Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

05
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.6

samueldabo

Mariana, jovem advogada, filha única de uma família de classe média, sabia-se possessiva e com desejos inexplicáveis de posse. O que era seu. Partilhar nada. Só o que fosse possível colher quando ela própria se expandia em acessos de verdadeira loucura apaixonada.

Sabia-se bonita e cultivava a aparência , ultrapassando qualquer que fosse o obstáculo, por mais difícil .

Na barra do tribunal, não se coibia de humilhar colegas e arguidos com um sorriso arguto, por vezes sarcástica, senhora que era de influências importantes no meio judicial e da investigação.

Olhos castanhos claros, rasgados num rosto moreno, bem maquilhada, os lábios de um rosa exuberante, cabelos castanhos em revolução, caracóis , farripas ao vento.

Gostava de sessões exaltantes e prolongadas de sexo.

Alguém lhe dissera um dia que era hipersensível , ninfomaníaca ...

Tinha conhecido Alberto nas idas à livraria. A forma apaixonada como ele falava de livros e autores A presença afável, atenciosa, os olhos que a hipnotizavam . O corpo , másculo. Mas sobretudo a voz. O espírito inocente quando lhe dizia que só casava com uma mulher virgem. Quanto muito, semi -virgem. E ela rira-se divertida.

-O que é isso de semi --virgem?

Perguntara maliciosamente, na iminência de o encurralar .

E ele, Alberto, a voz trémula, quente, indiciando vergonha.

-Uma pessoa que não tenha tido relações sexuais há pelo menos doze meses, é, para mim, semi virgem. É como se fora a primeira vez. Pode até ser considerado um fetiche.

E de como ela lhe mentia, porque a entusiasmava mentir-lhe, quando ele falava na teoria do amor absoluto. Amarem-se como um só.

Mariana. A sala vazia. A passar em memória lenta, os curtos meses de casamento com Alberto, que desaparecera.  O empregado da livraria disse que ele fora para a Ilha. Qual Ilha?

Os momentos de grande excitação sexual. Não podia queixar-se. Aí ele cumprira. As discussões quase diárias e ela sem vontade de se esforçar, como ele queria, para alcançarem um traço de união, uma consubstanciação de valores comuns.

E, por fim, esse caso absurdo do irmão dele. Meteu-se na droga? Que se safe. Não era ela que iria manchar a sua reputação, por um caso perdido

Agora trocara-a por uma ilhoa , soubera ontem, e isso não lhe perdoava.

Assinara o divórcio, sem complicar, porque também ela queria sentir-se livre, desimpedida.

Conhecera Santiago, um jovem elegante, físico poderoso, másculo, a respirar sensualidade, num julgamento por tráfico de droga. Conseguira a absolvição graças aos seus argumentos dilatórios e a outros atributos.

Festejaram, no quarto do hotel onde ele se hospedara. Foi uma noite de exaustão a raiar um sadomasoquismo mutuo. Exaltante.

Ficou a saber que Santiago era de S. Miguel, divorciado e que alimentava vingar-se do que ele dizia ser uma traição pós traumática. A ex mulher andava de amores com um tal Alberto do Continente.

Mariana ficou estupefacta. Também ela, agora, com um ilhéu, para si era suficiente, como amor próprio, como vingança.

- Se nós aparecêssemos por lá, ligados, em apoteose.

Santiago olhou-a fixamente, avaliando a recepção dela. O até onde estaria disposta a ir.

-Não, eu tenho um plano que vou pôr em prática quando regressar, mas preciso de apoio jurídico , um apoio interessado, engajado.

E foi descrevendo, com minúcia, como pensava raptá-la, Carla. A ele não importava Alberto. Mas a morte de Carla, uma morte acidental que não o comprometesse, instalara-se na sua mente.

Para Mariana ficou claro que a morte de Carla afectaria profundamente Alberto. Senti-lo a sofrer. Vivo. Visitá-lo na livraria. Fixa-lo  na sua solidão. Provocá-lo.

-Está bem. Dou o meu acordo, isto é, podes contar com a minha colaboração jurídica . Também eu não quero saber dessa vaca para nada, não me aquece nem arrefece a sua morte, mas quanto ao que restar de Alberto, pago para assistir.

E Santiago a explicar o plano, de como tinham cavado uma gruta no Ilhéu das cabras, lugar ermo e frio, a poucos metros da costa, As correntes fortes. O rapto a acontecer em Angra, aproveitando o hábito que eles tinham de se passear à noite, sozinhos , distraídos, confiantes. E  transportá-la para o Ilhéu onde, sem comer e beber, nem os ossos ficarão por vestígio . Os olhos brilhantes com laivos de sangue. Um sorriso malandro nos lábios cerrados, finos, mas belo, no seu conjunto. E voltaram a envolver-se demoníacamente, sedentos de alcançar o inacessivel. Mentes perturbadas.

