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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

22
Ago08

TER UM BLOG E O MSN

samueldabo

Ter um blog é um fascínio que que atormenta adolescentes, jovens e e adultos amadurecidos pelas vivências, que vêm uma oportunidade de comunicação, como se estivessem a coberto duma massa enorme de gente que tudo  lhes permite dizer, deixando-os permanecer no anonimato.

Ter um blog é poder expressar-se de dentro de si, autênticos, apaixonados pelas palavras que soltam e se comportam anarquicamente nas mais díspares direcções e entram nas mentes que as lêem e as interpretam e fazem juízos de valor, de personalidade, de imagem.

Eu, por exemplo, procuro nas palavras ver imagens de almas inquietas. Não me preocupa se os corpos são formosos, se os rostos são lindos, se são jovens ou pessoas maduras. O que procuro é a simbiose do belo. O drama e a beleza. A procura e o achado. A incerteza e a convicção. A melancolia e a alegria. Procuro amor e ausência. Procuro a totalidade, a essência do homem. E é com paixão que escrevo as palavras que edito. Umas vezes românticas, para que se extasiem, outras acutilantes, bravias, para que se reflictam, outras ainda, afrontosas dos conceitos instituídos, para que se transformem.

Não procuro amantes, não procuro partir corações. Não provoco nem alimento paixões Procuro amizades puras na orgia singela das palavras. Procuro estender a minha mão de palavras a quem em desespero de si, as palavras possam constituir uma mola de se elevarem, um indicador de mudança do seu próprio sentir a vida.

A minha imagem, sem foto, consta da montra de perfil do meu blog. É autêntica. É o que eu sou.

Algumas pessoas que me lêem, julgo, deixaram-se inebriar pelas palavras que escrevo, sem lhes desmistificar o sentido e o tempo. Se eu escrevo memórias da guerra, é porque vivi a guerra. Deixam-me comentários de ternura que eu aprecio como amizade sã. Exulto, até, de alegria, porque as sinto, às pessoas, belas no todo de si. E comento os seus textos de igual modo, fervorosamente convicto do seu valor humano, das suas qualidades de escrita.

Tive amigas que quiseram experimentar outro tipo de comunicação, por ser mais no momento que se pergunta e obtém resposta. O MSN de facto, torna a escrita mais fluida, o pensamento  mais lesto. É como se estivéssemos a falar no silêncio das palavras. Quase as podemos ouvir, respirar. E levaram-me a aderir a esse modo de comunicação.

O MSN tornou-se, sem eu querer, num desmistificador de mim e dos outros, porque lhe adicionei uma fotografia minha. Eu mesmo.

Neste momento tenho quatro amigas convidadas no MSN e não falo com nenhuma, após uma primeira intervenção rápida. E não falo porque elas se foram, perdi-as sem uma palavra E dói-me tê-las perdido. porque lhes tinha amor de amigo.

 

15
Ago08

ANDANÇAS PÚBERES

samueldabo

_Perdeste o ano pela segunda vez consecutiva e vais trabalhar. Não temos condições para andares a brincar na escola.

Pedro, os olhos no chão de cimento, soltando lágrimas de raiva por não ter sido capaz. Olhos grandes, escuros entre pestanas largas.  Mas pronto, iria trabalhar, no que houvesse, logo se veria, o sonho adiado. Ser defensor dos fracos, de todos os pobres que via de olhos no chão, como ele agora, no momento em que a mãe lhe apontava a incúria de mais um ano perdido em namoricos e visitas expectantes ao Castelo de onde olhava a cidade imensa do outro lado do mundo que conhecia, e sonhava a ponto de quase adormecer .

A escola grande sempre o intimidara. As calças de ganga remendadas, as camisas ou camisolas eram diferentes das dos outros rapazes, mais feias, sem brilho, as botas doíam-lhe os pés,  tinha joanetes e pé chato, o desconforto  de não ter um lanche, sendo o almoço fraco, confeccionado de véspera,  comido nas ameias do Castelo. De história até gostava. O problema foram as faltas, os namoricos.

Arranjou trabalho com o Matias que tinha um negócio de fazer blocos de cimento para a construção de casas. Agora sim, iria criar músculo, crescer. Ser homem.

