Domingo, 25 de Janeiro de 2009

BATATAS FRITAS - MEMÓRIAS DA GUERRA

Do regresso da cidade, a lancha aportou a um aquartelamento intermédio, porque viajar de noite não era aconselhável. Qualquer luz seria um alvo fácil, ou porque a tropa não estava disposta a horas extraordinárias.

Manuel António encontrou um amigo, um condiscipulo de escola de vila, de pescarias no juncal junto ás dunas. Há quanto tempo? Uma eternidade todo o curto tempo decorrido e ainda o fim não se pressentia, se é que havia fim ou tempo, ou apenas o verde das arvores frondosas palmeira que respiravam do alto de onde talvez se visse o mundo, o outro mundo de onde viera e deixara uma parte importante da alma.

Partiriam de manhã ás 6. Passou o dia em volta do rio, as crianças brincavam com canas, pequenos pedaços de madeira que serviam de barcos, corriam sem sentido em volta de si, em volta dum tempo que tardava. As barrigas inchadas sobressaindo do corpo esquelético. Os olhos de um escuro de abismos recônditos. As carapinhas sem brilho, cobertas de poeira, de terra amarela .

Comeu ostras, bebeu vinho, conversou até tarde e adormeceu na cama que lhe destinaram.

Acordou já o dia ia alto, o coração palpitante, tivera pesadelos, mortes, a sua própria morte e a aflição para sair da morte,  o debater do corpo, ou não, seria a alma, porque ele via o corpo envolto na mortalha, um pano imenso, branco,  manchas de sangue e vultos que se guerreavam na disputa do corpo dele e algo, uma força que se colava ao corpo, que se pressentia nele e de repente um dos vultos desvia-se da alma e corre para o corpo, para o cortar, o dividir...foi quando acordou, se mexeu, se procurou ainda imerso na névoa do sono e viu que  era dia de sol nascido, correu à porta e já não viu a lancha da Marinha que o levaria a casa, à sua casa de ali, de estar longe.

O coração bateu com mais força, suou, temeu-se de ser castigado, dado como desertor, julgado em conselho de guerra, condenado.

Lembrava-se dum camarada que abateu um jagudi. Os jagudis eram abutres preservados como reserva animal natural e preciosa. Eram uma aves de porte altivo, insensível, que espreitavam na copa das árvores uma oportunidade de corpo apodrecido. Evitavam a decomposição dos corpos  a céu aberto. As cabeças enormes, depenadas, os bicos curvos, poderosos. Os olhos sobressaídos, sanguinários. Constituíam uma visão tétrica do ambiente. Dera-lhe um tiro, um só tiro e a ave enorme abateu-se no solo.

Foi condenado a um mês de prisão e aumento do tempo de permanência. Vi o choro dele, convulsivo, quando recolhia à cela.

Manuel António, fez um gesto largo com os braços e apresentou-se ao capitão, que adormecera, se esqueceu de pedir a alguém que o acordasse, a quem?

O Capitão mandou informação para o outro quartel e ficou resolvido que iria na próxima lancha, mas só havia outra dentro de seis dias. Sem castigos...

Os dias passados sem nada para fazer, ás voltas em volta do quartel , as brincadeiras dos miúdos sempre iguais, monótonas, apenas os ritmos do pilão o distraíam um pouco. O batuque e a cantoria. O amigo convidava-o para comer ostras. os dias iam compridos dilaceravam-lhe a saudade. Alexandra. Podia apenas mandar-lhe os aerogramas, cartas oficiais oferecidas, mas curtas para o tanto que queria escrever. Estava doente com paludismo. Febre, enjoos, alucinações..

 

"Meu amor, minha vida.

Fiquei retido neste aquartelamento porque adormeci. O meu cérebro, a minha alma, não param de me recriminar por este deslize. Estar lá, no local onde estão as minhas coisas, as nossas coisa, e os amigos que são uma família que já não dispenso. As tuas fotos estão lá, não vou receber as tuas cartas de uma semana inteira, eu escrevo-te daqui e vais sabendo noticias, eu lerei todas juntas quando regressar.

Apanhei paludismo. Isto é irritante e deixa-me carente de mimos, estares aqui e poder mexer nas tuas maminhas, cheirar tudo de ti, meu amor. tenho o cheiro do teu sexo nas minhas narinas, não suporto isto sem o teu cheiro. És toda e tudo na minha vida e eu amo-te e quero viver para ti, para o momento sublime do nosso reencontro...

Esteve três dias na cama, febre e vómitos, enjoos ao cheiro da comida, nem a sopa, apenas rodelas de ananás em calda e água. Água para tomar os comprimidos de quinino. A imagem de Alexandra, tão linda de dentro dele em delírio, o cabelo curto, negro o rosto redondo e os olhos grandes, belos e tão brilhantes de amor. O corpo dela , corpo miúdo, airoso, o andar dela. Tudo nela o encantava, mas o cheiro, o aroma do sexo excitado pelas carícias dos seus dedos.