 

 

02
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.5

samueldabo

Ao jantar, falaram de factos passados, acidentes escolhidos em momentos de procura. O embuste das palavras, a teatralização  estudada que nos leva a sentir, a acreditar.

Alberto falou da sua relação com Mariana. Da paixão violenta. Era bom fazer sexo com ela e no fim, sentir o bem estar das coisas conseguidas. Não ter reparado em como era possessiva. Apenas fazer sexo com ela. E acorrer a todas as chamadas. Até ao dia em que, confrontados com uma situação difícil , tudo se desmoronou. Era frágil o elo de ligação. O que eu queria era o absoluto, no amor. Conciliar o ser e o haver, numa absorção total das duas mentes, como uma só. Que se digladiam , se confrontam, se violentam, por vezes, como nós em nós, mas que se amam acima de tudo, tudo mesmo. Porque se confiam e esperançam a cada momento de vida, se respiram. Não fingir. Não há seres perfeitos. Saber gostar, amar as imperfeições do outro.

Carla deixara de comer, embevecida, com a ternura das palavras. A mão pousada sobre a mão dele como que a estabelecer um elo. E não se conteve.

- E que situação foi essa? Queres falar sobre isso? Meu amor! Como eu me sinto ir, liar-me no menino triste que ainda há em ti. Como eu te amo!

Alberto estremeceu. Em milésimos de segundo permitiu-se pensar que naquelas palavras não havia teatro. O ar doce de Carla. Os olhos a espelhar lealdade.

-Mulher linda da minha vida. Vamos viver o absoluto do amor! Amo-te tanto. É tal o prazer de estar aqui e ver a tua imagem, desde há dias, a tua imagem. Deslumbrante que me esqueci de te dizer quem sou, o que faço.

Alberto levantou-se da cadeira e deu-lhe um beijo sobre os olhos, quente e húmido e voltou a sentar-se sem deixar de a fitar e ela nele, como serpente e presa cada qual, o ser e o não ser.

-Sou livreiro. O meu pai deixou-me uma loja que vende sonhos. Mariana era jurista, fria, calculista. Sei-o hoje. Eu tenho um irmão que foi arrastado pelo sórdido lado da vida. Drogas pesadas. Roubou. Foi preso. O que eu esperava de Mariana era que o defendesse em tribunal. Que usasse todos os trunfos. Que afrontasse o sistema. Que fosse um eu nela e ela em mim. E ela recusou. Não queria manchar a sua reputação. Podia entregar o caso a um colega. Foi o fim. Acabei de deitar o que quer que restasse.

Nos olhos de Carla a luz, sem lamechas. Um sorriso doce de esperança. O belo e diáfano som da sua voz.

-E salvaste-o?

-Sim, está num centro de recuperação . Há já um ano.

Pagaram, levantaram-se e seguiram enlaçados, os corpos embatendo-se a cada passada,

um último olhar à Lua e ao reflexo sobre as águas calmas da baía, beijando-se, arrulhando e sentindo-se, como um só, o pulsar apreçado do coração.

Subiam a rua da Sé envoltos no quase silêncio pelo adiantar da hora. E Alberto, ao ouvido, num sussurro.

-Não tens medo?

-Oh! Não. isto não é Lisboa. É uma cidade pacata. Nunca acontece nada. E agora tenho-te, querido, para me proteger .

A noite a refrescar e uma ténue neblina a emprestar um ar soturno aos candeeiros de luz mortiça, emblemática duma cidade quase museu.

Alberto olhou em volta, a rua deserta. Vindos da Praça velha, dois carros em andamento lento. De cima nada.

Um dos carros parou, no preciso momento em que Carla mudou de posição e se colocou do lado esquerdo de Alberto. Da janela entretanto aberta, uma mão forte arrancou a mala de mão de Carla e arrancou na direcção das Covas.

Alberto, num impulso, deus alguns passos em perseguição do carro que, um pouco à frente, deitou pela mesma janela a mala , a mesma mala.

 Apanhou-a e voltou-se, com um ar triunfante, mas?...Nada. O vulto de Carla, debatendo-se, os olhos de pânico, no interior do outro carro que seguiu a alta velocidade, o chiar dos pneus na pedra polida da rua da Sé. O ar desesperado de Alberto, sem compreender, sem aceitar, sem querer acreditar, olhando ainda em volta, no espaço interior  do recanto exterior   da loja.