Pedro era um rapaz frágil de constituição baixa e escasso de carnes. O cabelo negro sobre a testa, desfeita a  onda com a secagem da água com que molhava o cabelo para acomodar os remoinhos que teimavam em permanecer, espigando os pelos  que sobressaíam do restante acomodado pela água.

A cara borbulhosa do acne e uns pelos faseados que faziam o seu orgulho de parecer homem grande, homem feito.

Namorava a sobrinha da dona da mercearia que lhe arranjava o tabaco. Era uma namorada tímida como ele, que corava quando a tentava beijar nas faces, ou lhe dava a mão em plena rua. Chamava-se Sofia e tinha uma boca acentuada pelos dentes sobrepostos.

O primeiro dia passou na aprendizagem do manuseio das ferramentas de molde.

Os homens que o conheciam diziam entre gargalhadas que o Matias era maricas.

_Olha que o gajo tem o cu cheio de merda seca! E riam-se...

Pedro, olhos no chão ouvia e precavia-se, para dentro de si. Que com ele não contasse. Ouvia os rapazes falarem de ir aos paneleiros, através das dunas mais distantes, nos côncavos  de areia que o vento cavava. Mas nunca fora. Tinha nojo.

O Matias  contratara o rapaz de olhos postos na braguilha onde lhe adivinhava um membro farto e sedutor. Os olhos brilhavam-lhe de satisfação. Logo pela manhã já estava bêbado.

Pedro virava a areia com a pá, maior que ele, tantas de areia tantas de cimento, um pouco de água, aprender a que era suficiente, para a massa ficar no ponto nem muito grossa nem muito fina, no ponto. Colocar massa nas calhas das formas, bater com a ferramenta indicada, raspar os excessos, tirar os ferros que formavam os buracos e abrir o molde de ferro. Era como fazer bolos com o balde na areia da praia. Não ele, que nunca tivera baldes, só latas velhas que achava nas ruas de areia do bairro onde vivera em criança.

Ao terceiro dia, o Matias fez um intervalo e foi até à barraca onde guardava as ferramentas e chamou Pedro para que o ajudasse.

Pedro olhou de frente,pela primeira vez olhava alguém de frente, olhos nos olhos, o Matias a babar-se, os olhos esbugalhados pelo vicio, pelos vícios, a baixar as calças, a tocar-lhe no sexo que andava sempre firme dos pensamentos que tinha, das calças apertadas que o comprimiam de encontro ás pernas. Pedro disse que não. E o Matias insistente, que lhe pagava mais cinco escudos por cada vez. Pedro a fazer contas. O Matias pagava-lhe dez escudos por um dia esforçado  de trabalho e cinco pelo vício de sexo!...Insistiu que não,que ele, Matias não se lavava.

O outro, possesso de desejo, implorava-lhe que o deixasse então chupar-lhe o membro hirto que se avolumava sob as calças, aumentando o desejo do velho que se babava e mexia no sexo de Pedro, com as mãos calejadas, grossas, poderosas.

Vencido, Pedro acedeu, tirou o sexo pela braguilha das calças. Matias ficou louco e sôfrego enfiou-o pela boca em chupadas loucas de desejo e lascívia. Foram momentos breves.

Pedro enojou-se e a pila murchou, secou a febre. Matias deu-lhe os cinco escudos e mandou-o regressar ao trabalho.

Pedro fez o resto do dia em ânsias para chegar a casa, lavar-se. Sentia um nojo pela figura asquerosa do velho. Uma pressão intensa na cabeça como não tinha sentido antes.

Meteu na sua cabeça que nunca mais. Se ele tentasse, se forçasse vinha embora, ou dava-lhe com a pá na cabeça.

_Pedro!...

Era o pai que o chamava. Regressava do trabalho a pé e passara por perto.

_Estás vermelho, aconteceu alguma coisa?

_ Não pai,apenas que cresci bastante, hoje. E gostava de arranjar um trabalho melhor.

 Pedro, onze anos, a muscular-se fazendo blocos para a construção de casas.

