Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

MEMÓRIAS DA GUERRA-GANDEMBEL

 

Era manhã cedo como de costume e o sol ainda se ocultava nas brumas da aurora fresca e húmida que não tardaria em transformar-se numa fornalha irritante, tanto faz que houvesse sombra. O ar rarefeito. Os mosquitos sedentos volteando à volta do pescoço, à espera das primeiras gotículas de suor.

Hoje tocara-lhe a ele, Manuel António, picar a estrada de areia amarela e poeirenta. A estrada que tomava o nome de picada, não sei ser por ter sido tantas vezes perfurada pelas varas metálicas, pontiagudas que tremiam, por vezes, nas  mãos morenas de jovens de olhar estático e cortante.

O rumo, a rota, o destino, era em frente, seguindo a estrada sangrenta. Só o comandante da coluna sabia. Os guias negros da milícia, eram informados na hora da partida. A longa fila de camiões GMC, carregados de viveres. De armas e munições. Esperança e morte. De quê? De quem? O ruído dos motores, o cheiro do gasóleo, a suor, a fumo que vinha da Tabanka. Os olhares que escondiam mistérios dos meninos negros e de negro. Os dentes brancos, cuspindo no chão à nossa passagem.

Manuel António sente o coração bater desordenado. As têmporas já latejam e doem. Os olhos febris que olham em redor e não vêm. A alma inquieta. Uma perna, os testículos, o corpo a alma, ou só um dos pés. Tudo era possivel dependendo de ser uma mina anti-pessoal ou um fornilho anti carro. No caso do fornilho nem a alma escapava. Tudo feito em merda, como o Dabó, o grande comandante milícia que dera a vida por eles, por ele.

A coluna inicia a marcha a passo lesto até alcançar o ponto limite onde a segurança é feita com o coração.

O grupo da frente são uns dez soldados de varas de aço ás costas, como se foram enxadas. Conversam entre si, à procura de descontrair os nervos à flor da pele. Não tremer. Não pensar.

A picada tem curvas e grandes árvores ladeiam-na de um e outro lado. Em cada uma das bermas seguem em fila os homens de verde salpicados de castanho. No meio os camiões e os dez condenados da linha da frente. É uma linha silenciosa e cada um remete-se à sua solidão de si, para si. A vara espeta a terra, se está rija um pé no local da picada e pica mais à frente, e o outro pé avança.. São poucos mas longos os quilómetros a vencer.

Pica, pé, pica outro pé. Pica pé, pica outro pé. pica, pé, pica outro pé. Interminável.

Manuel António está tenso e pensa em Cristina, a bela Cristina que o espera inteiro. Não deve pensar , mas pensa. Não pode pensar, mas pensa. Pé ante pé. pensa.

Cristina dissera.lhe, lábios nos lábios que ele ia voltar. Cerejas, sim, eram cerejas os sabores dos lábios dela. Vermelhas. Mas vermelho é morte. E o outro de si, mas também é vida. A morte e a vida na consciência de um acto de picagem de terra batida ou remexida. Atenção. A dureza pode ser um embuste. Se houver um fornilho estou feito. Podem colocar a mina com antecedência, regá-la com mijo, deixar que endureça.

O sol já marcha e não corre aragem. Mosquitos. Cristina. Gritar a angústia, o medo. Dizer não, saltar o muro de silêncio. Os macacos riem-se? Ou gritam espavoridos? Ele, eles,  macacos domesticados por Deus, ou em nome de Deus. Os outros também têm Deus. Um mesmo Deus senhor da Terra e dos animais. Um Deus poderoso, omnipotente e justo. Como justo? Quer uns quer outros interrogam-se, sobre a justeza de se matarem uns aos outros, de se armadilharem ignominiosamente.

A guerra, qualquer guerra é uma humilhação do homem. Ele sempre fora pacifico, mas irritava-se, por vezes. Sentia a impunidade com que se cometiam fraudes e atentados à dignidade. Considerava-se um humanista. Herdeiro do humanismo subjacente à  Revolução Francesa. Ir a Paris, um sonho de anos. A Pátria da Liberdade. Paris em chamas de amor.

Pica, passo, pica, passo, pica, passo. Suor e sangue na sola dos pés e no calcanhar. Pés chatos, joanetes. Ainda pensara que se iria livrar. Pica, pé, pica, pé, pica, pé...

Chegaram ao perímetro de segurança, exaustos, os dez da frente. Psicologicamente exaustos.