Tinha visto um policia junto à Caixa, correu em desvario. O policia também tinha seguido o desenlace do rapto.  Vinha a subir na direcção de Alberto. Tirou as matriculas porque lhe tinham parecido suspeitos. Iria tratar de tudo, fechar portos de saída. Aeroporto. Que tivesse calma. é uma questão de tempo. Estamos numa ilha.

continua

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

31
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.4

samueldabo

A mão segurando o meu braço, caminhámos pelas veredas do jardim. A chuva tinha cessado desde o almoço e o Sol de tons amarelados, em declínio rumo a outros horizontes.

-Carla, sempre pensei que as pessoas sofrem por impulsos.  Não sei se aquilo que está a surgir de nós, em nós, é uma Paixão efémera, se amor profundo, se um simples desejo de sexo. Mas sei, sinto que é muito intenso, maravilhosamente intenso.

Senti a pressão da mão dela, delicada, os dedos finos, longos, as unhas acertadas e em tons claros.

-Tu não sabes e eu, que me pergunto desde pouco depois do instante em que te levei ao meu segredo de adolescente. Que força é esta que me impele a querer estar junto de ti. Que paz. Não faças nada. Não digas nada. Meu Deus!.

Sem se darem conta, tinham saído do jardim e caminhavam agora por uma das ruas transversais à rua da Sé, e que leva à baía. Alberto escutando, mais sereno. O sabor a frutos, ainda daquele beijo, fortuito , inesperado e disse, com a voz tremida, temeroso de não corresponder ao que Carla esperava.

-Se aceitares, gostava de namorar, à antiga, fruir dos teus encantos. Falarmos de projectos comuns, dissecarmos o que nos tramou anteriormente, quais os nossos ideais de parceiro, o que estamos dispostos a partilhar, a ceder.

Pararam junto a uma esplanada que havia no passeio, assente num tablado de madeira, as mesas cobertas por toalhas vermelhas, a lobrigar o azul do mar em frente, por uma nesga entre esquinas.

-Lanchamos?  A nossa primeira refeição juntos?

Carla olhou-o nos olhos, embevecida, reparou que Alberto era um homem diferente dos que conhecera até então. Um rosto moreno de olhos castanhos, o cabelo com laivos de branco a despontar, um charme. A voz quente e segura. Palavras sensatas. Falando apenas o necessário e para dizer coisas bonitas que ela gostava de ouvir. O perfume do corpo. Inteligente.

-Seria fácil, aproveitar o momento de clímax emocional e enrodilharmo-nos num qualquer local. Uma queca efémera  sem virtude e cada um seguia o seu caminho saboreando prazeres ou frustrações que o outro nunca viria a saber. Estou disposta a aceitar.

Alberto, segurou na mão dela com afecto e ,chegando o rosto ao rosto de Carla, olhos nos olhos, os lábios húmidos de um e do outro numa suave e voluptuosa troca de odores.

Alberto sentiu-se inundar da felicidade emergente daquela mulher, levantou-se, derrubou uma cadeira e rodopiou em passo de valsa , curvando-se no convite para que a sua dama o seguisse até ao mar, que era o selo ideal, para um tratado de compromisso na procura de ideais comuns.

Seguiram pela estradinha que circunda a baía, junto ao forte de S.João Baptista. E quase junto ao bar, no limite, desceram a escada, o mar sereno, padrinho, deram as mãos, os olhos verdes dela, pregados nos castanhos dele, disseram as palavras em uníssono :

-Prometo lealdade

-prometo dar-me a conhecer, não mentir.

-prometo não te abandonar nas horas difíceis .

-prometo respeitar-te

-prometo ajudar-te a construir um projecto de vida.

-prometo amar-te

-prometo ser um bom pai - uma boa mãe

Uma onda atrevida lançou salpicos de espuma, enquanto, alheios a tudo, ao pescador que perto lançava isco aos peixes, à chuva que voltara a cair, os lábios sequiosos, numa ânsia de absolutos, as línguas num alvoroço de sucções, os braços em volta e as mãos de Alberto , irrequietas que afagam docemente os seios endurecidos.

-É noite. Jantamos juntos?

E Carla, o olhar esfusiante de felicidade.

-Agora não te quero deixar mais.

continua...

 

 

Registed by : Samuel Dabó /P>

 

 

 

30
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . cont.3

samueldabo

Sentia a humidade do ar quente a aproximar-se e o corpo dela junto ao meu em pequenas convulsões.

Era um ponto aberto entre a folhagem que  se estendia  densa e perturbante, ao longo do caminho, o cais da Silveira, a baía em baixo, as pedras de lava e o mar a perder de vista.

- Deste ponto, ás vezes, quando as noites são escuras e o céu está limpo, vê-se um ponto luminoso, longe, S.Jorge , e eu vinha, adolescente, sentir que não estava só, que ali havia mundo, gente. E era um momento de doce magia.

