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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

08
Mai13

LIVRO...A insurreição das PALAVRAS... CONVITE

samueldabo
***
SÍSIFO CONDENADO
*
quando eu nasci de mim
os deuses olharam-me de soslaio
mediram o tempo na ampulheta
e decidiram por unânime frenesim
que não me tornariam lacaio
nem a ferros me prendiam à grilheta
*
segui humildemente
encosta acima como Sísifo condenado
não de lacaio mas de jumento
a carregar um fardo enxuto de semente
perdendo os créditos se cansado
se me esforçasse garantiam um aumento
*
subi por minha conta e risco
a confiar que o pacto divino era sagrado
que ao chegar ao cimo da estopada
nenhum ladrão ou deus sequer o fisco
me cortariam o casco sendo roubado
por não poder ir mais além velho e cansado
*

dei coices espinoteei
fiz queixa mas fui alvo do riso da chacota
trabalhei muito ganhei demais
o erro foi de quem me pagou fora da lei
se pobre não ganhava pr’á palhota
como fora eu capaz de ganhos tantos de tais
*
fui ver e era tão pouco
mal chegava tiradas as taxas e penhoras
mais os aumentos abrangentes
para ser por um só mês o tipo louco
de pagar rendas a horas
e comer todos os dias refeições quentes
*
decidi não saudar o ano novo
tanto se me dá que seja bom ou seja mau
tão pior que ser um pobre rico
é a pilhagem que o poder faz ao povo
que em cada mão renasça o pau
que há-de correr sem medo o mafarrico
*

autor: joão raimundo gonçalves

(poema inserido no livro: A insurreição das PALAVRAS)

21
Abr13

ELEGÂNCIA

samueldabo

*
ELEGÂNCIA
**
o corpo dava a forma
fazia do vestido negro élan de sedução
na meia negra a opacidade
o encanto do pé no meio salto fora de norma
eis a mulher d'alma e coração
segura de ser a deusa em sua humilde vaidade
*
a gola modelar punhos de renda
uns olhos verdes instantes tão de tanto sedutora
na luz que envolve de magia seu olhar
os lábios fecham segredos que não se desvenda
perna traçada fixando a estrela da aurora
que já desponta sobre a montanha rompendo o mar
*
no ar intenso solto o perfume
no silêncio expectante e misterioso
onde a luz brilha em seu fulgor
no sorriso do olhar em cujo lume
arde docemente o ser ditoso
que me escolhera para ser o seu amor
*
tocam-se os lábios de alforria
os seios maduros arfam de sensuais palpitantes
os corpos tentam novos desafios
caem roupas supérfluas na sofreguidão da fantasia
beijos profundos de grandeza amantes
na delícia das mãos que desatam emaranhados fios
*
reacendido o fogo arde sem controle
há tanto tempo o amor paixão parecia rendido
entrelaçam-se as almas dentro da memória
os lábios sugam-se sôfregos de beijos que a alma engole
tocam-se desejos no respirar gemido
suores da pele que revelam cheiros com história
*
deleitam-se lascivas as bocas
os olhos reviram para o lado de dentro da alma
em beijos indeléveis que se viciam
entumescidos os sexos aguardam à porta das tocas
fervem sentidos nada os acalma
nem as palavras roucas que o amor ciciam
*
numa tempestade de tonturas
uma mulher um homem pelas bocas unidos
cambaleiam num absoluto orgásmico
elevam-se adejando sobre as suas loucuras
extasiados ante si rejuvenescidos
pela magia dos átomos ou um toque cósmico
autor: jrg
29
Jan13

QUERO EU LÁ SABER...

samueldabo
foto tirada da net
*
QUERO EU LÁ SABER...
***
desde há décadas
praticamos a indiferença
convictos d'autosuficiência
sedentários sendo nómadas
perdido sem a confiança
da ego consciência
*
se um vizinho padece de solidão
se a injustiça bate à porta dum bom amigo
se a morte desampara a criança
se alguém passa por nós e nos pede um pão
se me arrepio de frio sem abrigo
se me catam cada tempo na luz d'esperança
*
marginalizados
reformados pensionistas
e outros estratos
selectivamente amordaçados
somos egoístas
perdidos da razão cordatos
*
somos amorfos colectivamente
pueris povo astuto mas sem personalidade
apanhados nus e em flagrante
não será boa gente aquela que se não sente
no ar purificado da liberdade
no amor livre a paixão ardente do amante
*
quero eu lá saber
de um povo que se amedronte
do sul até ao norte
por um punhado de ladrões lhe bater
se gostam eu fico a monte
sou infiel ao medo até à minha morte
*
impotente para travar o roubo
irei à terra  e ao fundo do mar serei pastor
olhos nos olhos com a tirania
a vida é minha não cedi nem cedo o probo
da minha integridade e do amor
porque quero viver o meu fim com alegria
*
incitarei crianças
a se rebelarem contra o tirano
fundamentalistas
de cabelo rapado ou de tranças
fiéis ao amor humano
que deflagrará em actos terroristas
*
resisto à imobilidade dum povo
que arrasta o estigma da sua sofreguidão
a raça é a mesma não me iludo
bárbaros entre si e outros  o que reprovo
queria-os salvadores da nação
que lutassem de alma aberta e contudo
*
vejo a tirania a rir
sobre o sufoco dos mais puros
palavras bonitas a adejar
levo-as é o tempo certo de partir
saltarei os muros
com a coragem vencida de voltar
jrg
31
Dez12

A POESIA RESPONDE: PRESENTE !!!

samueldabo

imagem pública tirada da net

**

A POESIA RESPONDE:
PRESENTE !!!

