Sexta-feira, 28 de Setembro de 2012

SER AVÔ



imagem pública tirada da net

*

SER AVÔ

**


ah se eu pudera

ser avô

de todas as crianças

que não têm

por troca de sorrisos

um mimo

um gesto infantil

ouvir seus gritos

de mágicas surpresas

e correr

a fingir que estou cansado

deixar-me apanhar

sentir seus prazeres pelo triunfo

a incitá-los 

para que ousem vencer

sem medos

e aplaudir sempre de pé

o serem capazes

olhar seus olhos inocentes

confiantes

*

Helena ao longe já me sorri

teu sorriso lindo

de menina tão bela e mimosa

mal nascera

internada por doença

ficou tímida

indecisa mas atenta

tão depressa

de botão se fez aberta flor

a desabrochar

abriu pétalas fez-se à liberdade

encantadora

avô empurra para eu baloiçar

a rir-se ladina

quando deixo que no balanço

me toque com os pés

quando o baloiço vem veloz

a parecer que vai voar

menina de esperança princesa

como estás crescida

*

os meus olhos não páram

sou avô mesmo

o Pedro é terrível esconde-se

a Leonor afoita-se

temo que caiam se magoem

a repartir-me

são tantas as crianças

parecem pardais

em voos rasantes a pipilar

Matilde Constança

Francisco Pedro Leonor Sofia

Maria Margarida

e bebés que me olham a pedir

um afago de olhar

um gesto que transmita confiança

Mafalda Mariana

está bem eu empresto-te

o meu avô

diz o Pedro com ar malandro

a mostrar-me

o que já sabe fazer em equilíbrio

*

avô sim Leonor

já viste o que já sou capaz?

vá repete quero ver

e ela meu orgulho de menina

tão crescida

são ciúmes partilhados

de me verem ela e ele

disputado por meninas e meninos

um parque cheio

dos sorrisos mais lindos

da humanidade 

escondidas toca e foge correrias

histórias de plantas

de animais o pombo a lagartixa

os melros a saltitar

cães gatos e choros aflitos

de medos ou quedas

ser avô sei agora eu não sabia

de todas as crianças eu quisera


autor: jrg
sinto-me: encantado
música: atirei com o pau ao gato...
publicado por samueldabo às 00:44
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

NAS ASAS DA POESIA!



imagem do autor

***

NAS ASAS DA POESIA

**

da janela da casa

pela manhã

a que deita para o quintal

onde a dona Júlia

solitária estende a roupa

e os gatos namoram

ao entardecer

vejo a parede de silêncio

com um buraco

antes de evasão de fumos

onde um par de aves

apaixonadas 

vão fazer dele seu ninho

sinais de pura magia

que ainda aqui há gente ou vida

o outro sou eu a sonhar


jrg
sinto-me: na terra dos sonhos
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por samueldabo às 12:31
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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

MEU POVO ENXOVALHADO !!!




imagem pública tirada da net

**

MEU POVO ENXOVALHADO !!!

***

quem dera

que aquele rouxinol

ali daquela gaiola

cantasse enquanto espera

que surja de novo o sol

abra as pétalas a papoila

.

quem dera

que ao piar a coruja

na noite escura

se assustasse a severa

cobra que a intruja

rastejando a terra dura

.

quem dera

prendessem aquele ladrão

ali em sua poltrona

pelo crime que então fizera

de roubar o pobretão

nem mais pão nem azeitona

.

quem dera

o melro alegre cantasse

no restolho a joeirar

lá onde o homem pondera

em sua alma a catarse

dum mundo novo a pairar

.

quem dera

daquelas raízes brotassem

plantas flores belas

onde o ladrão as perdera

e dos frutos que medrassem

saíssem alvas estrelas

.

quem dera

que o crime do criminoso

fosse a bom julgamento

com justiça pois pudera

ser do povo o mais vexoso

fruto caído do vento

.

quem dera

aquela pomba arrulhando

num ombro de mulher

de tão branca que eu quisera

na paz dela mergulhando

ver a esperança amanhecer

.

quem dera

ter nascido entre primeiros

que meu grito aturdisse

entre bichos e plantas nova era

de quem somos pioneiros

do ventre feminino já o disse

.

quem dera

o pesadelo desta vigarice

que rouba a alma de meu povo

em sonho meu houvera

de resgatar o seu valor e visse

o fim deste viciado jogo

.

quem dera

aquela andorinha adejasse

sôfrega de carinho e amor

sobre o novo tempo ou Primavera

onde um sorriso encantasse

nos olhos duma criança o fulgor


autor: jrg
sinto-me: esperança
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por samueldabo às 20:34
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

EPITÁFIO - (para a PAULA)



imagem pública tirada da net

*

EPITÁFIO

(para Paula)

*

juntam-se à despedida

no silêncio apenas

a morte

trocam olhares demências

cada um em seu drama

a pensar

*

amigos conhecidos família

ligados por um fio

o sangue

ou a memória das vidas

que foram um dia

o tempo

*

a decompor-se nos vermes

o corpo jaz ali morto

vegetal

que antes repartiam entre si

interstícios da carne

nas orgias


*

a persistência do mistério

na homilia do padre

morrer

a encomenda das palavras

faz-se tarde a morte 

já partiu

*

terá rondado alguém eu tu

o gato preto ronrona

porquê

tanta disputa tanto ódio

fétido cheiro tétrico

quem era?