06
Ago08

POESIA ERRADIA II

samueldabo

 

 

 

 

                        

 

  a um filho morto  

 

Ontem a comoção foi da espessura dum susto

duma árvore correndo

vertiginosamente para dentro do desastre

 

E já não choramos. Passamos

sem que o mais acurado apelo

nos decida

 

Nas camisas

teu monograma desanlaça-se.

Tua mão vê-o nos céus nocturnos

sabe que há uma ígnea

chave algures

 

Minha tristeza não tem expressão visível

como quando a chuva cessa

sobre a dádiva fugaz do nosso sangue

que hoje embebe a terra

 

É tal a ordem em nós

que um odor a bafio sai de nossas bocas

e uma teia de aranha interrompe o olhar

que te envolveu

 

 

 

 

de Sebastião alba


 

30
Jul08

MEMÓRIAS DA GUERRA-GANDEMBEL

samueldabo

 

Era manhã cedo como de costume e o sol ainda se ocultava nas brumas da aurora fresca e húmida que não tardaria em transformar-se numa fornalha irritante, tanto faz que houvesse sombra. O ar rarefeito. Os mosquitos sedentos volteando à volta do pescoço, à espera das primeiras gotículas de suor.

Hoje tocara-lhe a ele, Manuel António, picar a estrada de areia amarela e poeirenta. A estrada que tomava o nome de picada, não sei ser por ter sido tantas vezes perfurada pelas varas metálicas, pontiagudas que tremiam, por vezes, nas  mãos morenas de jovens de olhar estático e cortante.

O rumo, a rota, o destino, era em frente, seguindo a estrada sangrenta. Só o comandante da coluna sabia. Os guias negros da milícia, eram informados na hora da partida. A longa fila de camiões GMC, carregados de viveres. De armas e munições. Esperança e morte. De quê? De quem? O ruído dos motores, o cheiro do gasóleo, a suor, a fumo que vinha da Tabanka. Os olhares que escondiam mistérios dos meninos negros e de negro. Os dentes brancos, cuspindo no chão à nossa passagem.

Manuel António sente o coração bater desordenado. As têmporas já latejam e doem. Os olhos febris que olham em redor e não vêm. A alma inquieta. Uma perna, os testículos, o corpo a alma, ou só um dos pés. Tudo era possivel dependendo de ser uma mina anti-pessoal ou um fornilho anti carro. No caso do fornilho nem a alma escapava. Tudo feito em merda, como o Dabó, o grande comandante milícia que dera a vida por eles, por ele.

A coluna inicia a marcha a passo lesto até alcançar o ponto limite onde a segurança é feita com o coração.

O grupo da frente são uns dez soldados de varas de aço ás costas, como se foram enxadas. Conversam entre si, à procura de descontrair os nervos à flor da pele. Não tremer. Não pensar.

A picada tem curvas e grandes árvores ladeiam-na de um e outro lado. Em cada uma das bermas seguem em fila os homens de verde salpicados de castanho. No meio os camiões e os dez condenados da linha da frente. É uma linha silenciosa e cada um remete-se à sua solidão de si, para si. A vara espeta a terra, se está rija um pé no local da picada e pica mais à frente, e o outro pé avança.. São poucos mas longos os quilómetros a vencer.

Pica, pé, pica outro pé. Pica pé, pica outro pé. pica, pé, pica outro pé. Interminável.

Manuel António está tenso e pensa em Cristina, a bela Cristina que o espera inteiro. Não deve pensar , mas pensa. Não pode pensar, mas pensa. Pé ante pé. pensa.

Cristina dissera.lhe, lábios nos lábios que ele ia voltar. Cerejas, sim, eram cerejas os sabores dos lábios dela. Vermelhas. Mas vermelho é morte. E o outro de si, mas também é vida. A morte e a vida na consciência de um acto de picagem de terra batida ou remexida. Atenção. A dureza pode ser um embuste. Se houver um fornilho estou feito. Podem colocar a mina com antecedência, regá-la com mijo, deixar que endureça.

O sol já marcha e não corre aragem. Mosquitos. Cristina. Gritar a angústia, o medo. Dizer não, saltar o muro de silêncio. Os macacos riem-se? Ou gritam espavoridos? Ele, eles,  macacos domesticados por Deus, ou em nome de Deus. Os outros também têm Deus. Um mesmo Deus senhor da Terra e dos animais. Um Deus poderoso, omnipotente e justo. Como justo? Quer uns quer outros interrogam-se, sobre a justeza de se matarem uns aos outros, de se armadilharem ignominiosamente.

