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SamuelDabó

exercícios de escrita de dentro da alma...conhecer a alma...

SamuelDabó

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25
Fev08

O VAGABUNDO

samueldabo

O velho conceito de liberdade, o estipular que a liberdade de cada qual acaba onde começa a do outro, é uma falácia para ordenar as camadas de gente segundo um critério de conveniência.

O vagabundo é, em si próprio, um símbolo da liberdade absoluta..

O vagabundo não dá nem recebe do estado.

O vagabundo não tem dinheiro nem propriedades. Alimenta-se de sobras e da repugnância dos que o querem ver longe. Colhe o sol e a chuva, o frio, o calor e dorme ao relento no asfalto ou no abrigo de um recanto, sem medos nem sobressaltos, coberto de destroços de mantas encardidas ou folhas avulsas de jornal.

O vagabundo não aceita favores nem asilo em lares inventados à sua medida, cama, mesa e roupa lavada. A refeição quente do dia. Leis. Deveres/obrigações

Os senhores muito ricos vivem numa constante falta de liberdade. Rodeiam-se de guarda costas. Não podem saborear as mais simples alegrias da vida. Vivem fortificados em casas super vigiadas e protegem os filhos pequenos da promiscuidade pública.

Os senhores muito ricos abominam os vagabundos porque são o advento da desgraça e seguem uma vivência atulhada de medo, quando saem à rua ou se anuncia algum eminente cataclismo económico que não previram ou não puderam controlar.

O vagabundo passeia-se pelas ruas do império que os senhores ricos criaram, caga , mija e vocifera contra as barreiras de ruas em reconstrução.

O vagabundo lava-se nas bicas e lagos da cidade. Não paga água, gás , electricidade. Não usa telefone ou celular. Muito menos internet  Não paga rendas. Não paga impostos. Não utiliza os serviços da justiça. Não polui o ambiente. Não faz economias nem gera riqueza. Não joga na bolsa.

O vagabundo vê televisão sem pagar taxa e lê todos os jornais e revistas, para não perder o sentido das palavras, sem os comprar.

O vagabundo não teme o trabalho nem o desemprego. Fuma dos restos deitados à rua ou crava os passantes desprevenidos.

O vagabundo não perde tempo com o tempo. Não há passado nem futuro. É um observador atento. Não promove a guerra nem desenvolve armas de destruição maciça.

É completamente livre.

 

 

registed by: Samuel Dabó

25
Fev08

CASINO

samueldabo

Os corpos movem-se, como autómatos, num frenesim de passos decididos, ou simplesmente trôpegos . Em frente das máquinas de jogo, rostos transtornados pelas perdas da noite. Abstractos , outros, vão rodando os rolos atrevidos que teimam em não acertar as combinações, na esperança de um grito de alegria à eventual saída do prémio máximo.

Jovens de copo na mão, sorridentes,  vagueiam ao sabor da música exibida e soltam gargalhadas e gritinhos estridentes que ferem os tímpanos de velhos decrépitos colados, numa simbiose, ao objecto escolhido no momento. Olhos fixos, sem expressão definida .

Os jogadores soltam pragas e vociferam obscenidades contra as máquinas avessas. Batem nas máquinas com inusitada violência e não se magoam. Bebem e fumam sem moderação.

Filas de espera aguardam vagas. Há marcações.. Discussões porque eu já cá estava. Gritos de violência avulsa. Atropelos.

O jogador e a máquina. Acreditar que o momento é seu. A conta no banco a baixar. A violência dos danos auto infligidos já sem o domínio da razão. Ela vai dar. Vou recuperar. O multibanco que recusa a ordem. - O quê? Já atingi os quatrocentos euros?

Ultrapassado o limite diário da caixa multibanco,  há a caixa do casino.

De quem, o dinheiro? de quê?

Trabalhadores esforçados sonegam à família um conforto possível, na esperança, dizem, de obter melhores resultados. Mas também gente endinheirada, protagonistas de economias paralelas. Lavagem de dinheiro. Vicio. Dinheiros do fisco. Da Segurança Social. Dos credores a 90 dias. Das tesourarias das empresas. De empréstimos  obtidos junto de amigos ou nos agiotas. Loucos. 

Depauperados, inimigos de si próprios, fazem doze horas seguidas de exaltação, mal comendo, mas bebendo e fumando. E voltam sempre. Na tentativa vã de recuperar o irrecuperável . Incansáveis na procura do dia, do momento.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

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