Uma chuva miúda, como pétalas de hortênsias fenecidas, a adocicar o enlevo de estarmos aqui, as tuas pernas um pouco mais expostas, a pele lisa, aveludada a pedir afagos. Os meus olhos.

-É uma imagem bucólica. O sonho construído através dum ponto.

-Oh! As horas! Os meus pais são intransigentes com o almoço de Domingo, tenho de ir.

Vemo-nos mais logo, no café.

Era como uma ordem sem autoridade.

Fiquei a ver o seu corpo de gazela feliz, saltitando as saliências do caminho, espalhando o momento de felicidade, a contagiar o maior número possível , para que não estivesse só.

Na Adega Lusitana, os cheiros, afrodisíacos da comida, a espevitar odores. A terrina da sopa, o queijo branco, o molho vermelho.

A imagem reflectida no caldo, o sabor a beijos que não demos, as horas , digo, minutos que não passam.

Tinhamos marcado encontro no Jardim Duque da Terceira, depois do almoço, desci a rua da Sé, sonhador, eu, sem dar conta dos vultos que subiam ou desciam, e me saudavam.

A Praça Velha animada por grupos de crianças, festa, romaria. Um relance. Viro à esquerda. 

A esplanada está cheia de juventude, ditos, ironias, gargalhadas. É Domingo.

No jardim, o perfume. Não, espera. Este é o teu. O inconfundível aroma do cio que já me colaste, como marca e que se distingue por entre os aromas de flores tão variadas como magnólias, tulipas, rosas e hortênsias, araucárias , eucaliptos. Tu. O teu cheiro.

A saia cor de rosa, a blusa branca, insinuante, os óculos em jeito de bandolete , o rosto iluminado pelos olhos verdes irisados de veios escuros, acastanhados, e o sorriso aberto, confiante.

-Olá, Alberto! Adorava ter almoçado contigo.

-E eu! Se bem que me surpreenda ver-te.

-Então?!

Notei um breve tremor nos lábios dela  e apressei-me. Pela primeira vez a sentir-me desajeitado.

-Não. não tires  ilações . É que eu pensei que tinha devorado a tua imagem reflectida na sopa, ao almoço. Estás linda. És linda.

Soltou uma gargalhada, inclinando o corpo, leve e graciosamente para trás, o brilho dos olhos, as mãos quentes, trémulas, o abraço, vulcão, vácuo, os seios arfantes e os lábios nos meus lábios, num toque suave, sussurrante, pequenos ais, de sabores, de essências.

continua

 

 

 

 registed by: Samuel Dabó

29
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - Cont.2

samueldabo

Angra sempre tinha exercido sobre mim um fascínio de sedução. A agitação dos automóveis subindo e descendo a rua da Sé, o edifício da própria Sé, esplendoroso na traça arquitectónica , na majestosa religiosidade que o envolvia. o belo jardim ao fundo, à esquerda depois de passar a livraria Adriano, Jardim Duque da Terceira, em socalcos , exótico  na variedade botânica, túlipas, camélias e magnólias de aromas, fluidos de amor e bem decorado por mãos hábeis e amantes do que fazem.

Carla tinha-me sugerido que saíssemos, respirar o ar na sua pureza,

 Acendi um cigarro, junto à porta, enquanto aguardava que saísse da casa de banho, e os meus olhos vagueavam pelas alturas verdejantes do Monte Brasil, em frente, sonhadores, enquanto pensamentos desordenados, em apoteose, provocavam um latejar intenso nas frontes, o coração palpitante, a senti-lo bater nos pulsos, a ouvi-lo  bate em batidas compassadas, acelera, ao ouvido.

Vejo o corpo de Carla que já lá vem, graciosa de andar leve, altura mediana, uns pés pequenos em sapatos de cor vermelha, salto raso, e as pernas a sobressaírem da saia de ramagens, flores da ilha, esbeltas, sobre o joelho., e a blusa de uma só cor, verde cintilante, ou são os meus olhos, entreaberta a deixar ver a forma dos seios, pequenos, firmes, palpitantes.

-Alberto, gostava de lhe mostrar um segredo meu, um local que me ficou da adolescência, aceita?

- Claro. Mas tem que me prometer.

-O quê?

O sorriso dela, a abater-se superior, em desafios de avanços e recuos, sobre o meu ser, num todo, quase absurdo, a apoderar-se, como dona efectiva já, da minha vontade.

-Que não me raptas.

-Prometo.

O diálogo ingénuo, quase infantil, e os dedos dela entre os meus lábios, em cruz, primeiro nos lábios dela, húmidos, os dedos, sabor a frutos.

-Juro!