A guerra, qualquer guerra é uma humilhação do homem. Ele sempre fora pacifico, mas irritava-se, por vezes. Sentia a impunidade com que se cometiam fraudes e atentados à dignidade. Considerava-se um humanista. Herdeiro do humanismo subjacente à  Revolução Francesa. Ir a Paris, um sonho de anos. A Pátria da Liberdade. Paris em chamas de amor.

Pica, passo, pica, passo, pica, passo. Suor e sangue na sola dos pés e no calcanhar. Pés chatos, joanetes. Ainda pensara que se iria livrar. Pica, pé, pica, pé, pica, pé...

Chegaram ao perímetro de segurança, exaustos, os dez da frente. Psicologicamente exaustos.

Manuel António, os olhos em volta, desolação. E para dentro de si: Cristina, meu amor, mais uma etapa, dentro, onde a solidão se povoa e se transforma em alarido, contentamento.

Chegam ás portas do "quartel". Manuel António estaca, estarrecido, cambaleia, os olhos vidrados, comoção, medo, terror, incredibilidade do que vê.

Como toupeiras, nus, apenas uns calções esfarrapados. Os corpos escuros do sol, da poeira, suor, lama. As barbas negras e os cabelos crescidos, pré-históricos, urrando selvaticamente, possessos de humanidade, assaltam os camiões. sem ordem, sem protocolo, em busca de cerveja, ainda que quente, saltitam enquanto uns outros, incrédulos assomem dos buracos cavados no chão que lhes servem de caserna, de quarto, de abrigo. Coçam-se, esbracejam. Gritam e dizem palavras inteligíveis. Trocam abraços. Um grupo, perto, de olhos parados, sem tempo, sem luz. Olhos mortos. almas agarradas a um fio de memória que se recusa morrer.

Ninguém se conhece e são como irmãos. Mais que irmãos. Amam-se e não sabem que é amor o que sentem, porque se abraçam, se beijam. Dizem que sofrem ataques diários. Abalar psicológicamente. Ouvem-nos gritar por entre o som da metralha. Vêm pela calada da noite. Chamam-lhes nomes ofensivos. Espalham ódio. Não os querm destruir fisicamente, só abalar a psique, a altivez da cor da pele. Correr com eles, os nossos soldados. Nossos. De quem?

 

 

                                                                  

 

Hino a Gandembel

Gandembel das morteiradas,
Dos abrigos de madeira
Onde nós, pobres soldados,
Imitamos a toupeira.

- Meu Alferes, uma saída!
Tudo começa a correr.
- Não é pr’aqui, é pr’ponte!,
Logo se ouve dizer.

Oh!, Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (1) e morteiradas.
Oh!, Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se ligam os rádios
Ao som de estrondos e tiros.

A comida principal
É arroz, massa e feijão.
P’ra se ir ao dabliucê (2)
É preciso protecção.

Gandembel, encantador,
És um campo de nudismo,
Onde o fogo de artifício
É feito p’lo terrorismo.

Temos por v’zinhos Balana (3),
Do outro lado o Guileje,
E ao som das canhoadas
Só a Gê-Três (4) te protege.

Bebida, diz que nem pó,
Só chocolate ou leitinho;
Patacão, diz que não há,
Acontece o mesmo ao vinho!

Recolha: José Teixeira / Revisão de texto: L.G.
____

(1) Verylights
(2) WC
(3) A famosa ponte Balana
(4) A espingarda automática G-3

25
Jul08

CÃO DE NÓS

samueldabo

Enterrei o Médor, o velho cão que foi um de nós, sob a copa frondosa do Pinheiro manso em frente das últimas casas da Vila, na pequena mata que a semi circunda.

Atravessei as ruas com ele à costas, pesado. Numa das mãos a pá com que revolveria a terra, cavando o buraco suficientemente fundo para que os outros animais não lhe descobrissem o corpo.