***

a poesia
veste-se nas cores de sépia
transpira
troca a mera fantasia
que arrepia
dança a valsa quando toca o vira
*
a poesia
veste-se de adúltera
passa a perna
utiliza subtilmente a cortesia
rebola e espera
pela amizade fraterna
*
a poesia
veste-se de esperança
grita liberdade
exalta a visão da miopia
na mão duma criança
que pede um pão à caridade
*
a poesia 
veste-se na forma de combate
arma-se d'espinhos 
explode na investida faz razia
carrega amor toca a rebate
recua avança esconde os ninhos
*
a poesia
veste-se de fome e amargura
atira palavras recheadas
agasalhos coragem licor de malvasia
arrasa a razão pura
salva crianças das enchurradas
*
a poesia
veste-se de pele tão feminina
apara o futuro esperançada
contra-ataca a medíocre epidemia
resiste à estricnina
espalha humanidade afiançada
*
a poesia
veste-se da luz do amor
regressa esbaforida
ganhou a guerra salvou a primazia
do homem livre sem temor
ninguém mais se atreverá a matá-la em vida
jrg

21
Out12

VAGABUNDOS !

samueldabo

foto do autor
**
VAGABUNDOS
*
na praça há um corrupio
de gente miúda
grupos que discutem bola
à sombra do sol
ocultado por nuvens
crianças cães
e brisas que arrastam
as palavras
sob a palmeira o vagabundo
olha ao redor
a ver se alguém lhe chega
uma moeda 
ou um olhar cheio de vida
eu já não tenho 
o meu nada é o tudo
vou-me a eles
abro um hiato no tempo
uma moeda vá
sou eu que peço dez
cinco o que houver
e todos dão de boca aberta
a palma enche
o sol rasga sorrisos
enlouqueceu
pensam que virei político
duas mãos cheias 
de moedas e uma nota
ei! Zé toma
quero lá saber que o bebas
dum só trago
se é o que te resta de viver
a tua alegria é vinho
a água a luz a esteira rija
que não tens
no vinho tragas o poder
aqueces a alma
divertes-te na imaginação
não tens nada
não precisas de nada
estás-te cagando
para a troika para o governo
para a dívida
o roubo e a mentira
se houver vinho
rompes o dia a noite sem tempo
se não houver arfas
nas correntes de ar de andarilho
os teus olhos luzem
ao ver a mão cheia de moedas
metes no bolso e alas
que deus te pague dizes irónico
 abalas a balançar o corpo
ao ritmo do sino da igreja
que deus não me pagará
autor: jrg
11
Out12

DIZER POESIA - JOÃO RAIMUNDO GONÇALVES...por ISABEL BRANCO

samueldabo

 


*
E SE DE REPENTE

ME FECHASSE PARA BALANÇO?


***

de repente

enquanto à volta os meus passos
movimentam
tudo o que em mim é movimento
acho-me a pensar
que não tenho mais nada a dizer
depois do que disse
de tanto dito que li em meu redor
já só me falta não ser
na imensidão do mar eu abismo
sem sol nem luar
*
de repente
um desejo impetuoso de parar
ficar quieto
como uma maioria absoluta
a definhar
olhando sem ver o louco a louca
vicejando ao alvorecer
em cada esquina da vida a decantar
aforismos poemas
e causas tremendas horríveis
a doer-me de amar
*
de repente
tudo o que disse me soa a nada
vácuo vão inútil
de tanto pensar ensandeci de amor
pedra pesada
que não chega ao cimo da montanha
a meio descamba
e arrasta o que me resta de ter sido
coragem esperança
com a memória ainda em sangue
tão desventrada
*
de repente
não tenho deus nem pátria
nem família ou amigos
pés ou mãos que me aconcheguem
todos me calam
na profundidade de absurdos segredos
e se escudam
na promiscuidade da minha evidência
árida estéril imbecil
a propagar que já não tenho medos
para onde fugir
*
de repente
se um doce veneno uma picada indolor
um terramoto uma avalanche
de ideias consecutivas me acudissem
sem ter que perder
nem explicar-me a decisão de sair
de não mais dizer
que abomino o clamor deste silêncio
de onde teimo gritar
aos meus próprios passos que me sitiam
a alma surpreendida
*
de repente
uma vontade indomável de apagar
o que me identifica
lunático a acreditar na falsa esperança
que amar é dor que amor alcança
e a não querer ver a materialização fatal
que me e nos condena
à servil condição de sonhadores
de criar sonhos especular
sabendo de antemão que não vale mais a pena
viver nesta agonia a adiar
*
de repente
desligo o botão que me liga à máquina
e permito que o meu silêncio
seja também ele um grito fantástico
a ecoar nas almas em espertina
ninguém dará por nada tão de súbito
como a luz que se apaga
fica ainda a claridade do apagão a confundir-nos
sinto a leveza da queda
neste abismo que é o não ser em absoluto
depois volto à normalidade de viver
**
como se nada tivesse acontecido!!!



autor: jrg

***


REGURGITAR AMOR...