E o cérebro: abraço, não abraço, beijo não beijo, o caos num turbilhão libidinoso de vontades, carências. Não

-Pergunto a mim próprio como uma mulher bonita, vistosa, atraente, não tem  um príncipe e não sei quantos mais pretendentes. Presumo que sejas uma mulher difícil .

Digo as palavras enquanto caminhamos, lado a lado, me agarras o braço numa saliência de terreno e encostas o seio do teu lado esquerdo, provocando-me calafrios de cálida felicidade.

-Quem te disse que não tenho um marido? Um namorado? Que não sou uma infiel, à procura de  uma aventura continental?

As palavras proferidas com uma ironia ternurenta. O cheiro a basalto, a mar, a cio numa mistura  luxuriante, a tomar-me de novo todos os sentidos.

-Tens? És?

Carla parou segurando-me a mão e colocando-se em frente, barrando o caminho, Que caminho? O olhar doce, nublado por emoções presentes e antigas, numa amalgama frenética de dor e alegria ,de se evadir, cavalgando a minha curiosidade.

-Sou divorciada. Apaixonei-me por um delegado de propaganda médica, de Ponta Delgada. Falador, loquaz, de aspecto simpático, inteligente na aparência, que prometeu amar-me eternamente.

Como eu sinto a tua dor! Uma lágrima sentida a bailar, no canto do olho.

-E então? O que falhou?

-Saiu -me um trapaceiro infame. Um amante abrutalhado, onde eu só pensava haver suavidade. Violência. E eu não sou de me ficar.

Ficaste ainda mais bela. Saiu o ódio acumulado há meses, anos, que importa, e a luz da pureza voltou a iluminar de serenidade o teu rosto mavioso

 

continua

 

 

  registed by : Samuel Dabó /P>

28
Mar08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO - 1

samueldabo

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO I

 

Em Angra do Heroísmo, o Sol enrolado nas nuvens densas, como amante em relaxe após noite de intensos fervores. Envergonhado. Transpirando calor intenso no dealbar da manhã.

O movimento dos carros na rua da Sé era já intenso. Grupos de pessoas seguiam a pé, descendo do alto das covas para a missa das nove. É Domingo.

Estava sentado na mesa vermelha ,sob pano finamente decorado, passando os olhos pelo jornal do dia, o pensamento longe, a antever um amanhã recheado de emoções.

Levanto os olhos, por um raio de luz, instante fugaz, que o abrir da porta fez incidir sobre o teu rosto, ali sentada, em frente da mesa onde eu estava e não tinha dado pela tua presença luminosa.

Fizeste um gesto de surpresa, levando a mão que estava livre aos olhos incomodados, enquanto eu te fixava, agora, preso da beleza, da graciosidade do gesto, do enlevo que o ambiente da Ilha te envolvia, e sorriste ao dar  por mim, maliciosamente sorridente da tua surpresa.

Os teus olhos grandes, verdes mar, brilhantes de  encanto, o menear de ombros, como a pedir desculpa por teres interrompido a minha leitura, por estares ali e seres a causa da minha fixação.

-Bom dia. Digo que é professora.

A minha voz saiu , para surpresa minha, desimpedida, clara, sem conseguir deixar a prisão, doce prisão, daqueles olhos onde adivinhava sonhos, fluidos de mensagens, pedaços de afectos.

-Sim, sou. Tenho escrito em algum lado?

Um sorriso franco, atractivo, a alvura dos dentes com uma pequena quase ínfima , abertura entre os dois da frente, os lábios macios, húmidos do café e a tua língua a limpar resquícios do bolo, uma D. Amélia, rosada.

-Tinha um ar  Pedagógico.

Falávamos entre mesas, soltou uma gargalhada suave, franca, e os olhos reforçaram o brilho de entre o castanho do cabelo, liso, sobre os ombros, e a tez do rosto de um moreno claro, imagem sedutora e simples, sem pinturas de guerra.

-Não sabia que havia um ar pedagógico.

Uma lufada de ar consegue romper a barreira da porta quando se abre e deixa entrar um doce cheiro basáltico que se mistura com os aromas dos confeitos e da mulher que me cerca em novelos de sedução, e me atrai ao centro da ilha que ela é dentro da própria ilha, numa simbiose de convexos interesses, em que uma e outra se revezam na proeminência em que foco o meu olhar.

-Digamos que é um ar ausente. As mãos metódicas no manuseamento da chávena. A pensar em notas e avaliação de alunos, como se lhes soletrasse os nomes.

O teu riso a desfazer equívocos , transparente, cúmplice , a voz quente e terna de uma suavidade aveludada, entranhando-se em mim, ora tenso, ora descontraído, eu que fui sempre um menino triste e só e que venho aprendendo a emancipar-me dessa tristeza mórbida desde a infância.