A Vila tem pouca gente, já. Foram partindo aos poucos da inacção ao desenvolvimento. Da pobreza dos espíritos, cadáveres adiados que assomam ás portas a ver-me passar, o saco negro às costa. Médor, o cão de nós. E eles, velhos. Quem os levará? Quando?

E enquanto caminho relembro,

Médor, arrancado ás tetas da mãe, sugando o biberão que lhe arranjámos com carinho, os ganidos de bebé, como um bebé, a aconchegar-se onde sentia o quente, os olhos vivos. Cheirando-nos, absorvendo-nos para não mais esquecer. Para ser um de nós, para sempre.

Quando cresceu, atrevido, ladrava e dava ao rabo quando sentia que fizera algo que não devia, como roer sapatos, escavar sofás, ou rasgar uma qualquer peça de roupa esquecida ao seu alcance

.As idas ao médico. Curioso, como gostava do médico. Zangava-se era comigo que o segurava enquanto o outro lhe espetava a agulha.

Pesa que nem chumbo, digo para comigo, e ainda falta um tanto de caminho. Saúdo os mortos à porta das casas, que me olham . Não sei se me vêm, mas olham-me. Assustados.

As correrias loucas na areia da praia, os buracos que abrias e cheiravas e escavavas mais, até desapareceres  sobre o monte de areia.

-Médor!... chamava-te e vinhas louco, em zig zags alucinantes e quase me derrubavas.

Estou a lembrar-me da tua primeira queca. A cadela com o cio tinha um namorado cioso. Mas tu eras destemido, era a tua primeira vez e o cheiro alucinou-te, correste para ela, montaste-a e introduziste de imediato o teu membro erecto, sem preparação. O outro cão furioso, não fora eu a afugentá-lo com um pau, tinha-te desfeito.

Fizeste o teu papel de macho. Nem sei se tiveste o teu orgasmo. Nem sei se os cães têm orgasmos. Porque a cadela assustada com o alarido do namorado forçou a descolagem, e fugiu espavorida. Tu ganias desalmadamente. Pudera, ia-te arrancando o sexo. As entranhas.

Já vejo as árvores que se perfilam ao longo da estrada. São Pinheiros e Eucaliptos, algum  mato rasteiro, pequenas plantas amarelas, azedas, que chupávamos em crianças, descuidados, travessos.

A tua queca saiu-nos cara. Atingiu-te a próstata, médico, medicamentos. O teu sofrimento, os teus olhos doces clamando protecção. A minha mão sobre a tua cabeça .

Comias desalmadamente e vinhas ainda reclamar do meu prato quando te agradava. Ganias. Adoravas raia cosida.

Meu cão de nós. Médor.

Depositei o saco negro na areia junto ao Pinheiro e, com a pá, fui retirando areia, depois terra, raízes, alargando o espaço, a medir-te, morto, a ver os teus olhos vivos como se rissem ,da alegria de me ver chegar. A cova. Olho o volume que se evidencia  dentro do saco.

Eras um cão bom. Lambias os gatos da casa quando eles se enroscavam no teu corpo à procura de quente. Quando se levantavam e te arranhavam, ganias e ainda levavas uma patada assanhada. Doce cão. Médor.

Pego no saco e coloco-o na cova, mas reparo que fica pouco espaço até à superfície. E cavo um pouco mais.

Entravas pelo mar quando nadávamos e vinhas até nós, contente e lambias as nossas caras. Nadavas a nosso lado para terra, como se competíssemos.

Os nossos passeios. E de como fazias as necessidades sempre de encontro a uma árvore. E de como dormias aos pés da cama e te incomodavas sempre que eu estendia os meus pés e te tocava.

Volto a colocar o saco. Sim, agora está perfeito. É suficiente. E volto a reencher a cova colocando terra sobre o teu corpo. Estás morto. E vives ainda, infinitamente em nós, até ao fim de nós.

18
Jul08

É A HORA DE LIBERTARES AS PALAVRAS!

samueldabo

 

                               Para ti

É a hora de libertares as palavras

meu amor

que de angústia se tornem

 alegres viçosas

que te afirmem como a vontade

de ser diferente

e de saberes que és um sonho

que queres realizar

ainda que contra toda a gente

porque é tempo de libertares as palavras

meu amor

há tanto contidas sofridas amargas

que te desesperam

nos silêncios da razão

que te impedem de andar e de viver

a vida feliz que procuraste

e de ser livre como as aves

que batem as asas

da tua imaginação

Chegou o momento de libertares as palavras

meu amor

de reconstruíres os cacos

que se partiram de ti e jazem intactos

de criares novos alicerces

mais sólidos

de amares o amor eterno

ainda em ti latente e perene

dos sonhos que povoam

a tua mente.