Manuel António, os olhos em volta, desolação. E para dentro de si: Cristina, meu amor, mais uma etapa, dentro, onde a solidão se povoa e se transforma em alarido, contentamento.

Chegam ás portas do "quartel". Manuel António estaca, estarrecido, cambaleia, os olhos vidrados, comoção, medo, terror, incredibilidade do que vê.

Como toupeiras, nus, apenas uns calções esfarrapados. Os corpos escuros do sol, da poeira, suor, lama. As barbas negras e os cabelos crescidos, pré-históricos, urrando selvaticamente, possessos de humanidade, assaltam os camiões. sem ordem, sem protocolo, em busca de cerveja, ainda que quente, saltitam enquanto uns outros, incrédulos assomem dos buracos cavados no chão que lhes servem de caserna, de quarto, de abrigo. Coçam-se, esbracejam. Gritam e dizem palavras inteligíveis. Trocam abraços. Um grupo, perto, de olhos parados, sem tempo, sem luz. Olhos mortos. almas agarradas a um fio de memória que se recusa morrer.

Ninguém se conhece e são como irmãos. Mais que irmãos. Amam-se e não sabem que é amor o que sentem, porque se abraçam, se beijam. Dizem que sofrem ataques diários. Abalar psicológicamente. Ouvem-nos gritar por entre o som da metralha. Vêm pela calada da noite. Chamam-lhes nomes ofensivos. Espalham ódio. Não os querm destruir fisicamente, só abalar a psique, a altivez da cor da pele. Correr com eles, os nossos soldados. Nossos. De quem?

 

 

                                                                  

 

Hino a Gandembel

Gandembel das morteiradas,
Dos abrigos de madeira
Onde nós, pobres soldados,
Imitamos a toupeira.

- Meu Alferes, uma saída!
Tudo começa a correr.
- Não é pr’aqui, é pr’ponte!,
Logo se ouve dizer.

Oh!, Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (1) e morteiradas.
Oh!, Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se ligam os rádios
Ao som de estrondos e tiros.

A comida principal
É arroz, massa e feijão.
P’ra se ir ao dabliucê (2)
É preciso protecção.

Gandembel, encantador,
És um campo de nudismo,
Onde o fogo de artifício
É feito p’lo terrorismo.

Temos por v’zinhos Balana (3),
Do outro lado o Guileje,
E ao som das canhoadas
Só a Gê-Três (4) te protege.

Bebida, diz que nem pó,
Só chocolate ou leitinho;
Patacão, diz que não há,
Acontece o mesmo ao vinho!

Recolha: José Teixeira / Revisão de texto: L.G.
____

(1) Verylights
(2) WC
(3) A famosa ponte Balana
(4) A espingarda automática G-3

sinto-me: Comunicante
música: bairro negro - José Afonso - Marisa
publicado por samueldabo às 17:55
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

CÃO DE NÓS

Enterrei o Médor, o velho cão que foi um de nós, sob a copa frondosa do Pinheiro manso em frente das últimas casas da Vila, na pequena mata que a semi circunda.

Atravessei as ruas com ele à costas, pesado. Numa das mãos a pá com que revolveria a terra, cavando o buraco suficientemente fundo para que os outros animais não lhe descobrissem o corpo.

A Vila tem pouca gente, já. Foram partindo aos poucos da inacção ao desenvolvimento. Da pobreza dos espíritos, cadáveres adiados que assomam ás portas a ver-me passar, o saco negro às costa. Médor, o cão de nós. E eles, velhos. Quem os levará? Quando?

E enquanto caminho relembro,

Médor, arrancado ás tetas da mãe, sugando o biberão que lhe arranjámos com carinho, os ganidos de bebé, como um bebé, a aconchegar-se onde sentia o quente, os olhos vivos. Cheirando-nos, absorvendo-nos para não mais esquecer. Para ser um de nós, para sempre.

Quando cresceu, atrevido, ladrava e dava ao rabo quando sentia que fizera algo que não devia, como roer sapatos, escavar sofás, ou rasgar uma qualquer peça de roupa esquecida ao seu alcance

.As idas ao médico. Curioso, como gostava do médico. Zangava-se era comigo que o segurava enquanto o outro lhe espetava a agulha.

Pesa que nem chumbo, digo para comigo, e ainda falta um tanto de caminho. Saúdo os mortos à porta das casas, que me olham . Não sei se me vêm, mas olham-me. Assustados.

