Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

SÓ SE AMA UMA VEZ

Questiono-me se a razão de tantos divórcios e violência entre casais, não será uma consequência da chamada emancipação da mulher.

Muitos homens sempre tiveram da mulher uma imagem de objecto, que se queria vistoso e apresentável em público, dotes na cozinha e na decoração da casa, exemplar mãe, fiel ao matrimónio e ainda que fosse boa na cama, a praticar sexo. E não deixaram de a ter.

Muitas mulheres, relegadas desde sempre para esse papel de falsa solicitude, tornaram-se, de repente, tal qual os homens, senhoras das mesmas tentações.

A banalidade dos jogos sexuais, deixou pouco espaço para a descoberta. Muda-se de parceiro, como de camisa. E as desilusões são constantes de parte a parte . Fidelidade, respeito, família,  não fazem parte dos planos.

A mulher passou a líder , qual leoa, não dando margem para discutir o modelo de vida. O homem já não se quer viril e forte de emoções. É vantajoso que tenha fama e dinheiro.

As fábricas de perfumes venderam a ideia de odor corporal mutante. O loock da famosas, fúteis , mas muito badaladas, marca a moda, no vestir e no comer.

 Os cotas, casados à 40/50 anos estão em vias de extinção.

Ter filhos, o mais tarde possível . Ou nunca.

É verdade que a população mundial não deixa de aumentar. Para quê mais crianças em risco?

Carácter, ética, amor? São nulidades.

A felicidade é tão mais simples.

sinto-me: comunicativo
música: Não voltarei a ser fiel (Olavo Bilac)
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publicado por samueldabo às 13:54
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

EREMITAS NA MULTIDÃO

Observo as pessoas que se cruzam no caminho, homens, mulheres, crianças. Casais sorridentes ou de rostos opacos. Expressões de convivências difíceis , ou a bonomia de andanças concertadas.

Rostos que encerram dramas sigilosamente escondidos.

-Como estás?

-Tudo bem. Tudo numa boa. E tu?

-Melhor não podia ser.

E é mentira..

As crianças também reflectem a alegria e a tristeza. Inocentes, não sentem a força de mentir e seguem guiadas pelas mãos, por vezes inquietas, dos que as chamaram ao mundo para proveito próprio.

Somos todos o fruto de uma relação que nem sempre, quase nunca, nos teve em conta. E criamos problemas uns aos outros, para que o nosso caminho seja menos sinuoso.

Olho o rosto daquela mulher que tira um cigarro do maço e o coloca nos lábios. Andar vacilante a fingir confiança, maturidade. Os olhos fugidios, não mentem. A seu lado, passo desacertado, mãos caídas , oscilando, um homem que espelha a desordem emocional do momento, dos momentos.

Passam por nós e nada. Cada um por si. A construir a bola de neve que nos incomoda e sem espaço para a explosão da vontade.

 

sinto-me: solidário
música: Marcha Nupcial
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publicado por samueldabo às 17:55
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O FIEL JARDINEIRO OU O FIM DA IND.FARMACÊUTICA

E se de repente, num momento de magia e clarividência total, todas as pessoas resolvessem aplicar os ensinamentos colhidos ao longo dos últimos 200 anos sobre a qualidade de vida?

Alimentação cuidada. Exercício físico. Existência despreocupada. moderar o fumo e a bebida acima dos 12 graus.

Os laboratórios farmacêuticos deixavam de lutar pela melhor imagem de marca para um mesmo produto.

Voltavam as boticas para ocorrer a eventuais maleitas, manipulando princípios activos naturais.

Fechavam os laboratórios e acabavam as experiências especulativas.

As mortes súbitas na riqueza de uns quantos. 

 

sinto-me: curioso
música: A barata diz que tem (música infantil)
publicado por samueldabo às 10:12
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

O VAGABUNDO

O velho conceito de liberdade, o estipular que a liberdade de cada qual acaba onde começa a do outro, é uma falácia para ordenar as camadas de gente segundo um critério de conveniência.

O vagabundo é, em si próprio, um símbolo da liberdade absoluta..

O vagabundo não dá nem recebe do estado.

