeito da sua aplicação.

 

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