As correrias loucas na areia da praia, os buracos que abrias e cheiravas e escavavas mais, até desapareceres  sobre o monte de areia.

-Médor!... chamava-te e vinhas louco, em zig zags alucinantes e quase me derrubavas.

Estou a lembrar-me da tua primeira queca. A cadela com o cio tinha um namorado cioso. Mas tu eras destemido, era a tua primeira vez e o cheiro alucinou-te, correste para ela, montaste-a e introduziste de imediato o teu membro erecto, sem preparação. O outro cão furioso, não fora eu a afugentá-lo com um pau, tinha-te desfeito.

Fizeste o teu papel de macho. Nem sei se tiveste o teu orgasmo. Nem sei se os cães têm orgasmos. Porque a cadela assustada com o alarido do namorado forçou a descolagem, e fugiu espavorida. Tu ganias desalmadamente. Pudera, ia-te arrancando o sexo. As entranhas.

Já vejo as árvores que se perfilam ao longo da estrada. São Pinheiros e Eucaliptos, algum  mato rasteiro, pequenas plantas amarelas, azedas, que chupávamos em crianças, descuidados, travessos.

A tua queca saiu-nos cara. Atingiu-te a próstata, médico, medicamentos. O teu sofrimento, os teus olhos doces clamando protecção. A minha mão sobre a tua cabeça .

Comias desalmadamente e vinhas ainda reclamar do meu prato quando te agradava. Ganias. Adoravas raia cosida.

Meu cão de nós. Médor.

Depositei o saco negro na areia junto ao Pinheiro e, com a pá, fui retirando areia, depois terra, raízes, alargando o espaço, a medir-te, morto, a ver os teus olhos vivos como se rissem ,da alegria de me ver chegar. A cova. Olho o volume que se evidencia  dentro do saco.

Eras um cão bom. Lambias os gatos da casa quando eles se enroscavam no teu corpo à procura de quente. Quando se levantavam e te arranhavam, ganias e ainda levavas uma patada assanhada. Doce cão. Médor.

Pego no saco e coloco-o na cova, mas reparo que fica pouco espaço até à superfície. E cavo um pouco mais.

Entravas pelo mar quando nadávamos e vinhas até nós, contente e lambias as nossas caras. Nadavas a nosso lado para terra, como se competíssemos.

Os nossos passeios. E de como fazias as necessidades sempre de encontro a uma árvore. E de como dormias aos pés da cama e te incomodavas sempre que eu estendia os meus pés e te tocava.

Volto a colocar o saco. Sim, agora está perfeito. É suficiente. E volto a reencher a cova colocando terra sobre o teu corpo. Estás morto. E vives ainda, infinitamente em nós, até ao fim de nós.

sinto-me: contemplativo
música: amigo...amiga (dueto de Roberto Carlos e Bethãnia
publicado por samueldabo às 22:10
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

É A HORA DE LIBERTARES AS PALAVRAS!

 

                               Para ti

É a hora de libertares as palavras

meu amor

que de angústia se tornem

 alegres viçosas

que te afirmem como a vontade

de ser diferente

e de saberes que és um sonho

que queres realizar

ainda que contra toda a gente

porque é tempo de libertares as palavras

meu amor

há tanto contidas sofridas amargas

que te desesperam

nos silêncios da razão

que te impedem de andar e de viver

a vida feliz que procuraste

e de ser livre como as aves

que batem as asas

da tua imaginação

Chegou o momento de libertares as palavras

meu amor

de reconstruíres os cacos

que se partiram de ti e jazem intactos

de criares novos alicerces

mais sólidos

de amares o amor eterno

ainda em ti latente e perene

dos sonhos que povoam

a tua mente.

 

 

sinto-me: esperançado
música: Danúbio Azul
publicado por samueldabo às 09:31
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

O DELFIM NÃO ERA UM ASSASSINO!...

O Delfim era um jovem. como todos os que compunham a Companhia, arrancado compulsivamente à terra, à família, aos amores. Um jovem alegre, mas intranquilo, emocionalmente frágil, questionante do porquê ele, ali, algures África.

Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas  e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...

O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.

O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa,  nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede  e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.

Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.

-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.

A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.

Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..

- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?

-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?

Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .

-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.

Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel  António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.

-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.

Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.

-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.

Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma  aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.

-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.

Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.

Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.

Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.

Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.

Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?

Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.

O básico a correr.

-É básico, o que foi?

-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.

O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:

 

                  Esta noite

        quando todos dormirem

               pego no vento

                       e fujo...

