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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

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exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

13
Abr08

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.9

samueldabo

Alberto como louco, percorrendo a Ilha, ainda na esperança de encontrar Carla com vida, em cada recanto da costa, no interior das grutas do Algar do Carvão, indiferente já, à beleza que tudo em volta exibia.

 A humidade, o sol intenso, ansiedade descontrolada, o tempo a fugir a inviabilizar o reencontro com a mulher que amava tão intensamente. Linda.

 O suor deslizava pelas faces emagrecidas. Sentia dores por todo o corpo. Dores que vinham do interior de si, da memória. Os seus passos entorpecidos pelo cansaço. O desalento a apoderar-se da razão mas a vontade, o eu ser, a comandar ainda os movimentos, a direcção.

Voltou a descer para o litoral. Algo lhe dizia, uma fixação, que era no mar que tudo podia acontecer ou ter acontecido.

Nos últimos dias, o telemóvel tocara de novo algumas vezes. Do outro lado só o silêncio, mas   pareceu-lhe ouvir o som das ondas na rebentação, um som que tão bem conhecia. O mar que tanto amava.

Alberto conduzia o carro como um autómato e mal via os outros automóveis. Fixado no lado direito da estrada. As vacas pachorrentas nos pastos, levantando a cabeça, acenando.

Mariana acabara de levantar voo, para S.Miguel , convocada por Santiago. Revia as últimas peripécias da aventura macabra em que se tinha metido. De qualquer modo não tinha nada a perder. Sorria na perspectiva de encontrar Alberto, olhar de frente , olhos nos olhos, aquele homem com quem se casara um dia. Depois, era urgente livrar-se de Santiago. Um traficante é sempre perigoso, importava-se mesmo  muito pouco pelo dinheiro envolvido.

Estes tipos das Ilhas são uns ingénuos. Pensam que têm o rei na barriga e não contam com as máfias instituídas. Os direitos arduamente instituídos.

Santiago aguardava com serenidade a chegada de Mariana, confiante que em breve sairia em liberdade. Não podiam provar nada sobre o tráfico, nem sobre o rapto. Em última instância daria os comparsas como únicos responsáveis. Apresentar-se-iam como consumidores desesperados . E quanto ao rapto, sim foram eles, queriam pedir um resgate, mas a mulher tinha fugido e não sabiam o seu paradeiro. Santiago a reconstituir os passos dos capangas. A enredar a história para que Mariana não tivesse dificuldade em transmitir as instruções aos capangas.

Alberto. Em frente o Ilhéu das Cabras. A policia marítima tinha vistoriado de perto, com os binóculos. Não viram sinais que os convencessem a subir. Era arriscado. Hoje o mar até parecia sereno, junto ao Ilhéu. A dor de cabeça. O coração arritmado . Implorando a Deus.

Parou o carro a esmo junto à freguesia de Porto Judeu. Fixou os olhos doridos no Ilhéu em frente. Aves esvoaçavam em redor, desciam ás águas, mergulhavam e voltavam a subir, Garças, Gaivotas que nidificavam por ali. O mar batendo em pedras dispersas. Alucinações acudiam ao cérebro . Imagens desconexas. O corpo esventrado de Carla. Ora uma imagem com asas, vestido branco e cânticos melodiosos. O corpo de Carla, esbelto, macio e perfumado, levitando. E viu algo que empurrado pelas ondas batia nas pedras com um ruído seco, a intervalos. Levantou-se com vigor renovado. O brilho do olhos avivado pela miragem.

Esfrega os olhos enquanto desce o declive. Não acredita. Acredita. É uma visão distorcida, mas parece um corpo apoiado numa tábua. Geme baixinho. Reclama de Deus. Sim, é um corpo. Entra pela água a tempo de evitar que uma onda mais forte atire a tábua com violência contra as pedras, ou que a afaste de vez.

Agarra a tábua, o corpo. Levanta a cabeça do corpo tombada sobre a água. É Carla, meu Deus. Grita, abraça o corpo inerte, dizendo baixinho:

-Meu amor. Meu amor. Meu amor.

O corpo está frio. Alberto não sabe nada de primeiros socorros. Deposita o corpo de Carla no chão seco e procura atabalhoadamente o telemóvel. Marca a emergência e dás a localização, com vós trémula, exaltada aos pedidos de pormenores.

O corpo de Carla na sua frente. Alberto chora convulsivamente enquanto lhe tira as roupas rotas e sujas. Golpes nos braços e pernas. O sexo, a púbis , sem fulgor, os seios, os dedos compridos a pele porosa, engelhada. fria. Veste-lhe a  roupa que trouxera. As cuecas, uma bata ou roupão, ou robe.

Os bombeiros foram os primeiros a chegar. Fizeram os exercícios aprendidos para os afogados. Tentaram reanima-la e disseram a palavra mágica, suprema felicidade.

-Está viva. Muito fraca, mas viva. É urgente levá-la para o hospital.

Alberto ouviu as palavras e tombou inanimado, vencido pela emoção e o cansaço. O carro da emergência chegou entretanto, e a policia, e alguns curiosos.

A tábua batia nas pedras e seguia a força da corrente

 

 

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