O vagabundo não tem dinheiro nem propriedades. Alimenta-se de sobras e da repugnância dos que o querem ver longe. Colhe o sol e a chuva, o frio, o calor e dorme ao relento no asfalto ou no abrigo de um recanto, sem medos nem sobressaltos, coberto de destroços de mantas encardidas ou folhas avulsas de jornal.

O vagabundo não aceita favores nem asilo em lares inventados à sua medida, cama, mesa e roupa lavada. A refeição quente do dia. Leis. Deveres/obrigações

Os senhores muito ricos vivem numa constante falta de liberdade. Rodeiam-se de guarda costas. Não podem saborear as mais simples alegrias da vida. Vivem fortificados em casas super vigiadas e protegem os filhos pequenos da promiscuidade pública.

Os senhores muito ricos abominam os vagabundos porque são o advento da desgraça e seguem uma vivência atulhada de medo, quando saem à rua ou se anuncia algum eminente cataclismo económico que não previram ou não puderam controlar.

O vagabundo passeia-se pelas ruas do império que os senhores ricos criaram, caga , mija e vocifera contra as barreiras de ruas em reconstrução.

O vagabundo lava-se nas bicas e lagos da cidade. Não paga água, gás , electricidade. Não usa telefone ou celular. Muito menos internet  Não paga rendas. Não paga impostos. Não utiliza os serviços da justiça. Não polui o ambiente. Não faz economias nem gera riqueza. Não joga na bolsa.

O vagabundo vê televisão sem pagar taxa e lê todos os jornais e revistas, para não perder o sentido das palavras, sem os comprar.

O vagabundo não teme o trabalho nem o desemprego. Fuma dos restos deitados à rua ou crava os passantes desprevenidos.

O vagabundo não perde tempo com o tempo. Não há passado nem futuro. É um observador atento. Não promove a guerra nem desenvolve armas de destruição maciça.

É completamente livre.

 

 

registed by: Samuel Dabó

sinto-me: à revelia do rebanho
música: A Portuguesa (HINO)
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publicado por samueldabo às 21:47
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CASINO

Os corpos movem-se, como autómatos, num frenesim de passos decididos, ou simplesmente trôpegos . Em frente das máquinas de jogo, rostos transtornados pelas perdas da noite. Abstractos , outros, vão rodando os rolos atrevidos que teimam em não acertar as combinações, na esperança de um grito de alegria à eventual saída do prémio máximo.

Jovens de copo na mão, sorridentes,  vagueiam ao sabor da música exibida e soltam gargalhadas e gritinhos estridentes que ferem os tímpanos de velhos decrépitos colados, numa simbiose, ao objecto escolhido no momento. Olhos fixos, sem expressão definida .

Os jogadores soltam pragas e vociferam obscenidades contra as máquinas avessas. Batem nas máquinas com inusitada violência e não se magoam. Bebem e fumam sem moderação.

Filas de espera aguardam vagas. Há marcações.. Discussões porque eu já cá estava. Gritos de violência avulsa. Atropelos.

O jogador e a máquina. Acreditar que o momento é seu. A conta no banco a baixar. A violência dos danos auto infligidos já sem o domínio da razão. Ela vai dar. Vou recuperar. O multibanco que recusa a ordem. - O quê? Já atingi os quatrocentos euros?

Ultrapassado o limite diário da caixa multibanco,  há a caixa do casino.

De quem, o dinheiro? de quê?

Trabalhadores esforçados sonegam à família um conforto possível, na esperança, dizem, de obter melhores resultados. Mas também gente endinheirada, protagonistas de economias paralelas. Lavagem de dinheiro. Vicio. Dinheiros do fisco. Da Segurança Social. Dos credores a 90 dias. Das tesourarias das empresas. De empréstimos  obtidos junto de amigos ou nos agiotas. Loucos. 

Depauperados, inimigos de si próprios, fazem doze horas seguidas de exaltação, mal comendo, mas bebendo e fumando. E voltam sempre. Na tentativa vã de recuperar o irrecuperável . Incansáveis na procura do dia, do momento.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

sinto-me: Vigilante
música: A Portuguesa (HINO)
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publicado por samueldabo às 12:05
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

MEMÓRIAS DA GUERRA (F)

Naquele dia o dilúvio abateu-se sobre a terra vermelha, numa mistura confusa de vento e chuva, qual deles o mais violento dos elementos, causando a destruição na floresta, árvores tombadas, torrentes de água e lama de mistura com os gritos espavoridos dos macacos.