A lancha partia no dia seguinte, ás seis da manhã. Pediu a vários, aos sentinelas que seriam rendidos a essa hora, que o acordassem.

A lancha de cor cinzenta tinha uma tripulação de seis homens, com o comandante. Uma metralhadora pesada de balas  tracejantes. Tudo era cinzento, um cinza azulado. Chegariam a meio da tarde.

Manuel António estava mais magro, os três dias sem comer praticamente nada, por fim até enjoara as rodelas de ananás em calda, apenas a água. Sentia fome, uma fome sem sustentação e foi comendo da ração de combate que lhe haviam distribuído.

Era ele e outro, da tropa geral, tropa macaca, encostados à proa chata da lancha. Em frente os marinheiros sob uma espécie de coberta  a prepararem o almoço.

Manuel António, os olhos fixos nos preparos, no tipo de comida, o fogão com uma frigideira onde colocaram batatas a fritar.

Á medida que iam fritando as batatas exalavam um aroma conhecido há muito refundido na memória. Batatas fritas!...

Os marinheiros olhavam na direcção deles, os dois da macaca que mastigavam o sem sabor da ração de concentrados. Os olhos fixos na distância que os separava 6 a 7 metros, talvez, olhos que não se liam. O cheiro a batatas fritas intenso.

_Talvez eles nos ofereçam de comer, somos só dois...

_Talvez...disse Manuel António.

Os outros foram comendo o delicioso repasto. A lancha navegava pelo meio do rio por entre a luxuriosa vegetação de ambas as margens. Ás vezes soltavam gargalhadas. O sol a pique queimava. Os olhos amorteciam a ilusão de comer algo que não comiam há muitos meses. Batatas fritas...mas não comeram

 

 

sinto-me: meditativo
música: A garrafa vazia/ de Manuel Maria
publicado por samueldabo às 02:42
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Domingo, 4 de Janeiro de 2009

SEDUÇÃO PRÉ-NUPCIAL

"Na cama que fizeres te deitarás", era  assim, a mãe autoritária, céptica, a dizer como um ferrete, uma maldição, um aviso que percorria o corpo, a mente e inibia na hora de sentir, de desejar,o deleite das aventuras sexuais antes do casamento, se queria ir de branco, o ramo de laranjeira,as grinaldas, o festim da igreja engalanada e a marcha nupcial. E sobretudo, não ser falada pelo outros, andar nas bocas do povo.

Eram colegas no escritório e ela ia casar daí a dias. Uma mulher na casa dos 28, já no limite da idade casadoira, limite a partir do qual uma mulher poderia ficar solteirona. Morena, estatura média,um rosto assimétrico,de onde sobressaiam uns olhos grandes, luminosos, denotando ansiedade, malicia sedutora e os dentes que não se usava corrigir, salientes sob os lábios carnudos, viçosos e virgens de beijos fogosos, à cinema, porque o namorado era púdico, de educação seráfica e achava que a posse total seria só dpois de oficializado o acto público da consagração.

Ele, o colega de anos de convivio, de trocas de piropos gentis, 18 anos, um jovem saído da puberdade, um imberbe que não atingira ainda a idade da razão, da emancipação oficial, uns olhos lindos, castanhos, leais, quase diria inocentes,um corpo a cheirar a homem, os lábios virgens de beijos, desimpedido de namoros, que não namorara até então, que se sentia preterido pelas raparigas em detrimento de outros mais afoitos, ou mais experimentados.

Há muito que se sentiam cumplices de toques provocados no decorrer do serviço em que se entrosavam as caracteristicas de cada um. Ela dactilógrafa, ele arquivista. Ela em pé debruçada sobre ele, por detrás dele, sentado, as mamas roçando os ombros dele, duras,estremecentes de sentires estranhos, fogosos, a levantar sonhos de noites atormentadas pelo desejo. Ele tenso, a absorver todo o fogo bom, inebriente que sentia, do corpo dela que não sendo o seu tipo de mulher inventado na solidão em que se questionava de ser possivel amar, um amor sublime de paixão, uma mulher inteligente, bela, linda que fizesse brilhar a tristeza em que se  sentia mergulhado.

Ela, sentindo que ele tremia, que soltava energias, que não se manifestava, confiante na sua discrição, aventurando-e, esfregando-se, movia-se em volta, dava indicações,a saia rodada vermelho de fundo sob flores coloridas, o sexo dela sobre o braço em posição de cunha, e ele a sentir como que um vale, uma depressão que não conhecia,uma sensação absolutamente nova que não experimentaria de sua iniciativa por vergonha, timididez congénita. Finda a explicação, teria ela tido um orgasmo? ele sentia-se húmido, o sexo que ele conhecia bem de se masturbar no silêncio das casas de banho,demasiado grande para que não se notasse, saliente sob as calças, dorido, escondido. Ela dava uma volta sobre si mesma , repentina e iá-se, corada, os olhos mais brilhantes ainda, a voz trémula que dizia,.