 

sinto-me: Interrogativo
música: bairro negro - José Afonso - Marisa
publicado por samueldabo às 23:19
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Sábado, 5 de Julho de 2008

MEMÓRIAS DA GUERRA - CORREIO

Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe,  te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.

As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.

O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.

Advinha destes condicionalismos  a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.

Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre  a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.

Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências

sem outros ouvidos.

Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.

Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se

amavam? Teria já nascido o meu filho?  Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas  passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.

Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.

Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.

- Quarenta e dois!

-Oi!  O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.

Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.

- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.

Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.

-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!

E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.

sinto-me:
música: batuque africano
publicado por samueldabo às 08:45
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

MAMÃ PORQUE SOU PRETA SE TU ÉS BRANCA?

O pai de origem Indiana, estatura média, magro, o cabelo ondulado, negro e os olhos mistério dos longes deixados, escuros, cintilantes e sempre agitados, como se temessem o ar que circunda à volta de si, a pele escura, geneticamente negra.

É especialista em medicina molecular. Estava em Moçambique quando se deu a revolução que o levou a ter de escolher entre ficar e partir. Escolheu partir, por não acreditar nas novas classes dirigentes, por temer as convulsões inerentes à mudança, por um desejo de aventura. A Europa...

E veio e conheceu a mãe, uma mulher linda de cabelos castanhos e pele morena, olhos castanhos escuros, um sorriso encantador, o corpo de formas harmoniosas, afável.

É especialista em medicina familiar e enamorou-se deste homem belo, que conheceu num simpósio sobre: Novos Contributos da Genética Molecular para a Medicina.

Apaixonaram-se, misturaram culturas, casaram e tiveram uma menina exóticamente bela, saída deste amálgama de genes tão distantes, e tão geneticamente próximos.

A menina tinha a pele escura e uns olhos escuros desmedidos no rosto pequeno, mas belos, únicos. Cresceu e foi à escola. Era inteligente. Absorvia tudo o que ouvia, via e escutava, mas tinha um olhar triste. Sentia que não era igual aos outros meninos. Não era preta nem branca, era escura, mas de um escuro indefinido  e via nos olhos pasmados dos outros meninos uma interrogação muda, um olhar estranho sobre o seu corpo, como se fosse um bicho raro, ou tivesse uma doença exposta que a definisse como ser imprópria para brincar as mesmas brincadeiras dos outros meninos e meninas.

Um dia eles, os colegas da escola, riram-se espalhafatosamente quando chegou e chamaram-lhe um nome diferente:

-Monhé!  Preta Monhé!...

Ficou aterrada, petrificada de onde ouvira em tom jocoso, do lado de fora do outro mundo que era o deles. Baixou os olhos lindos e grandes que choravam em silêncio. Foi assim que a encontrou uma professora que passava, que repreendeu os meninos e meninas com uma voz suave, mas firme.

Na aula o tema foi as origens do tom da pele e o respeito pelas diferenças. Os meninos e meninas foram convidados, à saída, a dar um beijinho à menina e a pedirem desculpa pelo seu acto. E a menina acalmou. Acalmou, mas não esqueceu.

à noite, na sua casa, quando os pais e ela se sentaram à mesa para o jantar, a mãe já estranhara o misterioso silêncio dela, sempre tão alegre quando chegava da escola, como se entrasse num reino seguro onde se libertasse dos medos.

-Mamã, porque sou preta se tu és branca?

Os olhos grandes, muito abertos, fixando não a mãe mas o pai, um trejeito nervoso nos lábios carnudos de menina.

Olharam-se todos num silêncio de gritos assustados. Como se tivessem percebido agora, ele  e ela, o pai e a mãe, que falhara algo na comunicação deles com a menina. Mas então e o colégio, um modelo de educação e ensino em que confiaram?

-Minha querida, a cor não importa. O importante é o saber. Sermos diferentes...

-Não!, Disse a menina, não quero ouvir essa explicação. Já a ouvi hoje.  Queria apenas saber se era verdade ou se havia outra explicação. A culpa é dele!

Apontou o pai que assistia à cena com um ar apavorado e carente de amor, do amor daquela filha que amava e que esquecera na luta pelos outros.

-Não quero viver mais com ele!....

E correu para o quarto, chorando, a menina exóticamente bela de olhos grandes, escuros de mistérios de longe.

 

sinto-me: comunicativo
música: Apocalipse
publicado por samueldabo às 15:37
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