-Sou Angrense. Os meus pais são donos de uma farmácia, Estive no Continente a estudar e consegui que me colocassem em Angra. Porque eu adoro Angra...

Sigo o movimento dos lábios, bem desenhados no rosto onde o nariz, pequeno, direito, se abre e fecha em movimentos compassados de inalação. Noto o rubor das faces.

-...não me está a ouvir. Agora deixa-me a falar para o boneco.

Agarraste-me, sabes que estou já demasiado envolvido para recuar e falas-me com um tom crescente de intimidade, como se fossemos conhecidos de sempre.

-Perdoe-me, eu sou Alberto e venho do Continente, em serviço.  E ouvi tudo: é dona da farmácia, estudou blá blá blá

Os nossos olhos encontraram-se sorridentes, pujantes de mensagens subliminares, e os lábios, os meus e os dela abrindo-se em sorrisos de nascente afeição. Empatia.

-De facto, somos o máximo, nem nos apresentámos. Se os meus alunos me vissem...Sou a Clara.

Estendi a minha mão e ao contacto com a mão dela, pequenina, indefesa, eléctrica , senti um choque repentino de grande intensidade e notei que ela teria sentido algo parecido, porque se levantou repentinamente, as nossas mãos presas por laços invisíveis, coladas, afins de não sei bem ainda o quê.

-Um beijinho.

Os lábios de um e outro nas faces, as dela rosadas, quentes, nas minhas a sensação de frescura dos lábios dela, como se os tivesse prematuramente molhado da sua seiva para me marcar.

 

continua

 

 

 

 

 registed by: Samuel Dabó

23
Mar08

S.MIGUEL, AÇORES - O NORDESTE

samueldabo

Hoje o sol pregou-me uma partida de menino mimado  e irresponsável. Enredou-se em neblinas maviosas e pertinentes, deixando que miríades de lágrimas de outras tantas saudades ululantes, se abatessem nos corpos desafectados de protecção adequada.

As Queijadas da Vila, após o pequeno almoço madrugador. O café, Delta, claro, a despertar renovadas atenções. a Afinar sensibilidades parecendo exaustas, mas que renasciam, qual Fénix, temperadas pela visão dos fieis que se dirigiam à primeira missa da manhã, indiferentes à morrinha, de rostos abertos e confiantes.

Fiz a viagem de Ponta Delgada ao Nordeste na carreira, a primeira da manhã percorrendo a estrada pouco movimentada e readmirando paisagens e recortes, a fixar imagens e momentos, as vacas nos pastos, as carrinhas que transportam o leite, pequenas povoações e gente que entra, gente que sai, as crianças, os jovens a caminho da escola e eu a lembrar-me de mim.

Timham-me falado do Nordeste como uma miragem num deserto rodeado de oásicos sistemas floridos e verdejantes, numa abordagem surrealista da visão, de quem chega e se depara, com um quadro pintado em fervorosos momentos de arrebatação criadora.

A povoação de casas típicas , arejadas, a casa museu João de Melo, o jardim, o café onde me resguardo e abasteço de iguarias.  O miradouro sobre o mar, a rocha a pique, o verde a envolver as casa em cima, num clima de silêncios, voltar ao miradouro, e novamente o mar estanhado, verde chumbo, denso na voragem da maré, a igreja.

Um táxi, carro de aluguer, parado num lugar reservado. Procuro com os olhos o motorista e não vejo ninguém, até que ouço uma voz, vinda de onde?

-Bom dia, precisa que o leve.

Olhei a figura, magro, rosto bonançoso, olhos que reflectem amor, lealdade a procurar saber ao que vinha. Como te chamas, amigo?

Disse-lhe ao que vinha. Desvendar a meus olhos o infinitamente belo. A pretensa miragem. A descoberta de mais uma das maravilhas açorianas, mas que o tempo, chuviscoso , não estava a colaborar.

Os olhos dele iluminaram-se num clarão de empatia a mandar-me entrar.

- A viagem até à cidade de Povoação são vinte euros, o resto é por minha conta.

Homem grande e destemido, homem bom. Como te atreves a acreditar que acertaste em tomar-me como amigo?

Pelo caminho, também eu confiante, sem saber das rotas, adivinhando boas intenções, foi-me falando de si, dos tempos difíceis da emigração na América, o trabalho quase esforçado para amealhar o suficiente e voltar. Nã que ele não era dos que se bastavam com dinheiro. Ali é que era a sua paixão e comprara o táxi, algum dinheiro de parte, uma vida sonhada nas refegas erradias, naquele deserto apaixonante, apaixonado.

-Olhe, ali, aquelas vivendas no alto da montanha, são de pessoas importantes do Continente, casas de férias.

