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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

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25
Dez08

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - NATAL!...

samueldabo

Todo o mês era palco de cenários imprevisiveis. Era habitual que o adversário bombardeasse os aquartelamentos nesta quadra a que dávamos  grande valor histórico e religioso.  Era uma forma de pressão psicológica sobre as nossas mentes frágeis, desgastadas pela ausência, queimadas pelo sol e pelo vinho, queimadas pela saudade, pelos sonhos adiados e os desfeitos, traídos.

Manuel António acabara de receber um montão de cartas de Alexandra, que ia passar a noite de Natal a casa dos pais dele, ela e as irmãs, a mãe e o pai. Eram palavras doces de menina apaixonada, a dar-se ares de forte, que o próximo Natal já seriam eles, ela e ele, a decidir a amplitude da festa, se romperiam as tradições...

Tinha saudades do frio, do cheiro forte e doce do cio dela, ou da menstruação que antecedia o cio, nas noites quentes de Inverno, a cabeça deitada nas pernas dela que se entreabriam e o perfumavam desse aroma subtil que que lhe revolvia a mente em momentos sonhados, apetecidos.

Em volta da parada, o aparato dos homens que aguardavam a sua vez de gravar uma mensagem de Natal, o estúdio improvisado, gente limpa, barbeada, sóbrios e aprumados nas fardas de saída, a boina castanha, o sorriso amarelado. Dizer as palavras que alguém, num tempo ainda útil, estaria vivo?...Ouviria de sua própria voz e rosto, os que eram filmados. Outros seria só a voz via rádio, que a tv era de custos mais elevados.

"Queridos pais, mulher, ou noiva, irmãos, feliz natal, nós por cá todos bem"

A Manuel António fazia confusão este "nós por cá todos bem..."porquê nós?!...Talvez porque só uma minoria tinha o tempo de o dizer e falava em nome dos outros, mesmo dos que tinham do natal uma ideia diferente, mesmo os que tinham morrido..."nós todos por cá..."

Ouve-se, nitido, o som de uma saída de morteiro. Soa o alerta geral e a formação solta-se espavorida, correndo nas diferentes direcções que todos sabiam.

Manuel antónio correu à vala mais próxima onde havia uma metralhadora pesada, a fita dourada em evidência, o pó, os impropérios em forma de grito..."filhos da puta..." Um momento de silêncio, corações apertados na caixa torácica, e o deflagrar estrondoso da ogiva de morteiro em plena parada, agora deserta.  Mais duas deflagraram fora do arame farpado da linha de defesa, uma outra em plena Tabanca.

O Major de artilharia mandou que apontassem os obuses na direcção que lhe pareceia a correcta, de onde era costume que o adversário montasse o seu sistema de fogo e sairam, pesadas e mortiferas duas e mais outras duas granadas de ferro e fogo. E fez-se silêncio, um silêncio demorado e tenso em volta e de dentro de cada um dos entricheirados.

As gravações continuaram por mais dois dias "...nós por cá todos bem..." Do ataque morreu um soldado e duas mulheres da tabanca, dois outros foram evacuados para a cidade e duas crianças, com estilhaços pouco profundos.

Manuel António escrevia a sua carta diária, e contava dos pássaros multicores, a harmonia dos sons dos seus cantos de paz, contava dos macacos que rompiam a folhagem com gritos estridentes, do seu Natal, o dela Alexandra e o dele, onde caberiam todos os Natais, não como uma festa endeusada, mas como uma manifestação de amor  colectiva, sem a magia paternalista do Pai Natal, amor são, da alma, perdurando o ano todo, e para além dum limite de tempo. Amar...Falava de amor, de como amava o corpo dela e toda  alma que se elevava no espaço para além deles. Os lábios saudosos de beijos. Os olhos de onde a profundidade..."Amo-te", escrevia e deixava que rolassem lágrimas de dentro dos seus olhos.

A noite de Natal, no quartel, foi cedo e rápida, o rancho melhorado, um cabrito "atropelado  sem querer", dada a dificuldade em compar carne aos Africanos, outro comprado, porque saíu manco do acidente. A avioneta com os víveres, bacalhau e couves, atrazara e só faria a entrega no próprio dia de Natal.

Manuel António tinha mandado vir uma encomenda com brinquedos da sobrinha, já usados e outros, para dar ás meninas da Tabanca. Esperava que viessem nesta avioneta,. Ansiava que viessem...

À justa, o alarme tocou no limite da refeição. Atropelam-se os medos, redobram os gritos, a correria aos abrigos, o estrondo dos rebentamentos, todos fora do circulo do quartel. Pequenos silêncios exasperantes entre cada rebentamento e foram dez.  As frontes latejantes.Mais um longo periodo de espera e nada. Noite alta...

 

 

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