Sábado, 5 de Abril de 2008

PAIXÃO EM ANGRA DO HEROÍSMO . Cont.6

Mariana, jovem advogada, filha única de uma família de classe média, sabia-se possessiva e com desejos inexplicáveis de posse. O que era seu. Partilhar nada. Só o que fosse possível colher quando ela própria se expandia em acessos de verdadeira loucura apaixonada.

Sabia-se bonita e cultivava a aparência , ultrapassando qualquer que fosse o obstáculo, por mais difícil .

Na barra do tribunal, não se coibia de humilhar colegas e arguidos com um sorriso arguto, por vezes sarcástica, senhora que era de influências importantes no meio judicial e da investigação.

Olhos castanhos claros, rasgados num rosto moreno, bem maquilhada, os lábios de um rosa exuberante, cabelos castanhos em revolução, caracóis , farripas ao vento.

Gostava de sessões exaltantes e prolongadas de sexo.

Alguém lhe dissera um dia que era hipersensível , ninfomaníaca ...

Tinha conhecido Alberto nas idas à livraria. A forma apaixonada como ele falava de livros e autores A presença afável, atenciosa, os olhos que a hipnotizavam . O corpo , másculo. Mas sobretudo a voz. O espírito inocente quando lhe dizia que só casava com uma mulher virgem. Quanto muito, semi -virgem. E ela rira-se divertida.

-O que é isso de semi --virgem?

Perguntara maliciosamente, na iminência de o encurralar .

E ele, Alberto, a voz trémula, quente, indiciando vergonha.

-Uma pessoa que não tenha tido relações sexuais há pelo menos doze meses, é, para mim, semi virgem. É como se fora a primeira vez. Pode até ser considerado um fetiche.

E de como ela lhe mentia, porque a entusiasmava mentir-lhe, quando ele falava na teoria do amor absoluto. Amarem-se como um só.

Mariana. A sala vazia. A passar em memória lenta, os curtos meses de casamento com Alberto, que desaparecera.  O empregado da livraria disse que ele fora para a Ilha. Qual Ilha?

Os momentos de grande excitação sexual. Não podia queixar-se. Aí ele cumprira. As discussões quase diárias e ela sem vontade de se esforçar, como ele queria, para alcançarem um traço de união, uma consubstanciação de valores comuns.

E, por fim, esse caso absurdo do irmão dele. Meteu-se na droga? Que se safe. Não era ela que iria manchar a sua reputação, por um caso perdido

Agora trocara-a por uma ilhoa , soubera ontem, e isso não lhe perdoava.

Assinara o divórcio, sem complicar, porque também ela queria sentir-se livre, desimpedida.

Conhecera Santiago, um jovem elegante, físico poderoso, másculo, a respirar sensualidade, num julgamento por tráfico de droga. Conseguira a absolvição graças aos seus argumentos dilatórios e a outros atributos.

Festejaram, no quarto do hotel onde ele se hospedara. Foi uma noite de exaustão a raiar um sadomasoquismo mutuo. Exaltante.

Ficou a saber que Santiago era de S. Miguel, divorciado e que alimentava vingar-se do que ele dizia ser uma traição pós traumática. A ex mulher andava de amores com um tal Alberto do Continente.

Mariana ficou estupefacta. Também ela, agora, com um ilhéu, para si era suficiente, como amor próprio, como vingança.

- Se nós aparecêssemos por lá, ligados, em apoteose.

Santiago olhou-a fixamente, avaliando a recepção dela. O até onde estaria disposta a ir.

-Não, eu tenho um plano que vou pôr em prática quando regressar, mas preciso de apoio jurídico , um apoio interessado, engajado.

E foi descrevendo, com minúcia, como pensava raptá-la, Carla. A ele não importava Alberto. Mas a morte de Carla, uma morte acidental que não o comprometesse, instalara-se na sua mente.

Para Mariana ficou claro que a morte de Carla afectaria profundamente Alberto. Senti-lo a sofrer. Vivo. Visitá-lo na livraria. Fixa-lo  na sua solidão. Provocá-lo.

-Está bem. Dou o meu acordo, isto é, podes contar com a minha colaboração jurídica . Também eu não quero saber dessa vaca para nada, não me aquece nem arrefece a sua morte, mas quanto ao que restar de Alberto, pago para assistir.

E Santiago a explicar o plano, de como tinham cavado uma gruta no Ilhéu das cabras, lugar ermo e frio, a poucos metros da costa, As correntes fortes. O rapto a acontecer em Angra, aproveitando o hábito que eles tinham de se passear à noite, sozinhos , distraídos, confiantes. E  transportá-la para o Ilhéu onde, sem comer e beber, nem os ossos ficarão por vestígio . Os olhos brilhantes com laivos de sangue. Um sorriso malandro nos lábios cerrados, finos, mas belo, no seu conjunto. E voltaram a envolver-se demoníacamente, sedentos de alcançar o inacessivel. Mentes perturbadas.

 

 

sinto-me: comunicativo
música: Marcha fúnebre
publicado por samueldabo às 17:43
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