 

 

03
Jul08

MAMÃ PORQUE SOU PRETA SE TU ÉS BRANCA?

samueldabo

O pai de origem Indiana, estatura média, magro, o cabelo ondulado, negro e os olhos mistério dos longes deixados, escuros, cintilantes e sempre agitados, como se temessem o ar que circunda à volta de si, a pele escura, geneticamente negra.

É especialista em medicina molecular. Estava em Moçambique quando se deu a revolução que o levou a ter de escolher entre ficar e partir. Escolheu partir, por não acreditar nas novas classes dirigentes, por temer as convulsões inerentes à mudança, por um desejo de aventura. A Europa...

E veio e conheceu a mãe, uma mulher linda de cabelos castanhos e pele morena, olhos castanhos escuros, um sorriso encantador, o corpo de formas harmoniosas, afável.

É especialista em medicina familiar e enamorou-se deste homem belo, que conheceu num simpósio sobre: Novos Contributos da Genética Molecular para a Medicina.

Apaixonaram-se, misturaram culturas, casaram e tiveram uma menina exóticamente bela, saída deste amálgama de genes tão distantes, e tão geneticamente próximos.

A menina tinha a pele escura e uns olhos escuros desmedidos no rosto pequeno, mas belos, únicos. Cresceu e foi à escola. Era inteligente. Absorvia tudo o que ouvia, via e escutava, mas tinha um olhar triste. Sentia que não era igual aos outros meninos. Não era preta nem branca, era escura, mas de um escuro indefinido  e via nos olhos pasmados dos outros meninos uma interrogação muda, um olhar estranho sobre o seu corpo, como se fosse um bicho raro, ou tivesse uma doença exposta que a definisse como ser imprópria para brincar as mesmas brincadeiras dos outros meninos e meninas.

Um dia eles, os colegas da escola, riram-se espalhafatosamente quando chegou e chamaram-lhe um nome diferente:

-Monhé!  Preta Monhé!...

Ficou aterrada, petrificada de onde ouvira em tom jocoso, do lado de fora do outro mundo que era o deles. Baixou os olhos lindos e grandes que choravam em silêncio. Foi assim que a encontrou uma professora que passava, que repreendeu os meninos e meninas com uma voz suave, mas firme.

Na aula o tema foi as origens do tom da pele e o respeito pelas diferenças. Os meninos e meninas foram convidados, à saída, a dar um beijinho à menina e a pedirem desculpa pelo seu acto. E a menina acalmou. Acalmou, mas não esqueceu.

à noite, na sua casa, quando os pais e ela se sentaram à mesa para o jantar, a mãe já estranhara o misterioso silêncio dela, sempre tão alegre quando chegava da escola, como se entrasse num reino seguro onde se libertasse dos medos.

-Mamã, porque sou preta se tu és branca?

Os olhos grandes, muito abertos, fixando não a mãe mas o pai, um trejeito nervoso nos lábios carnudos de menina.

Olharam-se todos num silêncio de gritos assustados. Como se tivessem percebido agora, ele  e ela, o pai e a mãe, que falhara algo na comunicação deles com a menina. Mas então e o colégio, um modelo de educação e ensino em que confiaram?

-Minha querida, a cor não importa. O importante é o saber. Sermos diferentes...

-Não!, Disse a menina, não quero ouvir essa explicação. Já a ouvi hoje.  Queria apenas saber se era verdade ou se havia outra explicação. A culpa é dele!

Apontou o pai que assistia à cena com um ar apavorado e carente de amor, do amor daquela filha que amava e que esquecera na luta pelos outros.

-Não quero viver mais com ele!....

E correu para o quarto, chorando, a menina exóticamente bela de olhos grandes, escuros de mistérios de longe.

