Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

O VELHO E A MIÚDA-ESBOÇO PARA UMA HISTÓRIA COMPRIDA

Estou exausto. Há horas que dançamos no frenesim das luzes que rodopiam em volta de nós. A música é um som longínquo, dançamos ao ritmo dos corpos que, como nós, balançam e oscilam entre si. Alguém capta o som da música e o transmite em sucessivas ondas de sensibilidade corporal.

A espaços de tempo emborcamos mais uma caipirinha. Foi a nossa escolha em simultâneo, talvez pelo, fascínio dos granulos transparentes, do acre adocicado , do leve fluido de álcool que não chega a toldar-nos de todo, nos mantém lúcidos de nós, da nossa evidência de sermos nós e não um estereótipo de nós, uma alienação incontrolável.

_ A minha mãe é uma cabra. Ás vezes penso que não me queiram, que fui um aborto falhado. Depois da minha irmã, logo eu, de novo, uma ratinha atrevida.

Peço-te que não abuses da bebida. Estou cansado e poderei não ter forças para te arrastar. E tu dás uma gargalhada. Tão bela quando te ris da forma como o fazes neste momento. Ris-te do que eu disse e do que tu disseste, da minha cara surpreendida. A mãe..

._É verdade que o meu pai não é melhor que ela. Gastaram uma pipa de massa com o meu joelho, um tipo que conheciam...cirurgião e pêras...mas os afectos, o amor intransigente pela filha que eu sou ou era, já não sei nada, não os senti. E é isso que faz de mim este ser perdido da realidade, a esmo de acasos, sem um perfil definido para ser. Sem a confiança plena para ousar transpor o rumo a que me acomodei, invertê-lo, traçar de novo uma nova hipótese.

Disseste tudo isto ao ritmo da dança. Posso ver a cicatriz do teu joelho, tão saliente  da coloração da tua pele original, sobressaindo da saia curta que trouxeste em homenagem a mim, porque gosto de te ver de saias. A roda que se move em círculos e deixa que te veja as pernas belas quase até ás coxas. O teu feminino. Seres bela no teu feminino, porque me fazes sentir belo. Viver em sintonia com a beleza.

_Ameio-o, era o homem da  minha vida. Disse mesmo para mim própria: "serás o meu marido para sempre, sinto-o." E vivemos o sonho de nos amarmos em absoluto. Senti-lo na sua totalidade, dentro de mim, em volta e por sobre o meu corpo. Os sexos a absorverem-se em êxtases de paixão.

Fazes uma pausa, os teus olhos brilhantes, os lábios húmidos. Penso que gostava de beijar os teus lábios, de os sentir saborosos em mim. Estás sentada, esplendorosa e sorridente. Os teus lábios húmidos. os joelhos a descoberto e de entre eles a cicatriz. A coberto dos corpos inclino-me e beijo-a, a pele luzidia, como uma marca indelével para toda a tua vida. As luzes esbatem no meu rosto suado e dão-me um ar fantasmagórico e tu ris, lançando o corpo para trás, sem pudor, em gargalhadas de cristal que de mistura com a música assumem um som doce e suavemente belo.

_O tipo não aguentou a responsabilidade de sermos um projecto só nosso. Talvez fossemos demasiado novos, estiquei-me, avancei um espaço de tempo que não era o adequado, saltei um hiato, atasquei-me perdida e só, porque fui muito criticada por esta minha vivência e mandaram-me desenrascar, sair dela com a mesma maturidade com que entrara.

Está abafado na sala ampla, mas repleta de corpos, de vozes e sons de músicas afrodisíacas, ou simplesmente atípicas de rótulos, porque o som não conta, o som são as batidas do álcool nas têmporas latejantes. Sugiro que saiamos um pouco para junto do rio. 

E tu vens, airosa no teu corpo de menina, tão deliciosamente bela. Há uma brisa fresca que escorre da noite e por cima de nós, toda ela imponente de luz, a Lua cheia que nos olha e parece que se ri. Posso ver os contornos que nos induzem uma expressão de mulher, porque é o que eu quero ver nela, nas sombras que traçam os olhos, a boca, o nariz.

Pergunto o que andaste a fazer pelas ruas, amargurada de quê? Quantos homens abusaram do teu corpo? Quantos te conspurcaram a alma?

_Não quis voltar para casa, ou puseram-me na rua, ou tinham-se separado, minha mãe vivia com outro homem e eu não queria coabitar com estranhos. Não sei bem, foi um período confuso, estranho e doloroso até que levantasse de novo a minha estrutura, um pouco de corpo, um pouco de alma, e persistir, inverter o sentido fatalista da coisa, da vida, sabes como é!...

E eu não sabia, ou não queria saber. O teu cabelo negro sobre os ombros de onde vislumbro a alça que o prende, ao sutiã, que segura as tuas maminhas redondas, mimosas, botões de rosa despontando do teu corpo magro. Frágeis e tão poderosas porque és tu na tua sensualidade plena e movem-se com o teu arfar, tão suavemente como a brisa fresca da madrugada sobre o rio sereno.

_Agora tenho uma casa, só minha, onde me habito com as minhas preciosidades e só entra quem eu convido, quem eu quero. Mentiria se te dissesse que não sinto a falta de um amor sério, um amor de verdade que me aquecesse nas noites frias da alma, que me impulsionasse nos momentos de desânimo.

Digo-te que sim, que sei ou sinto isso de ti, que na realidade da tua juventude, ter alguém a quem chamar amor. Teu amor. Dizeres a palavra :amo-te, é uma falta com a qual não sabemos lidar. Podemos dizê-lo em abstracto, ausentes até da presença de um outro em nós, mas poder dizê-lo e estar ali, na nossa frente alguém que nos olha, que nos surpreende a palavra na hora, ou momento em que sai, se torna uma forma de estar, de querer, de ser. Alguém que nos afaste a ideia de solidão que nos persegue. Não ter nada nem mais ninguém. Sou!...para quê, para quem? ser capaz de ser para mim, se ser eu para mim. É muito fácil de dizer aos outros. Mas não podemos abandonar-nos. Somos os últimos guardiões de nós mesmos. Somos a mola, o motor, a razão

_Achas mesmo que alguém um dia se interessará por esta pobre de Deus. Sem cheta nem um sentido estético da e para vida? Que faço eu para ter o direito, ou a benesse de ter um pouco mais de conforto, partilhar o que em mim ferve, ter filhos, experienciar que nada me afectou o sentido da maternidade, que nada me afectou o sentido de ser uma boa companhia de projecto?

Conto-te a minha história , de como tudo começou de repente e a partir de um acaso, que se calhar não era um acaso ,mas uma congeminação  de factores que criaram as empatias factuais, que nos fizeram olhar de uma forma diferente e determinada direcção. Digo-te que são incontroláveis, imprevisiveis as nuances de nos estar a acontecer o impensável, de todo em todo.

O luar sobre o teu rosto circunspecto. Peço-te que não estejas apreensiva e dou-te a mão para que retomemos o caminho de regresso. Deixar te.ei em casa como combinámos. Foi um sonho diferente, o desta noite e o rio, ao longe ainda o mar. Um dia destes levo-te no meu barco e pescaremos robalos à linha. Confia em tudo de ti, a tua sabedoria é o teu Norte.

_E como é que se faz?...Há quanto tempo não como peixe?...

A tua voz era já um fio de som em fase de abandono pelo sono. Olhei-te pelo canto do olho, tão jovem, tão bela, tão virtuosa.

Minha amiga

 

sinto-me: comunicativo
música: Danúbio Azul
publicado por samueldabo às 18:47
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