Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.8

Carla, arrancada de repente, com violência, sufocada pelo susto, num primeiro momento, logo ripostando com gritos e pancadas desferidas a esmo e sem um sentido definido, debatendo-se com quanta força possuía e era tão pouca, perante a força bruta da irracionalidade.

Deitaram-lhe um jacto frio de algo que não sabia o quê e quedou-se, inerte, o corpo oscilando nos solavancos do carro, desfigurada.

Acordou, sem saber onde estava, confusa, um ar fresco a entranhar-se na pele fina, a enroscar-se à procura de um agasalho, a boca seca, com um sabor acre a provocar-lhe agonias. O chão duro, basáltico, húmido e o ruído do mar batendo com fragor.

Lentamente foi recuperando a memória. Uma dor incómoda nas faces, no corpo e sobretudo nos pulsos. Sim estava atada com fios, ou nylon, ou corda. Tentou libertar-se, mas doía-lhe .

Decidiu gritar. Talvez alguém a ouvisse.

- AAAAAAAHHHHHH ..... AAAAAAAHHHHHHH .. AAAAAAAHHHHHHH ...

Uma pausa. Nada. Apenas o ruído do mar.

Tentou erguer-se. De onde estava via-se uma claridade difusa. Arrastou-se até à abertura daquele espaço exíguo . Mar e terra à vista. Em baixo a corrente forte fazia parecer que navegava num paquete enorme.

Voltou a sentar-se e tentou recuperar o sucedido.

Estava com Alberto, tão enlevados na descoberta dum grande amor, dizendo palavras ternas, aninhados um no outro, confiantes, entregues. Quis mudar para o lado do passeio e ele ,que não era próprio, que uma senhora quando acompanhada por um homem deveria ir protegida , do lado de dentro do passeio. E ela a esquivar-se, brincando e Zás .

Imaginava-o desesperado. Mas que sitio é este onde me encontro?

A luz difusa era o nascer da aurora que despontava, afastando as brumas para que o sol brilhasse. Carla voltou à abertura a avaliar o lugar. Sim era isso, estava no Ilhéu das Cabras.

Podia atirar-se à água, deixar que a corrente a arrastasse até terra, por milagre ou força oculta da natureza. Mas para isso teria de libertar-se da atadura. Como estava, seria uma morte certa.

Tentou arranjar uma saliência que servisse de fio cortante, mas só consegui ferir-se ainda mais. Os pulsos, ambos os pulsos, um ardor a arrancar-lhe gemidos.

Procurou uma posição mais ao jeito do corpo. Sentia-se fraca e desalentada. Num momento, a hipótese que iria morrer ali sem que ninguém desse por isso, assaltou-a. Desfaleceu, não sabe bem. Nem comer, nem água. O corpo dorido também por dentro, como se abrissem veios para a expurgarem do melhor que tinha. A vida. Sim amava a vida.

Quando voltou a si, o ponto luminoso tinha desaparecido. Voltou a gritar com quanta força ainda tinha. Nada.

Sentia os braços dormentes. Fome. Sede. Há quanto tempo estaria ali? Moveu-se, mudou de posição tacteando uma aresta, e outra. Tentou mais uma vez romper as amarras que se envolviam na sua carne. Insistiu, insistiu, insistiu. Fez um último esforço a ver o efeito e pronto, já está. Esfregou lentamente os braços e os pulsos. Tinha golpes com alguma profundidade, o sangue ainda vivo. Alberto, meu amor.

Levantou-se e mirou o seu corpo, sujo, nojento. Defecara, urinara enquanto amarrada, o pó, o suor. Evocou o Senhor Santo Cristo, O Divino Espírito Santo, Maria Vieira a mártir Virgem, canonizada pelo povo. a Arranjar forças, sem compreender ainda qual o objectivo de estar ali. Quem poderia querer-lhe tanto mal.

Relembrou a história duma amiga do Continente que tinha ido à praia com a irmã, em Carcavelos. E de como caíram nuns remoinhos de água que as arrastava sem que ninguém desse por nada. Lutaram contra as correntes. Lutaram. A irmã dizendo que a deixasse e se salvasse ela. Mas não, foi-lhe alimentando a esperança.

-Nada, nada que vamos conseguir.

E conseguiram. Desfalecidas e sós. Ninguém dera por nada.

Carla foi-se deixando escorregar pelas rochas do Ilhéu e mergulhou parte do corpo na água fria. Uma tábua grande, errante, aportara com a corrente. Podia sentir o fluxo da água arrastando as pernas. Tentou chegar à tábua  que batia na rocha e fugia no ímpeto da ondulação. Os olhos na tábua. A mão que se apoiava na pedra a deslizar. Num último esforço, soerguendo-se e num impulso, conseguiu agarrar a tábua. Depois, fincou os pés na rocha e impulsionou-se a tentar sair do raio de atracção do Ilhéu. Fez várias tentativas e nada. Começou a sentir frio, a roupa colada ao corpo. O Sol no pino da trajectória. Um último esforço, a conjugação com um momento de acalmia e viu-se arrastada em zigue zagues vertiginosos. A Ilha e o Ilhéu, o Sol. num rodopio enlouquecedor . Alberto, meu amor. Alberto, meu amor.

 

 

Registed by: Samuel Dabó

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publicado por samueldabo às 22:10
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