 

26
Jun08

ESPERMATOZÓIDES -O KILLER VENCEDOR

samueldabo

Nos Seres Humanos bem como em muitas outras espécies existem dois tipos de espermatozóides normais. Um deles portador do cromossomo X (responsável pela formação de um ser do sexo feminino) e o outro portador do cromossomo Y (responsável pela formação de um ser do sexo masculino).

Em algumas espécies, nem todos os espermatozóides estão "programados" para fecundar a célula reprodutora feminina (dependendo da espécie numas o óvulo noutras o oócito II). A cada ejaculação, tomam a frente os espermatozóides "killers", os quais possuem certa capacidade de fagocitose, cuja principal função é destruir tudo o que estiver a frente (ex, outros espermatozóides, macrófagos da fêmea, etc.), e furar a parede da célula reprodutora feminina. Logo atrás, espermatozóides "soldados" são responsáveis pela escolta dos fecundantes propriamente ditos. Por último, os "soldados lentos" entopem os canais de muco (meio no qual os gâmetas se locomovem), dificultando a passagem de outros espermatozóides. Assim, se uma fêmea tiver copulado com dois parceiros, as chances de fecundação por um gâmeta do primeiro é substancialmente maior.

Retirado da Wilkipédia.

 

São milhões os espermatozóides que um homem expele numa ejaculação e que se atropelam, se digladiam, numa luta feroz, fratricida, para chegar ao óvulo feminino. Só um, dois, três, chegam ao seu destino, exaustos da batalha, por vezes feridos, outra doentes.
E cada espermatozoide que fecunda o óvulo feminino, torna-se gente. É um glorioso vencedor.

Gostaria de vos dizer e digo, mulheres e homens em desespero de vós. desesperados de encontrar um rumo próprio, mal amadas, desconfiadas da esperança.

Cada um de nós só pode ser um vencedor. depois que ganhámos a batalha de fertilização.

Partindo do pressuposto que saímos vitoriosos de uma batalha sem precedentes, em que todos morrem menos dois ou três, isso faz de nós seres únicos e dignos vencedores em qualquer parte do mundo.

Desesperados então porquê? Amemo-nos na plenitude de nós.

13
Jun08

DESAFIO

samueldabo

Desafiado por Estou_Estupefacta

Fui desafiado pela minha amiga Estupefacta a considerar em seis palavras, um conceito ou estado consumado de vida.  São-nos pedidas seis palavras para uma muito curta biografia ou conceito. Podemos até adicionar imagens. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e desafiar 5 novos blogs, avirem à valsa. E o que me apetece dizer é:

 

   Ter vivido em Absolutos do Amor

É o mais breve resumo de mim, da minha essência.

 

Os blogs desafiados, em concreto são:

 

http://juaninhalys.blogs.sapo.pt   http://chaparral.blogs.sapo.pt  Passiondance

 

                            Princess (^-^,)                                         Alzira Macedo

04
Jun08

QUANTOS SOMOS NA VERDADE?

samueldabo

Quantos somos, em nós e nos reconhecemos como um só quando enfrentamos as acções que nos vêm de fora e lhes respondemos com lascas do que somos ou inventamos ser ?

Todos os dias acordamos com a sensação de não sermos um monte de ossos provido de carne, com lianas de nervos e veias, rios de sangue e milhões de bactérias, umas nocivas e outras boas, que se encontram num limiar de si  a digladiar-se  entre si e fora de si, que nos consomem e renovam energia, num esforço quase inútil de nos fazerem aceitar a evidência mesquinha que somos tão frágeis e desprotegidos.

E a isto respondemos que temos a alma, que é um amalgama de vontade e de saber e que quanto maior o saber, maior a alma. Ou quanto maior a alma maior o saber.

A alma é então o cérebro que tudo comanda, de cima de nós e por dentro da pele e cartilagem óssea que se fecha e esconde esse centro de comando, aparentemente igual em cada corpo, mas de diferentes decisões e interpretação de conceitos, porque só aparentemente é igual na sua configuração externa.

Na sua essência, a matéria difere de ser para ser, por contaminação de outras almas ingénitas que subsistem e se transvasam de geração em geração.

Não basta dizer que sim- É preciso sentir.

Quantos somos em nós, afinal?

 

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