Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - A RECTAGUARDA

 

 

 

 

 

 

Alexandra...o cabelo negro, forte e curto, os olhos grandes, verdes avelãs, cara oval, lábios carnudos, expressivos de sensualidade, o corpo em harmonia com a alma pura de menina apaixonada. As maminhas redondas, nem grandes nem pequenas, suficientes, botões de rosas perfumadas, como ele dizia. Sorria, os dentes alvos, certinhos, caprichosos nos arrufos, dentadinhas nas orelhas, no sexo dele quando nas noites de namoro na escuridão da rua, sentados no patamar da porta, se deleitavam de amor, excitantes de paixão de amor.

Manuel António era para ela toda a realidade de um sonho belo que a acompanhava desde a puberdade, de quando os sonhos tinham um toque de fadas míticas. Amava-o de uma forma estranha, como não amara ninguém, de dentro, de um de dentro de si que desconhecia até ele surgir na sua vida, como se fora impossível ter sido de outra forma.

É verdade que, por mais de uma vez, ardendo de um desejo voraz que ele provocava quando a acariciava nos mamilos, a vulva, os beijos aglutinadores de posse, de entrega do todo, do desconhecido adivinhado, sugerido pelas emoções que atravessavam, exaltantes, o seu sentir de mulher.

Era virgem porque era comum na época casar virgem, ser de um homem só, e ela acreditava na monogamia. Via-se de vestido branco, a grinalda sobre a cabeça, o ramo de laranjeira, a noite de núpcias com o sangue derramado sobre os lençóis.

Agora pensava que bem podia ter satisfeito os desejos de ambos, que se achava convencida pelos argumentos dele, que uma nova era estava prestes a irromper das mentalidades adormecidas por séculos de ostracismo da verdadeira dimensão do ser mulher. Sim, sentia que se operavam mudanças. Agitação em França, igualdade, fraternidade, amor livre, a libertação da mulher do jugo do homem e do lar.  A atenção que lhe davam os amigos de Manuel António, como uma igual, as amigas que ele lhe apresentara, desinibidas, libertas de  preconceitos religiosos ou de família. Por outro lado, tinha medo de engravidar, ter um filho do seu amor e ele longe, na guerra que ambos detestavam, mas que ela tinha esperança de o ter de volta. A esperança não é uma certeza, tudo pode acontecer, sabia que ambos sofriam, mas  decidiram que seria quando ele voltasse.

_Senhor Joaquim!...

Era o carteiro, um sorriso malandro, os olhos inquietos na procura do interior da mala postal.

Recebia quase sempre muitas cartas e volumosas. Manuel António escrevia todos os dias e às vezes mais de uma vez no mesmo dia. Contava pormenores da vida dos locais, falava da natureza, dos rios ou paisagens que se pareciam com as da terra, os animais e os sons misteriosos, da magia dos olhos negros das crianças, dos aromas, que a queria lá nas férias, estava a estudar uma possibilidade, uma semana que fosse.

Alexandra até gostava de estar com ele. Sentia que se tal acontecesse não resistiria aos apelos insistentes do corpo, o cheiro a mar do corpo de Manuel António, como o amava e como se sentia amada!... Mas  África não a seduzia, tinha medo, era um sentimento de abstracção absoluto. Tinha uma paranóia por Asiáticos e África.

Estávamos em Fevereiro, a noite escura, quente e soprava uma brisa forte dos lados de África, curioso, de onde soprava a brisa.

De repente, um rumor misterioso, como se falas pavorosas advindas do interior da terra se fizessem ouvir, rompendo silêncios ancestrais, as paredes da casa estremeceram, o candeeiro de petróleo sobre a mesa da sala oscilou, breves segundos, os gatos numa correria inquietante, o latir do cães, e vozes de pessoas assustadas que gritavam salmos e ave Marias. Clamavam a Deus por misericórdia. Alexandra e a família saíram para a rua. Estava apavorada e pensou que o terramoto seria pacífico. As casas tinham aguentado, talvez devido ao terreno ser de aluvião. Fazia calor e era madrugada...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

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