**
Imagino a gruta
para onde te levo
sob a falésia os arbustos
o aroma das urzes
onde te rimo com mar
e o mar de tanto amar
tão teu e meu a dor
*
lembro o sonho
de amantes sem segredos
enrolados nos corpos
possessos de beijos
para diversão das almas
que sabiam
da efemeridade dos medos
*
evoco da memória
que havia escondido no sonho
um pesadelo activado
porque amavas demais
um outro que em mim achavas
tão parecido ou crente a jeito
no sonho feito segredo
*
recordo o meu o teu
desinquietado desassossego
por onde desvairados
nos amamos sem pudor os corpos
por entre manchas de ternura
lágrimas compulsivas
de sal e mel te escorriam
*
regurgito onde te memorizo
o grito o gesto subil o cheiro
as palavras que disseste
de amor sentido meu degredo
e da vontade que é partir
ao teu e meu encontro
dizer-te que não tenhas medo
*
autor: JRG
27
Set12

NAS ASAS DA POESIA!

samueldabo
imagem do autor
***
NAS ASAS DA POESIA
**
da janela da casa
pela manhã
a que deita para o quintal
onde a dona Júlia
solitária estende a roupa
e os gatos namoram
ao entardecer
vejo a parede de silêncio
com um buraco
antes de evasão de fumos
onde um par de aves
apaixonadas 
vão fazer dele seu ninho
sinais de pura magia
que ainda aqui há gente ou vida
o outro sou eu a sonhar
jrg
19
Set12

EPITÁFIO - (para a PAULA)

samueldabo
imagem pública tirada da net
*
EPITÁFIO
(para Paula)
*
juntam-se à despedida
no silêncio apenas
a morte
trocam olhares demências
cada um em seu drama
a pensar
*
amigos conhecidos família
ligados por um fio
o sangue
ou a memória das vidas
que foram um dia
o tempo
*
a decompor-se nos vermes
o corpo jaz ali morto
vegetal
que antes repartiam entre si
interstícios da carne
nas orgias
*
a persistência do mistério
na homilia do padre
morrer
a encomenda das palavras
faz-se tarde a morte 
já partiu
*
terá rondado alguém eu tu
o gato preto ronrona
porquê
tanta disputa tanto ódio
fétido cheiro tétrico
quem era?
*
foi de repente adormeceu
terá deixado algo
por fazer
uma sentença um desejo
uma memória dizer
não quero
*
tristes e indizíveis actos
rostos desnoitados
funerários
carregam a urna deitado
um corpo sem alma
amortalhado
*
segue o cortejo lentidão
servil ao protocolo
quem era ..é
o som cavo da terra tapa
flores que me cobrem
olhares
*
cada um regressa ao sitio
o corpo manchado
ali fica
embebido na arenosa terra
com flores a murcharem
da vida
autor: jrg
07
Set12

O ACTO DA CRIAÇÃO LITERÁRIA E O SILÊNCIO!...

samueldabo


imagem pública tirada da net

*

O ACTO DA CRIAÇÃO LITERÁRIA E O SILÊNCIO


**


podias ser 
a minha fonte d'inspiração
e não este meu grito
a desfazer o som opaco do silêncio
que me estilhaça o pensamento
como pode alguém ser da arte criador
se interrompido quando pensa
para acudir aos teus afagos e desejos?
*
há quem pense
por entre os murmúrios do café
ou na roda viva duma orgia
mas não é a mesma coisa meu amor
rasgar o silêncio do alarido
de pensamento livre e acintoso
ou ouvir o teu gemido
a martelar a cadeia de pensar
*
não se trata aqui to digo
de mãos dadas caminhando ao luar
de que te cales ou vás
porque o teu grito nem a morte cala
só eu de mim posso calar
em cada hiato de tempo que houver
mas não me digas nada
quando o meu silêncio te silenciar
*
o dilema é não saber
quando o pensamento irrompe a adejar
sobre a ideia a amanhecer
a alma fica em êxtase não dá para mudar
acredita que te amo podes crer
porque o amor é o grito maior a ecoar
na mudez da mente a fornecer
os dados à ideia pronta a zarpar
*
e és mesmo sem querer
a musa o mito que me desencaminha
desde as profundezas do mar
a revolução do pensamento permanente
que faz o silêncio em mim gritar
ao som do teu dizer estou aqui e sou alguém
a que o silêncio não pode calar
por mais que a criação teime em ser momento
*
autor: jrg

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