As chapas de Zinco que cobrem os telhados das casernas, voam como frágeis folhas de papel e os homens, esses , saem para a rua eufóricos, os corpos nus. Esguicham , aqui e ali como os macacos e saúdam a chuva, cambaleantes, ao sabor do vento.

Manuel António escrevia a centésima carta, uma por dia. Meu grande amor....

Saltou à rua para, também ele, saudar as primeiras chuvas. Por pouco um pedaço do telhado desavindo com a intempérie , não o atingiu. Pensou melhor e voltou à escrita da carta interrompida.

Um companheiro, o Falcão, entrou de rompante na caserna, os olhos esbugalhados, a cara ardente e um laivo de espuma no canto dos lábios. Era um tipo obscuro, de poucas palavras, que se fixava em temas pouco viáveis à razão. Diziam que estava apanhado, louco.

O Falcão passava o tempo disponível bebericando na cantina. Dirigia a palavra a um qualquer sem esperar a resposta. Não havia resposta.

Manuel António estranhou a entrada súbita de tal personagem àquela hora. Medo da tempestade?

O Falcão queria falar. Trazia na mão uma granada de mão ofensiva.

- Sabes, Manuel António, tenho muita consideração por ti.

Cala-se, por momentos e olha a granada. Manuel António não sabe o que pensar, tolhido pela imagem da granada e os olhos do outro, longe, ausentes da conversa que ele próprio começara.

- Que fazes com uma granada nas mãos?

A tempestade amainava e já o Sol procura romper os farrapos de nuvens em louca correria.

Falcão, olha a granada, mais uma vez e diz.

- Gostava de ver o efeito da explosão, os estilhaços, rompendo o ar quente. Mas, claro, eu sei que não é possível . Está descansado que não vou tirar a cavilha.

Manuel António sentiu medo e incapacidade para lidar com a situação. Estavam ali os dois a olhar a granada, apertada na mão de Falcão, verde escuro, oval, a granada.

Assim como entrou, Falcão saiu sem dizer mais. Manuel António respirou de alivio e fechou a carta de muitas folhas que acabara de escrever para Alexandra. Deitou-se na cama para reflectir um pouco sobre o episódio e adormeceu.

Ao acordar, a noite caíra sobre a tabanca . Sonhou com a terra distante onde tudo parara à sua espera, e fluidos de amor subiam no ar fresco e leve das manhãs.

Havia grande alvoroço na caserna. Grupos falavam em surdina, meneando cabeças. Gestos incrédulos. Perguntas no ar. Sem resposta.

- Cá para mim foi algum turra infiltrado. Dizia um. E logo outro, incrédulo, longínquo .

- Mas, os cantineiros ? Não fizeram mal a ninguém. Não mataram. Não comeram mulher grande, nem bajuda . Não roubaram galinhas, cabrito.

Manuel António ficou a saber que alguém tinha atirado uma granada para o interior do balcão da cantina dos soldados. Que tinham morrido os dois  cantineiros Que não se sabia quem fora. Estava instalada a confusão. Vieram peritos da Cidade. O medo de novos atentados.

Manuel António pensou em Falcão. A granada oval, verde escuro, morte. O semblante alterado. Os olhos, longe. Mas, não, não era possível . Companheiros, uma quase família.

 

 

registed by: Samuel Dabó

 

sinto-me:
música: saudade, silêncio e sombra
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publicado por samueldabo às 11:28
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

REGISTO COMERCIAL - AS EMPRESAS QUE SE CUIDEM

As conservatórias do registo comercial são um negócio que o governo podia privatizar. Com a concorrência , então criada, talvez os preços dos actos fossem menos onerosos.

Uma pequena empresa, com cinco mil euros de capital, quer fazer uma alteração do pacto social? Por exemplo, passar a sociedade por quotas ? Custa 375 euros.

A mesma empresa quer em simultâneo atribuir as quotas (2) ? São mais 200 euros.

Quer alterar a morada? São 200 euros.

E por aí fora. Cada acto é um acto. Simplex !

 

 

sinto-me: impotente
música: vampiros
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publicado por samueldabo às 23:32
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