_Pronto, meu lindo, se tiveres dúvidas,pergunta-me...

Ele seguia-a com os olhos doces, a aspirar e a reter o cheiro bom que vinha dela, um cheiro extasiante, de onde? dela, mas de que parte dela?...Intenso...

E lembrava-se dos cheiros parecidos, todos diferentes, mas parecidos, quando subia os degraus do eléctrico, ele atrás, a  mulher de saias curtas, jovem, abrindo as pernas para subir, não de todas as mulheres, mas de uma ou outra, num momento...O cheiro a sexo.

E era esse cheiro intenso, quente, adocicado, apelativo de desejos de se consubstanciar nela mulher, ou só no sexo, como uma entidade autónoma do corpo, apenas o sexo e os seus odores.

Ele aproveitara o espaço grande da hora do almoço para se isolar na casa da repografia, onde só ele era costume entrar,  prmanecer, embora as colegas o visitassem quando tinham uma urgência de reprodução de cópias a stencil, ou por um trabalho que demorava.Era uma hora boa para se masturbar, a porta fechada por dentro ,porque era um dia em que quase se sentia enlouquecer, parecia quetodas as colegas mais novas tinham uma luz estranha nos olhos e o  olhavam gulosas, falando alto no silêncio do olhar, as saias rodadas que expandiam odores, os odores fatidicos que o exaltavam, que se perdiam no seu interior labirintico.

E ela veio,os olhos muito salientes, de fora das órbitras,os dentes brancos saídos dos lábios num sorriso de malicia, o vestido de tons verdes, flores brancas e amarelas sobre o verde mar, as mamas empinadas, sob o espartilho do sutiã. Entrou, fechou a porta e colocou-se na frente dele, a oferecer-se e ele quieto perante o absurdo da situação, absurdo para si  que se julgava preterido, que não sentia amor, afeição, que não a tinha como o seu perfil de mulher.

_Quero que me beijes. Nunca beijaste uma mulher?

Ele sem saber o que fazer. Sim era verdade, não beijara ainda uns lábios de mulher, nunca tivera alguém nos seus braços, apenas  o roçagar dos copos em momentos de acaso.

Ela abraçou-o e beijou-o nos lábios. Ele sentio um calafrio, uma ânsia de a ter total, sem saber como,a esfregar-se no corpo dela, as mamas duras no seu peito, os lábios nos lábos e ela a dizer-lhe que abrisse a boca ,que a deixasse chupar-lhe a lingua, que ele chupasse a dela, que se deixasse envolver nos movimentos de dentro da boca, como ela fazia, como ela se expandia nele e deixou-se cair no soalho de tábuas compridas, fogosa, delirante e ele a mexer-lhe no corpo,a atrever-se, as mamas dolorosamente duras , a querer tocar-lhe na carne, os mamilos e ela parou, que não, nada de carne, só os beijos, podia mexer-lhe por fora, do lado de cima da roupa e ele a navegar o corpo dela, as coxas. Os beijos exaltantes, O corpo dele sobre o corpo dela, o seu sexo , perdida a vergonha, sobre o sexo dela, retido entre a roupa, as cuecas babadas ,pegajosas,do lado de fora dela, por sobre o vestido, apenas a forma adivinhada, o contacto dos sexos adivinhados, sentidos, o aroma de dentro dela a envolvê-lo total , as mãos nas coxas, a tentar descer ao sexo dela, sentir o sexo dela, um sexo pela primeira vez, na ponta dos dedos, talvez masturbar-se nela, entrar num sexo , desvirginar-se...sentiu o sexo dela ,sob o vestido e as cuecas, um vale de deslumbrante prazer, por segundos....

E foi quando ela súbitamente se colocou de pé, um olhar reprovador, a dizer-lhe que estava noiva, que ia casar, que não a tomasse por leviana, que não contasse nada a ninguém, a chorar,mas que o namorado nunca a beijara como ela gostava, como eles se tinham beijado naquele instante, que se atrevera porque confiara nele, porque também sentia nele o desejo, mas era apenas um beijo total, inteiro o que queria dele. Era virgem e ia casar virgem dentro de dias.

E ele, surpreendido de todo, a prometer-lhe o seu silêncio, a acariciar-lhe os cabelos negros, curtos, arredondados sobre os ombros.

A olhar a saia que se movimentava movida pela aragem da passada, os passos dela em volta do seu olhar pasmado, ainda a interiorizar-se, se fora sonho ou realidade.

 

sinto-me: romântico
música: A Barca da Fantasia. Teresa Salgueiro
publicado por samueldabo às 11:56
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