E eu a imaginar, para mim próprio, os senhores importantes do Continente a julgarem-te parolo, imbecil, por teres trocado a vida faustosa das Américas por um lugar pasmado de beleza. E a contextualizar-te comigo.

Parou o táxi junto a um jardim que abarcava uma vasta  área em planalto, delineado de formas graciosas, ramadas em túnel, palmeiras anãs , flores, o vermelho, o azul, o rosa,  o lilás , o  amarelo e os verdes, numa deambulação de cores e odores. Numa simbiose de deuses tocando trombetas melodiosas e eis a placa de homenagem ao homem e à beleza reunida num feixe, com o mar por fundo, escarpa a pique, o poema:

                                          Toda a beleza é beleza

                                           Para quem na beleza crê

                                           A beleza é só certeza

                                           Conforme a vista que a vê

 

                                           Silêncio de calma

                                           Mudez carinhosa

                                           Afagas muralha

                                           Na noite nervosa

 

                                           Silêncio que alentas

                                           Meu sonho desfeito

                                           Ai como atormentas

                                           O mal do meu peito

                                           

                                           E quando te calas

                                           Calado me dizes

                                           Que as horas sem falas

                                           São horas felizes

                               

De João Teixeira de Medeiros

 

Embevecido por tanta beleza, recolho-me junto ao murete que limita a queda abrupta  e desvenda plena de epopeica visão o mar imenso, ondulante e a esfregar-se, preguiçoso,na base das rochas  que já foram suas amantes e agora, só enamoradas.

O homem do táxi e eu, em silêncio, ambos sabendo que amávamos a mesma substância mítica e sem ciúmes nem desavenças fruíamos desse amor, partilhando emoções vindas do sonho de sermos homens.

 

 registed by: Samuel Dabó

23
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, TERRA NOSTRA

samueldabo

A entrada no parque Jardim Terra Nostra mergulha-me em silêncios profundos à medida que vou avançando e descobrindo imagens absurdas de tamanha beleza botânica, de recantos criados por artistas de outros mundos mais perfeitos.

O Sol no zénite a refulgir raios cintilantes através das folhas de  árvores centenárias, altivas e lindas de grande e pequeno porte. Pássaros que cruzam a densidade do ar em brincadeiras atrevidas, poisando nas ramadas, ou abeirando-se dos lagos e sobre extensas camadas de nenúfares , saltitarem de uma em outra e chapinhando a água morna e quieta.

As flores de cores absolutas, exóticas, múltiplas de género e efeitos sibilinos, transformando os nossos olhos em mirabolantes rodas giratórias.

Subimos carreiros, contornamos lagos e riachos, e voltamos a percorrer, como se de um labirinto que não quiséssemos encontrar o fio.

Os meus olhos emotivos, a voz abafada, tímida , afónica, contrastando com a grandeza que sinto de fazer parte, por um momento, de tão Edílica paisagem.

No cimo de uma elevação, por entre a folhagem de palmeiras e outras maravilhas arborícolas cujos nomes não registei, o edifício adaptado a hotel de grande magnitude arquitectónica a lembrar um conto de fadas, infância, lucidez adormecida. Só pode ser um sonho..

A piscina de águas lamacentas, sulfurosas, onde adultos e crianças se banqueteiam em movimentos ablativos da inércia citadina.

É um ambiente indescritível . Não é possível traduzir em palavras a cor e o enquadramento que os artistas se permitiram para criar uma atmosfera única de emoções sublimes e apaziguadoras.

Venham ver!.

Saímos pela mesma porta e lembrei-me, de repente , que tinha estranhado a entrada paga!... e sorri de felicidade.

 

 

reisted by: Samuel Dabó

22
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, AS FURNAS

samueldabo

"Com um brilhozinho nos olhos" (Sérgio Godinho), a subir a montanha por estradas sinuosas de bom piso e vegetação rica e variada, a ver o mar de um e outro lado da Ilha, a saborear aromas e sabores que nos entram em catadupa a cada inalação.

As furnas, expelindo vapores diáfanos e sugerindo imagens grotescas de vultos que se movem do outro lado de nós, em frente. O cheiro a enxofre . A água azeda que escorre da bica que bebemos para curar enredos e invejas trazidas de longe. O borbulhar da água fervente  brotando do chão e elevando-se em espessa névoa de que nos deixamos envolver em brincadeiras gaiatas. A caldeira num ruído cavo de agonia, um estertor de vida a estremecer o chão que pisamos. Água e lama fervem e extravasam do interior da terra e é como um prato de farinha no clímax da cozedura. A sensação estranha de pensar que pisamos uma camada fina de solo, pronta a estalar a todo o momento, por um qualquer fenómeno que não conhecemos nem dominamos.