*

foi de repente adormeceu

terá deixado algo

por fazer

uma sentença um desejo

uma memória dizer

não quero

*

tristes e indizíveis actos

rostos desnoitados

funerários

carregam a urna deitado

um corpo sem alma

amortalhado

*

segue o cortejo lentidão

servil ao protocolo

quem era ..é

o som cavo da terra tapa

flores que me cobrem

olhares

*

cada um regressa ao sitio

o corpo manchado

ali fica

embebido na arenosa terra

com flores a murcharem

da vida


autor: jrg
sinto-me:
música: Sacra
publicado por samueldabo às 20:14
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

POEMA LIVRE AO PRIMEIRO MINISTRO DE PORTUGAL!!!

imagem pública tirada da net
**
POEMA LIVRE AO PRIMEIRO
MINISTRO DE PORTUGAL!!!
«««//»»»
mesmo o ladrão mais insensível
tem seu código de conduta
nos idosos indefesos não se toca
se o ladrãozeco desprezível
a coberto de leis de que desfruta
ousar roubar a uma velhota
o produto da poupança é incrível
*
eu podia imolar-me pelo fogo
ou acampar à fome em frente ao seu reduto
mas nada disso redime a cobardia
por isso resisto com a palavra entro no jogo
recuso ser cobaia ou contributo
para matar um país nobre o meu em agonia
vitima indignado pelo seu roubo
*
até aqui lhe perdoavam os acólitos
e outros ratoneiros imorais
mas o vício de roubar está ao rubro
vê-se nos seus olhos eólicos
e no vinco dos seus lábios infernais
que espero findem em Outubro
pelos rumores de revolta já eufóricos
*
o senhor vendeu a alma a mafarricos
dum povo que jurou servir
travestiu-se de Zé do telhado inverso
rouba aos pobres e dá aos ricos
está-se lixando que o país esteja a ruir
rumina leis de dia à noite faz sexo
e anuncia que ainda há mais sacrifícios
*
estava na cara do tempo seu ar rapace
bem sei que é intermediário
o senhor é o Conde Andeiro nesta crise
ao serviço da usura dá a face
vendendo ao desbarato o nosso erário
é incapaz a resolver uma chatice
sem roubar quem não tem o que sobrasse
*
mas o senhor é também frágil por demência
ninguém lhe diz a figura triste
que faz quando se ri ao aprovar medidas
que toda a gente vê em consciência
que remetem para o degredo quem resiste
e para a cova funda quem tem dividas
digo-lhe eu o senhor é um canalha em evidência
*
o senhor é um predador um cruel tirano
prestes a derreter sob a cinza da sua devastação
tem pés de barro como todos os tiranos
eu sou do povo massacrado pelo seu ideal insano
ergo a minha voz a alma o coração
não ficará impune exigimos a reparação dos danos
e damos a escolher: exílio ou guano
*
porque a sua ambição é destruir uma Nação
usando o facho incendiário
como Nero destruiu Roma enlouquecido
custe o que custar fraca visão
ele via vultos o senhor é cruel e solitário
ouça o recado do vento enraivecido
não espero que s'arrependa quero a sua rendição
*
autor: jrg
sinto-me: indignado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por samueldabo às 23:04
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

O ACTO DA CRIAÇÃO LITERÁRIA E O SILÊNCIO!...


imagem pública tirada da net

*

O ACTO DA CRIAÇÃO LITERÁRIA E O SILÊNCIO


**


podias ser 
a minha fonte d'inspiração
e não este meu grito
a desfazer o som opaco do silêncio
que me estilhaça o pensamento
como pode alguém ser da arte criador
se interrompido quando pensa
para acudir aos teus afagos e desejos?
*
há quem pense
por entre os murmúrios do café
ou na roda viva duma orgia
mas não é a mesma coisa meu amor
rasgar o silêncio do alarido
de pensamento livre e acintoso
ou ouvir o teu gemido
a martelar a cadeia de pensar
*
não se trata aqui to digo
de mãos dadas caminhando ao luar
de que te cales ou vás
porque o teu grito nem a morte cala
só eu de mim posso calar
em cada hiato de tempo que houver
mas não me digas nada
quando o meu silêncio te silenciar
*
o dilema é não saber
quando o pensamento irrompe a adejar
sobre a ideia a amanhecer
a alma fica em êxtase não dá para mudar
acredita que te amo podes crer
porque o amor é o grito maior a ecoar
na mudez da mente a fornecer
os dados à ideia pronta a zarpar
*
e és mesmo sem querer
a musa o mito que me desencaminha
desde as profundezas do mar
a revolução do pensamento permanente
que faz o silêncio em mim gritar
ao som do teu dizer estou aqui e sou alguém
a que o silêncio não pode calar
por mais que a criação teime em ser momento
*
autor: jrg

sinto-me: silêncio
música: fui à beira do mar-zeca afonso
publicado por samueldabo às 00:47
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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

ABISMOS DA POESIA...

imagem pública tirada da net

**

ABISMOS DA POESIA

«««//»»»

 

poetas são loucos finos
inventam a fantasia
guerreiros inda meninos
abismos da poesia

poetisa de alma sensível
em verso cheio de luz
qual militar sendo cível
lança poemas seduz

cantam de musas amores
sonham imortalidade
poetisas sábios rumores
no ventre da verdade

trago um cálice de vinho
para a orgia da ceia
não quero rimar sozinho
antes preso a tua teia

poetas são anjos desgraça
travam rixas graciosas
não escolhem arma ou praça
calam musas preciosas

que fazer perante a poesia
se a alma sente e gera
palavras agridoce maresia
amores do corpo à espera

quem na humildade se esmera
e numa poetisa se arrima
tem alma poética e pondera
sublima-la em obra prima

Autor: J.R.G.

sinto-me: poesia
música: pombas-zeca afonso
publicado por samueldabo às 10:39
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