 Com os sentidos em êxtase continuo, desço à lagoa de águas mansas em cujas margens escavaram, aqui e ali, buracos onde a terra treme e expele vapores em surdina, que as pessoas utilizam para a confecção do famoso cosido da furnas.

O cozido das Furnas é um banquete de deuses, confeccionado ao vapor, deixando entranhar um leve odor a enxofre que o torna um manjar a repetir. O sabor único das carnes, o gosto dos legumes e dos enchidos, a envolvência da paisagem.

Um passeio digestivo pelo parque Terra Nostra , era o convite, em jeito desportivo, para obstar a uma qualquer indigestão, não sem antes beber um pouco mais de água azeda que, dizem, ajuda a digerir tão farto repasto.

Pelo caminho, Zé Carlos foi-me dizendo que as Ilhas que compõem o Arquipélago são como bairros de Lisboa, ciosas das suas belezas particulares e exigentes na implementação de estruturas, rivalizando umas com as outras e todas com S.Miguel .

- Nós, em Ponta delgada dizemos que os Terceirenses são como os Alentejanos. São indolentes. Só querem festas e mordomias.

Os Terceirenses dizem que em S.Miguel os homens têm a ponta delgada.

E eu a lamentar não ter visitado o Algar do Carvão, nem ter visto as célebres corridas de touro à corda na Terceira e  a não ter oportunidade de sentir o fervor e a religiosidade destas gentes nas festas do Senhor Santo Cristo do Milagres, ou as Festas do Espírito Santo nos Açores: factos que me ajudariam, por certo, a entender este espírito acolhedor e de grande humanidade.

Chegámos à porta do Parque Terra Nostra , cuja visita é paga. Estranhei. Pagar para visitar um parque?

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

22
Mar08

S.MIGUEL,AÇORES, O SONHO DE ESTAR VIVO-Parte II

samueldabo

A garrafa vazia/de Manuel Maria. A voz rouca, dolente, de Zeca Medeiros, no Cantinho dos Anjos, café rente à rua, na esquina de quem sai do Alcides, onde o Sr. José grava com mestria e paciência Franciscana, o nome de clientes afectos em taças de vinho ou licor, balões de Whisky e os oferece agradecendo a visita . A paixão de ser pessoa.

A decoração a lembrar outros povos, vitórias e derrotas, evidências de culturas, mimos de simpatia Açoriana , num ambiente acolhedor onde bonitas raparigas a sós ou em grupo falam de realidades e de sonhos e soltam gargalhadas diáfanas de alegria esfusiante, construindo certezas no perfume dos aromas.

 Que povo é este? Que cruzamento, ou raça pura?

A bela Estela, briosa, de aspecto grave, atento, responsável no atendimento de e sobre cultura  e que se diverte à noite em paródias inocentes de procura.

A divina Venilde , linda, o nome a sugerir veleidades de Olimpo, mas terrena, sonhadora e as partidas que a vida lhe pregou. Marco! Como te meteste, meteram nisso? Que tragédia ou ambição te levou ao tráfico, a destruir em lágrimas de sofrimento e dor, os sonhos encantados da mulher que te amava? Do povo que te gerou? As noites pela madrugada na explanação de projectos limpos de droga!...

O Gil do Couto, homem grande na sabedoria humilde sobre a superficialidade enfatuada. A paixão na crença dos milagres do Senhor Santo Cristo. A lisura de uma personalidade sã e conjugativa de amores comuns. O filho Francisco e a pesquisa dos fundos Oceânicos em busca, talvez de Atlântida e Znaida , artesã, o sentido prático da vida, taxativa.

A visita à estufa onde crescem, eu diria milagres gustativos, os saborosos ananases . Abastecer a garrafeira com o licor afrodisíaco do seu néctar.

O dia, onde o Sol e a humidade confraternizam, convida à procura de ambientes mais frescos.

O aroma especifico das infusões naturais. A única plantação em toda a vasta Europa. Os processos manuais de escolha, purificação e embalagem.

A Ribeira Grande. A escavação natural das água vindas da serra em direcção ao mar. O aproveitamento magnifico das margens, convertidas em lugares aprazíveis de lazer e convívio entre povos. As pessoas. Clara, a contagiante melodia das palavras.

E Rabo de Peixe. O lugar maldito, onde a vida se faz ao mar. Tido como perigoso, povoado por inadaptados da comum das gentes da ilha. Bêbados , arruaceiros, oportunistas que obrigam os filhos a não faltar à escola para não lhes cortarem os subsídios estatais, pescadores invejosos, ladrões, piratas. Tudo isto me foi dito. Mas, a avaliar pela obrigação de mandar os filhos à escola, tenho esperança na regeneração.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D